Sobre a amizade #1

A verdade triste da vida é que as coisas que nos habitam, preenchem e nos cercam todos os dias se esvaem no correr dos mininutos e das sem-horas que nos atravessam, e acabam por levar o sabor e valor disso tudo que é difícil definir. E nesse processo, nós que temos grande certeza de encontrar este ou aquele amanhã ou depois, e por isso adiamos esses encontros, o alegrião para esse amanhã, ou no máximo depois, que no entanto, podem se prolongar infinitamente, até a nossa vontade intervir rompendo a série, que é o que cremos. E os momentos juntos vão se adiando até que um dia acontecem e tudo o mais faz sentido.

Não venho sendo um bom amigo há algum tempo. No sentido de fazer valer essa vontade de ver e conversar. De intrometer e brigar. De deixar de lado as frescuras da vida. Tenho buscado subterfúgios para adiar mais um pouco essa série. E nesse processo os amigos vão ficando muito longe. Ainda que acredite que os amigos, contrariando minha filiação materialista, tem algo de abstrato, algo de imanente. Isso porque com grandes amigos, mesmo depois de longo tempo, ao nos encontrarmos as palavras vem e vão diretas e certeiras, a procurar riso e alegria, sem desvios ou culpas, tão comuns nessas horas. Esses desvios de quem se lembra de numa ocasião passada, na qual combinaram de se encontrar, mas por preguiça ou mesmo por privilegiar um outro afeto, não se foi a tal encontro e assim sem mais passaram-se 7 anos. Confesso que até bem pouco tempo vivi minha vida assim bem despreocupado com o movimento dos barcos, pois a terra continuava firme no rumar dos dias, e todos sobreviveriam. Mas ai veio esse janeiro fatal no qual perdi esse grande amigo. Aos pouco a dor aguda vai sendo substituída por uma tristeza bem rouca, grossa, cascuda. E a cada festa e encontro com os outros amigos me sobe a certeza dessa incerteza dos encontros que coloca no seu devido lugar o valor e sabor da vida. Mas se o intelecto assim o faz, a vontade débil de um adiador de prazeres, neurótico e tudo mais acaba sendo insensível aos olhos cheios de dores no caminho.

Ps: Vivo agora a certeza de ser adulto. Qualquer definição da vida adulta acaba sendo chata e cheia de senões. Minha certeza vem de algo bem simples. O tempo agora não é algo que se pode brincar. Ele não brinca mais com a gente. Ah, como era bom quando criança pensar algo como, e daqui há 20 anos como será? E a copa de 2006, onde será que estarei? Nossa, já terei 24 anos… Hoje tal pergunta só não é menos impossível de ser feita do que de respondida… O tempo hoje vai e quando a gente chama, ele não volta…

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Published in: on 08/02/2009 at 16:24  Comments (3)  

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. esse blog tem desfolhado o coração da amiga aqui.

  2. Beibe ó
    é pra isso q ele ta na avenida mesmo, como o carnaval..
    e ja vou agradecendo aí pela existencia viu..bejo!

  3. Faço minhas as palavras da elisa…eu não teria melhores!


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