Nunca Mais!

Há um fluxo e uma dinâmica da vida muito difícil de se entender. São coisas que estão sempre por aí mas que de repente se vão e então não voltam mais. De repente, aquela esquina tão cotidiana e banal desexiste na concretude dos nossos passos e passa apenas a habitar um lugar cativo no nosso córtex e afeto. Até hoje não me acostumo com isso. Quando foi o último dia que jogamos futebol no clube até a hora de fechar e aí voltávamos pra casa, todos juntos, cruzando aquela avenida bonita de Belo Horizonte, comentando na frente daquele bar que deveríamos tomar um chopp. Qual foi a última vez que sem vergonha alguma pedi para dormir na cama de mamãe, porque ou estava doente ou simplesmente com medo de um monstro estranho dentro do armário. Quando foi a última vez que sentei com meu irmão num boteco e tomamos aquela cerveja como se não houvesse amanhã. E qual foi a última vez que se ouviu a voz tão familiar daquele “pai” que entrou na nossa vida quando criança e subitamente saiu, quando já adulto. E a cumplicidade secreta dos amigos que não se entregariam nunca, mesmo sob as mais terríveis torturas, mas que num instante seguinte deixa de existir, ficando nada além de um ranço…

Os fatos desenrolam e por mais que ritualizemos alguns deles buscando eternidade nada mais atingimos do que o sentimento de farsa. Como nas festas de formaturas, quando contratamos fotográfos desajeitados, velhos e barrigudos que deveriam registrar momentos para a eternidade, mas ficam transitando pelos espaços registrando apenas o nosso desconforto com suas presenças. Dificilmente captam momento de descontração e alegria, aquilo que gostaríamos de guardar. Assim, a compreensão de que não se verá nunca mais aquela menina de sorriso bonito e jeitos esquisito, tarda a aparecer. Bate apenas um tempo depois. Mas às vezes acontece de percerbermos em ato que aquilo que ali se desenrola na nossa frente nunca mais acontecerá. Nesses momentos desce um vazio danado. Por exemplo, e isso pode parecer tolo e até o é, ao fim da minha última olímpiada no colégio percebi que nunca mais na vida jogaria Handball. O que aconteceu…

A verdade é que sempre resta uma esperança, nesses casos, de que algo nos supreenderá la na frente. E nada confirma isso mais do que a dor da separação, que em geral significa que nós aqui, nesse momento, deixamos de ser nós, passamos a ser você e eu, pessoas desatadas, as quais toda a história de amor e dor passada passa a ser uma história, quase ficcional que aconteceu com uma pessoa que a gente era naquela tempo. Mas sempre nesses instantes de separação resta esta esperança. Talvez apenas a morte evoca o poder do nunca mais na sua forma irredutível. Mas aí, ainda, cada um com sua dor se agarra a crença que lhe couber. Para além disso que é fúnebre demais, inúmeras sensações e sentimentos que vamos vivendo no dia-a-dia vão simplesmente desaparecendo, ainda que outras vão surgindo, trazendo tonalidades novas. 2008 foi um ano repleto de tudo isso. Como por exemplo, a sensação de ser um tio por exemplo e mais ainda de se ter bebês chorando na casa de minha mãe. A mudança que “a majestade o bebê” provoca na vida de uma família é algo para além de explicação. Se a psicanálise demonstrou bem como a criança já existe antes de nascer, pouco nos falou sobre como o bebê afeta a vida individual de todos ao seu redor, e mais ainda o conjunto da obra.

Neste ano que passou ainda mudei para o rio, comecei o mestrado, e “como se diz”, “me amaziei” (ainda não casei…); minha mãe comprou um apartamento e se mudou daquele que vivi belos anos numa isbórnia bem verdadeira, meu irmão virou pai como já disse, e para terminar o ano minha irmã está grávidissima.

E que venha 2009!

cabo2

Anúncios
Published in: on 15/01/2009 at 14:12  Comments (1)  

The URI to TrackBack this entry is: https://obarseular.wordpress.com/2009/01/15/nunca-mais/trackback/

RSS feed for comments on this post.

One CommentDeixe um comentário

  1. Pode crer… muito bom!

    Outro dia uma garota me disse uma frase que gostei muito: “a vida é mais criativa do que a gente pode conceber”. E eu que já estou voltando pro Brasil…

    Tem também aquela que o Campbell fala no fim do último filme sobre mitologia e que parece que é do Jung quando estava prestes a morrer (pode ser que não seja dele e que minha memória me pregue peças). É algo mais ou menos assim: “a nossa vida, quando vista em retrospectiva, parece um sonho… a ordem das coisas que vão acontecendo não parece muito lógica e às vezes parece até absurda”.

    Sei lá, achei que tinha a ver com o texto na medida em que a gente deixa de fazer alguma coisa ou de ter contato com pessoas (e fazer contato com outras), de uma forma completamente não planejada e até esquisita. Enfim, c’est ça!

    []s!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: