Cena de Cinema #1 – Malena

    

     Algumas cenas de filmes me acompanham pela vida toda. Vez ou outra, no meio de uma angústia ou de uma rua, lembro-me de uma dessas cenas, de uma fala, um silêncio, uma pausa, um beijo. São cenas que transformam um filme que mexem com o meu olhar. Como Abdias estou sempre acompanhado do diabo da análise, e com isso não consigo deixar a cena quieta no lugar dela, na sala de projeção ou na televisão. Ela vem e se instala na minha cabeça, passeando comigo pela vida.

     Essa seção é dedicada a essas cenas. Para os que não gostam de saber do final dos filmes é melhor não ler mais as linhas que seguem. O passeio pelos meus devaneios não sabe dizer de início, meio ou fim.

     “Malena” conta a história de uma bela viúva siciliana na segunda guerra mundial. A personagem central é interpretada pela única atriz possível: Monica Bellucci. O narrador da trama é um rapaz de 13 anos, como todos os moradores masculinos da vila onde mora, ele está completamente atormentado de desejo pela bela viúva. O filme narra os olhares, os desejos e abusos que envolvem Malena. Sempre a partir do olhar apaixonado do menino.

     Ao final do filme vemos o menino pedalando, na direção oposta a Malena, e ouvimos sua voz. Agora ele é um homem velho que finaliza aquela história. Ele nos diz que depois de Malena teve muitas mulheres, mas que a única mulher que ele nunca esqueceu foi ela, foi Malena.

Publicado em: às 27/01/2012 em 17:30  Deixe um comentário  

Caderno de viagem – o neurótico de férias

Minha tensão precisa se manter sempre em estado constante. Não consigo assim relaxar por completo, nunca.

Por exemplo, agora, enquanto viajo e a vida é só calmaria, belezas e exuberâncias, logo logo chegam meus meus sonhos para dar uma atormentadinha e manter meu nervosismo no seu estado natural. Hoje a noite sonhei 3 vezes que o despertador tocava e eu não acordava para o café da manhã do albergue. No sonho via nitidamente o meu relógio e às horas, e apesar de estar atrasado nunca levantava e daí o sonho se repetia. Além disso sonhei também com um filósofo que gosto muito, o Jacques Ranciere. No sonho ele não parava de falar e não deixava ninguém argumentar, autoritário, dizia que só ele sabia o que a igualdade era, de verdade.

Publicado em: às 11/01/2012 em 13:05  Comentários (4)  

Inverno de 2000

Não lembro o dia, mas sei que comecei a ficar nostálgico em junho ou julho de 2001. Quando as manhãs belorizontinas esfriam e o céu fica de um azul tão bonito. Imenso, claro, infinito. A partir do inverno de 2001, por mais outros dez consecutivos, era só baixar a temperatura que eu sempre voltava a reviver o inverno de dois mil. Nada me avisava dessa lembrança. Ao andar numa rua qualquer, quando dava por mim, estava encolhendo o corpo dentro de um moleton surrado e sentindo novamente esse outro período de minha vida.  E o que houve de tão belo e excepcional no inverno de dois mil, meu caro, o que aconteceu aí? absolutamente nada.

A lembrança que me veio com força descendente nos últimos dez invernos é tão banal que fica difícil até mesmo descrevê-la. Nessa época de frio, no meu último ano de colégio, nós descíamos para o pátio do colégio, durante o recreio, e ficávamos unidos, sentados numas frias mesas de mármore, cobertos por moletons “hard rock cafe” e ideologias burguesas. Sentávamos próximos uns dos outros, conversando e buscando um lugar ao sol, literalmente. Foi um tempo de reforço nos laços de amizade, de aproximação de meninos e meninas, em todos os sentidos. Essa lembrança que agora começa a perder seu sentido, totalizava minha experiência daquele tempo, daquele colégio, as angústias de solidão daquele momento. Nós, próximos pelo frio, tentando esquentar o corpo, conversando tranquilamente no último ano de escola, na passagem de momento na vida, no preparo do rompimento desse laço “semi-natural” que nos unia naquela escola de classe média alta na zona sul-sul do belot.

