Sobre Vicky, ou das mulheres lindas que têm muitas caras

vicky

Ontem a noite vi, sozinho, Vicky Cristina Barcelona. Confesso que tenho uma mania muito infantil quando vejo um filme que gosto muito, mas mais, filmes nos quais vou me identificando aqui ou ali. Seja em certas características dos personagens, em fantasias latentes, ou no sorriso desta e cantada daquele. Isso me aconteceu com força quando vi em casa, com Gabriela, o segundo filme da série de Truffaut sobre o pequeno Antoine. Tanto nas cenas com a mulher do chefe ou quando o rapaz agia de forma tão tola quanto real na solidão de sua casa.

Vendo o filme, como uma criança envergonhada, fazia gestos histriônicos e vez ou outra tapava a cara como se fosse eu ali na tela, frente àquele tamanho de loura a me fitar e seduzir.

No cinema vendo este ultimo filme do Woody Allen procedi da mesma forma, com risos meio descontrolados numa cena ou noutra. O filme é muito bonito e nos faz ver que aquela velha piada sobre o diretor anda se aplicando cada vez mais. “Gosto muito dos filmes do Woody Allen, só não gosto daquele ator baixinho e feio que aparece em todos os seus filmes”. Não sei falar e mais do que isso odeio esses pseudo-críticos que pululam pela internet nos blogs mil, que sempre analisam os filmes como quem desconstrói um relógio, ou da nota pra escola de samba. Tudo muito entendedor jogando afirmações categóricas que atestariam sua qualidade diferencial em relação à massa ignota. Fotografia….10!; (Samba) Enredo…9,72… Enfim, essas pessoas que fazem de um prazer um trabalho e se postam como especialistas, que aos poucos vão mesmo acreditando ter acesso ao sistema límbico dos diretores e atores. Falam como se sua opinião viesse de uma apuração evidente e revelada aos próprios por um tipo de apreciação que só os iniciados tem. Ainda que possa soar assim também, tenho certeza que minha opinião é apenas isso, uma opinião ou um sentimento. Dedicarei outro post (odeio essa palavra, alguém tem outra?) a isso.

No filme de Woody Allen, a relação de Vicky com a música é bem interessante, pois é o violão que engatilha na bobinha da Vicky uma mulher bonita e profunda, pronta para uma romance latino, ou uma vida cheia de belezas. Uma mulher que produz uma fenda nas banalidades de prestações, detalhes vazios e tecnologias modernas. Além é claro de reforçar minha tese da mulher calada e triste. Por isso é tão bela a cena na qual um casal de amigos americanos e o marido de Vicky discutem casa, tapete e decoração, essas coisas e ela fica lá pairando e alheia, transformada pela música. Então no continuar da cena seu marido conta uma piada, sobre decoração e dinheiro, e aí Woody Allen corta o som. Não ouvimos o final da piada, ficamos com o violão e Vicky…

Ainda que não tenha Woody Allen no filme ele é cheio daquela gagueira nervosa no meio de um turbilhão de palavras que é tão característica de seus personagens e filmes, e que acho um pouco chato. Como se todo mundo que fosse neurótico, ou seja, quase todo mundo, falasse como o próprio diretor. E ainda que ache a história principal um tanto repetida, da vida conjugal chata x as aventuras de uma paixão desvairada e lancinante, é muito bem interpretada e atravessada por pequenos acontecimentos que dão vida a trama. Como a roçada de pé que Juan Antonio faz em Vicky, sem querer. Confesso que fiquei apaixonado mesmo por Vicky, e Rebecca Hall que nunca tinha visto na tela. Como o Veríssimo falou bem o Javier Bardem está canastrão demais, lembrando aquele psicopata do seu filme anterior. E ainda usa umas roupinhas muito backstreet boy. A Scarlett Johansen acaba sendo a mais apagadinha e chatinha, muito inha. Enquanto Penélope destrói tudo ao redor, em todo sentido. Mas, repetindo, apaixonei mesmo pela Vicky. E é dela que falarei.

DO LIVRO DO MULHERIL I / §1º

Perdoada as feias como o verso popular, falemos das bonitas que são as que interessam. Se as paulista tem uma deselegância discreta, as mineiras tem uma elegância standard e sem graça. É só reparar, como a Júlia outra dia mesmo falou, a mulher mineira é bonita e se veste bem, mas parece que todas se vestem igualmente. E também usam o mesmo tipo de cabelo. E Vicky me lembrou muito essas mulheres daqui, na sua graça banal, de quem finge que não é bonita. Como nas cenas frente ao galante Juan Antonio quando uma Vicky envergonhada, tapa a cara, e se assusta com o fato dele ter gostado dela. Vicky tem, no entanto, outra característica que garantiu lugar cativo no meu coração, no espaço destinado às pessoas inventadas de verdade. Ela é linda, mas parece feia em algumas cenas. Parece esquisita e desengonçada. Tem expressões que transformam o seu rosto, o seu jeito. Tem hora que parece a própria imagem do paraíso, como sua expressão ao encarar a spanish guitar. Mas depois se transforma na americana puritana e assexuada recolhida na cama. Vicky nas modulações da face traz uma amplitude de jeitos, de vidas, de mundos. Se você duvida olha as fotos aqui embaixo.

Nessa pluralidade de jeito de ver e viver a vida ganha graça e sentido. E aí não é preciso nenhum Juan Antonio, ou melhor nenhuma Maria Elena. E a vida conjugal passa a ser uma possibilidade real. Talvez por isso esteja feliz com Gabriela hoje. Ela também carregas essas muitas Gabrielas por onde vai, e aí é gostoso ir junto.

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Published in: on 02/01/2009 at 14:01  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Meu velho, por isso que tava precisando conversar com vc cara. Ve se aparece, e mais ainda ve se da um toke na gente. Abraçaum meu velho!

  2. Eu escrevo sempre blogue e postagem — ao invés de blog e post. Acho que fica melhor…

    Gostei da ênfase na Vicky, acho que ela é alguém que quer se “desaflorar” mas não consegue. É preciso que pensemos em estratégias de desafloramento vickyano. (Acho que eu falei mais da Cristina na minha postagem.) A cena da galera discutindo idiotices é realmente ótima, considerei como uma crítica à sociedade americana.

    Muito relacionado à sua vida pessoa, o relato. Prefiro algo mais impessoal. 😛


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