“O Ouvinte”

Deitado no sofá viajava entre lembranças e aflições produzidas pelo filme que acabara de ver no cinema. Esparramado no sofá com Gabriela pensava nos caminhos tortuosos da vida, coisas que começam sem querer e sem pedir licença passam a fazer parte eterna da vida. Mesmo que em pensasentimento. Assim como há isso outro sob o qual nos atemos com tanto zelo em um momento para depois se perguntar o porquê disso tudo, sem saber qualquer resposta. Para quem viu o filme, “O Leitor”, impossível não pensar nessas coisas. Coisas que surgem e vão sem explicação ou ordem razoável, deixando para trás frases não integráveis, sentimentos sem nome, pontos fora do traço que unimos num ponto do tempo ao outro e dizemos: “Essa linha sou Eu”. E como dizem os pós-modernos, os pontos que deixamos fora dos nós dizem muito dessa linhazinha besta.

Na rádio, enquanto eu permanecia no sofá, uma música tocava…. “Tema de Amor de Gabriela”, (Chega mais perto, moço bonito..), e a lembrança dos primeiros momentos com ela, Gabriela, que está aqui agora a me fitar como esses grandes e amorosos olhos veio num instante, pois o pensamento parece uma coisa à toa, mas faz a gente voar como já notara o Lupicínio. Essa uma outra canção de mi vida, num tempo de menino e de sítio, tempo de gente grande acharem bonito menino cantando música de gente grande. A música que tocou após Tema de Amor de Gabriela foi uma do Zeca Baleiro, que diz “O melhor futuro este hoje escuro/ O maior desejo da boca é o beijo/ Quero a Guanabara / Quero o Rio Nilo”. Esta que também tocou por muito tempo numa rádio de outra cidade, quando descobria que podia ouvir a música que quisesse, assim como fazer escolhas na minha vida. Escolhas maiúsculas. E assim segui deitado no sofá, viajando pela minha matéria cinzenta, que aí já vinha se colorindo.

E a surpresa-das-canções-inesperadas-que-tocam-o-coração deu lugar para a gostosa-angústia-de-não-saber-o-que-vem-por-aí. E veio “Diga lá, meu coração / Da alegria de rever essa menina / E abraçá-la e beijá-la”, época bonita de minha vida quando descobri com pudores e sentimento de sinceridade impossível de cinismo, a importância do corpo, do beijo, do carinho, e do que se segue disso, naturalmente. Tendo sido isso muito Foulcaultiano e pouco platônico. Nessa época não conseguiria pensar um relacionamento como uma longa conversa, como me diria pouco depois um filósofo alemão chatinho. Momento esse que foi de corpo sem idéias. Pelo menos é assim que liguei a linha deixando alguma idéia fora. “Diga um verso bem bonito /E de novo vá embora”. E quando já satisfeito, ou melhor, transbordando, especialmente para uma noite de quinta sem memória, ouvi os versos… “O meu amor tem um jeito manso que é só seu / E que me deixa louca quando me beija a boca / A minha pele toda fica arrepiada”… e em seguida os versos mais eróticos da música brasileira “O meu amor tem um jeito manso que é só seu / De me fazer rodeios, de me beijar os seios / Me beijar o ventre e me deixar em brasa / Desfruta do meu corpo como se o meu corpo / Fosse a sua casa”. Música essa que corta transversalmente minha vida inspirando um ego ideal de macho alfa (como o personagem de Copo de Cólera comendo um tomate) e que também vai sempre embora como macho.

E vi que minha vida é cortada por músicas que condensaram pessoas, lugares, sentimentos. E ouvir tais músicas, hoje, é re-construir uma cena na qual eu era outro. E ao construir essa cena, trazendo esses outros, lido melhor comigo. Entender não há como. É bonito e desafiante tentar lembrar como fui de “ursinho pimpão” a “ainda mais”. Enfim, ou como o “acontece que já não sei mais amar”, deu lugar ao “uma, qualquer uma que pelo menos dure enquanto é carnaval…”. E o segredo incompreensível que sentia escutando: “o pensamento parece uma coisa a toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar”, de versos fáceis e simples foi passando de música para música num processo interminável. Eu, como o Gonzaguinha, “acreditava na vida” e também embalado por ele pensava ser “um guerreiro como terras e gente a conquistar”. Algumas músicas, como essa mesma ou Ouro de Tolo, parecem fornecer um enredo sob a qual eu poderia inscrever toda a vida; outras valem “apenas” por uma frase (“Ela não sabe Quanta tristeza cabe numa solidão”, ou “Solidão de manhã,Poeira tomando assento, rajada de vento…”).

