Não lembro o dia, mas sei que comecei a ficar nostálgico em junho ou julho de 2001. Quando as manhãs belorizontinas esfriam e o céu fica de um azul tão bonito. Imenso, claro, infinito. A partir do inverno de 2001, por mais outros dez consecutivos, era só baixar a temperatura que eu sempre voltava a reviver o inverno de dois mil. Nada me avisava dessa lembrança. Ao andar numa rua qualquer, quando dava por mim, estava encolhendo o corpo dentro de um moleton surrado e sentindo novamente esse outro período de minha vida. E o que houve de tão belo e excepcional no inverno de dois mil, meu caro, o que aconteceu aí? absolutamente nada.
A lembrança que me veio com força descendente nos últimos dez invernos é tão banal que fica difícil até mesmo descrevê-la. Nessa época de frio, no meu último ano de colégio, nós descíamos para o pátio do colégio, durante o recreio, e ficávamos unidos, sentados numas frias mesas de mármore, cobertos por moletons “hard rock cafe” e ideologias burguesas. Sentávamos próximos uns dos outros, conversando e buscando um lugar ao sol, literalmente. Foi um tempo de reforço nos laços de amizade, de aproximação de meninos e meninas, em todos os sentidos. Essa lembrança que agora começa a perder seu sentido, totalizava minha experiência daquele tempo, daquele colégio, as angústias de solidão daquele momento. Nós, próximos pelo frio, tentando esquentar o corpo, conversando tranquilamente no último ano de escola, na passagem de momento na vida, no preparo do rompimento desse laço “semi-natural” que nos unia naquela escola de classe média alta na zona sul-sul do belot.
A lembrança do amigo tão querido, morto de forma tão besta, dói muito nesses momentos. Como pensar que o Bogus, tão presente naquelas conversas de inverno já não está mais presente aqui, nessas primaveras e nesse verão.
A partir de inverno de 2001 passei a viver um pouco mais o passado, a me voltar sempre para uma lembrança, para um olhar. Mas, mais do que uma coisa assim fragmentada o que mais se inaugurou nesse momento foi reviver um tempo-espaço tão significativo a partir de um momento singular. E agora, o natal. O fim de ano, esse tempo extendido em minha cidade natal, os reencontros com amigos tão queridos que também foram viver longe da Afonso Pena. Nos últimos dois anos venho rememorando o fim de 2009. Época difícil de finalização e muita angústia no mestrado. O momento da escrita final, no qual antecipava em parcelas e sem tanto medo, a certeza objetiva de uma mediocridade acadêmica, quando esperava tanto de mim e de minha escrita. Fiquei por muito tempo esperando as belas frases e as análises inteligentes que deveriam aparecer. Esqueci que elas não caminham sozinhas, e que não se faz uma dissertação apenas com citações instigantes e pensadores complexos. Momento de viver para dentro, nesse lugar inóspito e solitário, de repensar caminhos e escolhas. Esse momento que foi de muita angústia, mas também de belezas e exuberâncias, quando tomamos para nós mesmos a vida, a suja, a do “wild side”.
Ah, como fico melancólico e saudoso ao beber com amigos queridos na minha cidad.. Bom, que venha dois mil e douze. Com novas lembranças, novas saudades. Que se aprochegue mais essa senhorita vida. Safada e altaneira.
Ah, como gosto dessa palavra, “altaneira”…