A lembrança do amigo tão querido, morto de forma tão besta, dói muito nesses momentos. Como pensar que o Bogus, tão presente naquelas conversas de inverno já não está mais presente aqui, nessas primaveras e nesse verão.

A partir de inverno de 2001 passei a viver um pouco mais o passado, a me voltar sempre para uma lembrança, para um olhar. Mas, mais do que uma coisa assim fragmentada o que mais se inaugurou nesse momento foi reviver um tempo-espaço tão significativo a partir de um momento singular. E agora, o natal. O fim de ano, esse tempo extendido em minha cidade natal, os reencontros com amigos tão queridos que também foram viver longe da Afonso Pena.  Nos últimos dois anos venho rememorando o fim de 2009. Época difícil de finalização e muita angústia no mestrado. O momento da escrita final, no qual antecipava em parcelas e sem tanto medo, a certeza objetiva de uma mediocridade acadêmica, quando esperava tanto de mim e de minha escrita. Fiquei por muito tempo esperando as belas frases e as análises inteligentes que deveriam aparecer. Esqueci que elas não caminham sozinhas, e que não se faz uma dissertação apenas com citações instigantes e pensadores complexos. Momento de viver para dentro, nesse lugar inóspito e solitário, de repensar caminhos e escolhas. Esse momento que foi de muita angústia, mas também de belezas e exuberâncias, quando tomamos para nós mesmos a vida, a suja, a do “wild side”.

Ah, como fico melancólico e saudoso ao beber com amigos queridos na minha cidad.. Bom, que venha dois mil e douze. Com novas lembranças, novas saudades. Que se aprochegue mais essa senhorita vida. Safada e altaneira.

Ah, como gosto dessa palavra, “altaneira”…

Publicado em: às 02/01/2012 em 14:04  Comentários (2)  

Isto é um assalto!

Já há algum tempo vinha pensando que nunca mais seria assaltado. Mesmo morando no rio, considerava cada vez mais  remota a possibilidade de ter uma grana extorquida por outro ser humano, ao atravessar uma rua ou ao sair de casa. E olha que eu já vinha, com tranquilidade, atravessando o túnel velho, na alta madrugada carioca.

No entanto, não é que há poucas horas, voltando de uma casa amiga na minha cidade natal, ouvi algo como “me passa o celular”, “isto é um assalto” ou “fica quieto e me passa a grana”. O sujeito chegou rápido, era menor do que eu, mas acabei levando a pior, talvez, pela surpresa do anúncio. Mesmo um tanto bebâdo nessa hora de aperto me sobreveio uma força primitiva de luta. Quando o agressor se aproximou de mim, e anunciou o ataque grudei em seu corpo e logo estávamos os dois no chão. Ainda na luta o empurrei para um pouco mais longe de mim. Nesse momento achei melhor correr aproveitando a distância momentânea. Dei um pique de vinte metros e logo olhei para trás. A primeira intenção era  saber se o assaltante vinha atrás ou não. A segunda era entender quais eram suas reações. Ao levantar vi que minha camisa tinha um rasgo considerável e que o assaltante, já distante estava próximo de uma caçamba repleta de pedras. Resolvi prosseguir no meu caminho, com o coração sobressaltado, mas ao mesmo tempo consciente de que estava seguro. Não sei porque diabos me lembrei nesse mesmo instante da frase do Walter Benjamin: “as citações, no meu trabalho, são como ladrões à beira da estrada, que irrompem armados e arrebatam o consciente do ocioso viajante”.  Bom, eu não tinha nenhuma citação no momento, apenas ladrões me irrompendo pela estrada e interrompendo um poético e ocioso viajante. Minha tranquilidade pequena burguesa ficou no caminho, assim como o rasgo da camisa. Há mais de quinze anos não era abordado ou assaltado, ou nada do gênero. Apesar de saber, sempre, que isso não significava absolutamente nada.

A vontade foi voltar logo depois e arrebentar a cara do sujeito. O que durou por volta de vinte minutos. Depois disso nada restou, no máximo a consciência de evitar andar pela avenida nossa senhora do carmo depois das duas da manhã, e também uma escoriação no cotovelo, mas que não chega mesmo a ser uma dor.