As músicas colocaram palavras em minha vida. Deram sentido a coisas que sentia. Amar foi principalmente com o Gonzaguinha, assim como pensar esse Brasil que vivemos, “Você deve notar que não tem mais tutu e dizer que não está preocupado” . A beleza misteriosa do samba aprendi com o Paulinho. Do Cartola tirei principalmente a tristeza e um certo desamor, também necessário. Do Raul ficou a certeza de que a vida é sempre mais, e de que sem mistério, que seja de disco-voador, é tudo impossível (Eu que não me sento No trono de um apartamento Com a boca escancarada /Cheia de dentes / Esperando a morte chegar…), e também a importância de manter o humor mesmo quando tudo vai pelos ares (“Tá vendo tudo / E fica aí parado / Cum cara de viado, ôme? Que viu caxinguelê”). Sobre as músicas do Vinicius, Paulo César Pinheiro ou do Chico poderia escrever a minha própria vida. Lembranças tão antigas que tenho de Cotidiano (“Todo dia ela diz / Que é pr’eu me cuidar / E essas coisas que diz /Toda mulher”). E sei que não é por acaso a atenção teórica que tenho com o cotidiano, e que me chegou assim distraída através desses poetas que tanto escreveram sobre como os sujeitos ao misturar poesia com cachaça acabam discutindo futebol.

Gostaria de lembrar mais uma vez um dos versos que inspiraram a criação desse lugar. E que para mim é a música mais completa sobre a alegria e a dor de um amor. Em determinado momento decorei “esses versos tão singelos” para declamar para alguém. Não declamei para ninguém, o que foi uma pena. Hoje percebo que poderia ter arrumado alguém que gostaria de ouvir isso, alguém que se não fizesse bem, também não fizesse mal…

“Nosso amor que eu não esqueço, e que teve o
seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete,
sem luar, sem violão
Perto de você me calo, tudo penso e nada falo
Tenho medo de chora..r”

Mas é melhor parar por aqui. Também tenho medo de chorar…

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Published in: on 13/03/2009 at 15:50  Comments (3)  

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Pensei aqui q vc podia até ter terminado sua linda crônica de tiozão _linda mesmo, não é ironia_
    com a trilha dos nossos felizes dias de inocência e juventude voltando do trajeto federeal/sion: “…E o meu pranto rolou!…”

    (É a minha favorita, vc bem sabe.)

  2. Sabe que paralelo a esse texto, a medida que fui lembrando das músicas e escrevendo, acabei baixando o cd que tinha essa música e q a gente ia ouvindo no carro (na verdade era uma fita k7). Se vc quiser beibe, o link é esse aqui, é bom q vc mata saudade do seu ódio com a falta de rima dos versos vinicianos. (http://umquetenha.blogspot.com/2006/09/vincius-toquinho-vincius-toquinho-1975.html) Pode clicar sem medo de ser feliz…

    Pq na verdade tem alguns discos que são todos muito marcantes como esse mesmo do vinicius e do toquinho, que a gente ouvia de cabo a rabo umas duzentas vezes.

    Mas aqui, saiba, que a música e mais ainda sua sincera indignação eu guardo dentro do peito…

    (achei q a sua favorita era aquela do Ira!, como chama mesmo? heheheh)

  3. 1. O meu problema não é com a rima, e sim com a métrica! Nunca vai ser suficiente a minha explicação (embora eu já tenha tentado muitas vezes), sei disso.
    2. Do ira podia ser qq uma, mas é aquela da tarde vazia, q me valeu o dia (na mente fantasia). A Julia tb adora. :/
    3. Baixei demais, brigadu!


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