Ei, Tolstói Vai tomá no Cu #4

Talvez isso ainda seja novidade para alguém, mas a verdade é que estou encantado pelo Tolstói. Tem sido difícil precisar a natureza específica dessa admiração, exemplo evidente de sedução generalizada. Porém, nas últimas páginas dois aspectos que já vinham se delineando emergiram com clareza. Um é a forma impressionante de caracterização dos personagens. O segundo ponto é a abordagem da heterogeneidade política e social da Rússia que costura toda a trama (o livro foi escrito por volta de 30 anos antes da revolução). No primeiro ponto ressalto a capacidade do autor em usar bem os adjetivos. De conseguir extrair uma imagem clara e profunda dos personagens, mostrando bem contradições e paradoxos. Não há nada óbvio. E assim a história permite um fluxo bem descontínuo, dependente da identificação de cada um (eu, por exemplo, acho a Anna Kariênina bem chatinha…tipo Marie Claire do final do século XIX). Cada sujeito que aparece na história, por duas páginas que seja, poderia tranquilamente ser o protagonista do livro. O que é maravilhoso, como se percebe na seguinte apresentação de um desses personagens totalmente marginais…

“Sviájski era uma dessas pessoas, sempre surpreendentes para Liévin, cujo raciocínio, muito lógico, embora nem sempre pessoal, seguia um caminho próprio, enquanto sua vida, extraordinariamente resoluta e firme em seu rumo, seguia um caminho próprio, de modo totalmente independente e quase sempre em desacordo com o seu raciocínio. Sviájski era um homem extremamente liberal. Desprezava a nobreza e considerava a maioria dos nobres secretamente partidário da escravidão, o que só por medo não declaravam. Considerava a Rússia um país perdido, a exemplo da Turquia, e julgava o governo russo tão ruim que nunca se permitia sequer criticar a sério as suas medidas, e ao mesmo tempo era funcionário do governo e um perfeito dirigente da nobreza e, em viagem, sempre usava a insígnia oficial e a fita vermelha no quepe. Acreditava que a vida humana só era possível no exterior, e para onde viajava a qualquer oportunidade, e ao mesmo tempo na Rússia uma propriedade rural muito complexa e modernizada e acompanhava tudo com enorme interesse e sabia de tudo o que se fazia na Russia. Considerava que o mujique russo, quanto a evolução, se situava num grau intermediário entre o macaco e o homem e, ao mesmo tempo, nas eleições do ziemstvo, ninguém apertava as mãos dos mujiques e ouvia suas opiniões com mais boa vontade do que Sviájski… Não acreditava nem em Deus nem no Diabo, mas se preocupava muito com a questão da melhoria das condições de vida do clero e com a redução das suas receitas, além disso se empenhava de modo especial para que a igreja permanecesse em sua aldeia. (…) ” (p.325-6)

A relevância da complexidade de forças em jogo naquele momento, os paradoxos do desenvolvimento russo transparecem nas atitudes e pensamentos dos diferentes personagens. Tal questão me interessa, pois toca num ponto central dos meus estudos que é a noção de contingência como fundamento cultural e político de dada época. Como os destinos emergem a partir de processos indeterminados, sem nenhum vínculo de certeza com o passado. A questão não é que Tolstoi teria sacado que uma revolução estaria por vir, mas sim que ele apontava a singularidade e a complexidade das forças políticas e sociais naquele momento…

“…Liévin sabia que na casa de Sviájski encontraria os senhores de terra vizinhos e tinha agora especial interesse em conversar, em participar daquelas conversas sobre agricultura, colheitas, trabalhadores assalariados, e tudo o mais que, Liévin sabia, era de bom-tom considerar como algo muito rasteiro, mas que agora lhe parecia o único assunto importante. ‘Talvez não fosse o mais importante no tempo da servidão, nem seria importante na Inglaterra. Em ambos os casos as condições estavam perfeitamente estabelecidas; mas entre nós, na Rússia, agora, quando tudo se pôs em desordem e apenas se esboça uma organização, a única questão importante é como esses condições irão se reconfigurar’, pensava Liévin”. (P.327)

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Published in: on 07/04/2009 at 20:11  Deixe um comentário  

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