Sessão da Tarde #1

Dizer que “2 Filhos de Francisco” é uma obra prima da cinematografia nacional, chega de fato, a ser um exagero. Mas que o filme é bom isso ele é. Logo no início do filme, quando vi uma casa no meio do nada, onde alguém tenta achar uma estação de rádio, fui invadido por uma sensação boa, talvez expressão do bom selvagem que mora dentro de mim e que sente falta da vida simples de alguém no meio do nada ao som de grilos, da passarinhada e de estações de rádio mal sintonizadas ao contrário do sufoco, internet e buzina das belorizontes e riosdejaneiros da vida.

Não por acaso “Tristeza do Jeca” nos acompanha o filme todo. É bonito essa companhia da canção ad infinitum na vida dos personagens. Claro também é o efeito que isso produz ao conectar o novo sertanejo do qual Zezé e Luciano são claras expressões com uma música tradicional, antiga, enraizada. Além disso, outras coisas me chamaram atenção no filme. A primeira é a construção do percalço dos personagens como algo extremamente difícil no qual o sucesso é realmente contingente. Não acho que isso foi apenas uma retórica, um blablabla que diria apenas das dificuldades de um herói predestinado a ter sucesso. Eu acreditava mesmo que tudo pudesse dar errado e nisso o filme ganha emoção, como por exemplo no duro aprendizado nas cenas iniciais do jovem Zezé com a gaita ou com o acordeom. E mais ainda quando depois que Francisco briga com o maravilhoso e picareta personagem de José Dumont, que era empresário da dupla, e eles chegam a uma rádio onde haveria um concurso para jovens talentos, e vão para o final da fila. Dificilmente seriam ouvidos se não fosse o personagem de Dumont. Nessa mesma cena vemos dezenas de garotos que poderiam ou não chegar ao mesmo lugar dos futuros Zezé de Camargo e Luciano. Outra coisa é a beleza de algumas cenas. Quando o velho sanfoneiro diz que vai ensinar apenas uma vez para o menino e que ele deve prestar atenção. É linda essa cena. Outra é aquela da chegada da família a Goiania, o desespero daquela casa suja, na chuva, as crianças chorando, e nesse momento o patriarca começa a brincar, a acender e apagar a lâmpada, uma novidade para todos. E há outras cenas, na rodoviária, o encontro de Zezé e Zilu, enfim…

Vi o filme sozinho numa sala de cinema que devia ter além de mim outras 5 pessoas. Ainda morava em BH e nessa época tinha a mania de ir ao cinema sozinho no meio da semana. Adorava ir ao cinema sozinho. A gente sai e fica no filme ainda por um bom tempo, fica misturado àquelas coisas. E eu que gosto muito de música caipira, mas não de sertaneja como é de feitio dos meio intelectuais meio de esquerda de nosso tempo, passei a ver de forma diferente o Zezé de Camargo e (menos o) Luciano. E aí sim, no final do filme, dá uma sensação estranha, quando vemos a família, o seu Francisco de verdade e tal. Aí fica parecendo uma coisa globo repórter, e quebra o encantamento do ficcional misturado ao real próprio do cinema. Ainda que o filme não seja uma maravilha inovadora, que não tenha uma narrativa nada especial, ele tem uma forma de contar a história que não pula demais, que consegue captar momentos e também a totalidade dos acontecimentos. Resta para nós, visto que tenho certeza que a maioria não conhecia a história da dupla, o suspense pela beleza e tragédia da história. O filme consegue mostrar toda uma trajetória sem correr, mostra o essencial sem parecer um índice filmado, carregando no espectador expectativa, emoção e riso. E isso já é muito.

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Published in: on 05/03/2009 at 18:30  Deixe um comentário  

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