Publicado em: às 26/12/2011 em 06:31  Deixe um comentário  

Bipianas #3

Quando chego no bip fico pensando nos bons motivos para voltar lá, aos domingos.

Dessa vez lembrei que ao sair do Bip sempre fico mais reflexivo, mais dados aos mexericos da mente. Olhando distraidamente para o Alfredinho pensei que um homem, quando dá certo, dificilmente é algo mais do que a persistência de uma chatice em volta de um problema qualquer. Um homem ou uma mulher, que fique claro. O “xis” da questão é saber que problema é esse. Pode ser a revolução social. A dialética marxista. A militante comunista de outrora. Pode ser o Atlético Mineiro. Pode ser a Adidas. Pode ser a família. É o samba.

Pois é. No meu caso é o samba. Fico ao redor dele, tentando fazer sentido do resto, quem sabe dá certo…

Foi lá no Bip, há pouco mais de dois anos, que ouvi a música “A Ponte” do maravilhoso Elton Medeiros e senti algo estremecer aqui dentro do peito.

Publicado em: às 19/12/2011 em 02:15  Deixe um comentário  

Tiras terapêuticas #2

Publicado em: às 14/12/2011 em 01:07  Deixe um comentário  

Bipianas #2

Ironia.

Num domingos desses de samba no bip, aconteceu o seguinte. Em geral temos sempre mais cordas do que couros. Mas nesse dia a turma da percursão apareceu reforçada e o samba corria ainda mais bonito. Em determinado momento alguém puxou a maravilhosa Ilu Ayê, samba-enredo-exaltação-black-is-beautiful da Portela de 72.

Negro diz tudo, que pode dizer….

é samba, é batuque é reza, é dança, é ladainha

negro joga capoeira e faz louvação à rainha…

Negro é sensacional

é toda a festa de um povo é dona do carnaval”…

A coisa contagiou e os batuques foram assombrando. Forças ocultas se assomavam a alegria banal, gritos de hoje, gemidos de outro tempo. Um alumbramento se apossou de todos ali presentes. Conversões, absurdos e transmutações se avizinhavam ao momento… O pandeiro, o surdo e os demais  acompanhando/mandando no ritmo da alma.

Nisso, um branco com jeito de europeu, vira para os percurssionistas, a maioria de negros, e os manda diminuir o ritmo e tocar mais lentamente. Logo nessa música, meu deus. Logo nesse momento lindo de desvario. Ah, esse senhor que manda no feudo, no engenho ou só num samba em copacabana.

Os chicotes, sempre eles…

Agora vêm embutidos nas palavras.

Publicado em: às 11/12/2011 em 22:50  Deixe um comentário  

Tiras terapêuticas #1

E eu fico aqui no meio.

 

Publicado em: às 06/12/2011 em 02:10  Comentários (3)  

Futebol e gramática

A CRASE E O FUTEBOL NÃO FORAM INVENTADOS PARA HUMILHAR NINGUÉM.

Eustáquio José da Silva (1939-)

Famoso pai de santo, açougueiro e carnavalesco baiano.

Publicado em: às 05/12/2011 em 20:41  Deixe um comentário  

Dia do Samba

Um dos encontros mais fortes de minha vida foi com o samba. Nós sempre estivemos por aí sem entender muito da força desse encontro. Não me lembro direito quando entendi, ou ao menos vislumbrei o que tinha acontecido. O samba, uma reza, uma oração, uma visão de mundo, um desejo, um olhar… Síntese do Brasil, com todos os problemas e exclusões de qualquer síntese.

“Não, ninguém faz samba só porque prefere” Paulinho e João, nem mesmo escuta, toca ou canta.

No último fim de semana peguei o trem do samba para Oswaldo Cruz. Chegando lá me senti tão bem, tão feliz. Foi como chegar em casa.

Pois não é que Roberto Ribeiro me esperava.

Publicado em: às 05/12/2011 em 13:03  Deixe um comentário  
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