recuerdos

No fim dessa semana senti que o verão estava indo embora, levado por um gostoso vento frio, talvez apenas fresco. E nesse frescor fui invadido por uma sensação gostosa e conhecida. São lembranças que me acompanham no frio. De fato friozinho, como já disse. Não sei bem como isso acontece, mas me dá uma sensação de aconchego, potencializada nessa estação pelo tamanho do verão no rio de janeiro. Estou aqui há um ano, mas não (sobre)vivi ao verão passado por essas bandas, o que faz toda diferença.

Acredito que a grande maioria das pessoas sente falta mesmo é do verão, da praia, do calor, das férias. O verão é até bom, a noite que não chega, a folga obrigatória de fim de ano, essas coisas.

Lembro quando essa tradição invernal começou. Foi no primeiro ano pós colégio, pós Santa Dorotéia. Havia entrado no curso de física na UFMG, onde fiquei por apenas um semestre, ou melhor, um inverno e nenhum verão. A palpitação de questões sobre a vida e o futuro. A incerteza quanto à escolha acadêmica se transformando numa dúvida cruel sobre o que fazer no próximo vestibular. Entre parênteses, o que é um horizonte bem pequeno-medíocre-burguês, hein? Mas tudo isso foi colocando o meu na reta. Desistir de projetos sonhados dá uma sensação clara de fracasso, mas também de existência, o que é importante em alguns momentos. E isso aconteceu naquele inverno. Lembro em especial de um dia na academia de ginástica, enquanto esperava o Roberto chegar e tentava mascar a instrutora da academia (esqueci o seu nome, mas lembro bem da forma) e assim embarquei nas sensações provocadas pelo inverno passado no Santa Dorotéia…

Nós todos, amigos e colegas, já vislumbrando o fim da era colégio em nossas vidas, sentávamos durante o recreio em mesas redondas e frias de mármore, e ali nos colocávamos bem próximos um do outro, todos devidamente empacotados em grossos moletons norte-americanos, e assim, apesar do frio, ficávamos bem quentinhos. Às vezes restávamos em silêncio, apenas trocando calor um com o outro. Eram muitos esses outros. E um em especial não está mais aqui com a gente…

Foi a partir daí que a consciência do inverno chegou e ficou. E a cada ano esse frio traz pessoas, lugares, cheiros. Vontades e desejos supremos e banais. Esse frio traz carinho e memória.

Algo que sinto falta nesse rio de janeiro, principalmente quando estou do lado de fora de casa, durante o horário comercial.

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Published in: on 17/04/2009 at 20:14  Comments (3)  

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Putz… acho que isso aí é tudo uma questão de latitude. Por aqui, começa a esquentar e acho que é a época que as pessoas estão mais abertas na Europa. Aberta = pense o que quiser, mas é isso aí.

    O inverno aqui é muito brabo e ter virado essa página, ainda com a promessa do verão, deixa os indivíduos assim-assim.

    Só te falo que se o inverno aí é bom, isso se deve à sua proximidade do Equador. Por aqui, a poesia encontra-se na primavera ou no verão… vez ou outro no outono, mas só no inicinho. Dá um pouquinho de dor no coração de sair daqui justo quando o verão tá chegando, depois de ter sofrido as agruras do inverno… mas… c’est la vie.

    []s!

  2. engraçado que essa sensação q vcs tem ai alem dos tropicos que me chamou atenção cognitiva para o fato de celebrar o frio. Que não é frio de qualquer forma, mas menos calor.
    Imagino que as coisas ai mudem muito a partir de agora, o que é interessante do ponto de vista psicossocial.

  3. é isso. Um colega meu alemão, o Markus, reclamou quando veio morar no Brasil. ´ Aqui no Brasil é muito sem-graça porque vcs tem sol o ano todo e não sabem a sensação de comemorar a chegado do sol e das cores na primavera´. Já que não comemoramos o sol…comemoramos a falta dele, ou melhor, aquela brisasinha e as poucas noites que ficamos debaixo da coberta. Do ponto de vista psicossocial, eu acho que é interessante demais esse movimento que acontece ao se afastar do equador. A mudança de humor e comportamento é nítidamente relacionado as estações do ano que se tornam mais acentuadas e marcadas. Demora-se mais para conhecer um lugar e para conhecer as pessoas…pois conhecê-los no inverno ou no outono é muio diferente de conhecê-los na primavera ou no verão….


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