Com moela#1

Quando estudante de psicologia, vez ou outra me pegava estudando sobre o sofrimento humano, a loucura, o pânico, a angústia. E sentado a frente de um abajur e de livros, mantinha a calma e a compostura de quem sabe ser um sujeito único, centrado e racional. Encarava com estranhamento e distância manifestações mais agudas dessas patologias e sofrimentos. Haveria, para mim, sempre certezas bem fincadas para as quais tudo sempre retornaria achando ali uma paz… amigos, família, cama de infância, namorada, Rubem Braga, cerveja, samba, pelada e mais amigos. Essas coisas que nos cercam durante o dia e nos raptam, mas como bons seqüestradores passam a encher nosso dia de coisas a se falar, de brincadeiras e afetos. Toda tempestade seria afastada, pelo menos por um tempo. Há poucos anos ia ao Minas Tênis Clube, sozinho, com óculos, tôca de nadar e livro besta dentro de uma bolsa feia e desajeitada, e lá nadava, indo e voltando várias vezes num movimento muito chato. Depois sentava, puxando mais oxigênio do que o necessário, e aí acabava pensando na vida, na ausência de mulheres desta, e no dissabor fundamental daquela, e mesmo que sentisse que tudo aquilo era meio ridículo e muito burguês, pelo menos as coisas faziam algum sentido, ainda que equivocado. Havia também belas mulheres em trajes curtos para se admirar e até mesmo pensar ousadamente que poderia eu ter todas, se acaso assim desejasse. Se fosse até lá lançar alguma chamego bem preparado. Usar toda aquela carga de Vinicius e bragas… Mas aí voltava pra casa, tocava um sofrível violão na varanda, propagando esse ideal ego-macho-solitário pela eternidade da tarde de um domingo. E a segunda e a semana se faziam na espera de um evento. Mas agora, morando no rio já há um ano e completando a enigmática idade de 27 anos nesse 2009, todo esse parágrafo soa um tanto nostálgico demais.

Demora pra descobrir (e talvez demore mais ainda para se fazer algo disso) que o evento se faz todo dia. É preciso crescer. A verdade é que vivi muito pós-modernamente e infantilmente, infelizmente. Tudo muito possível e na palma da mão, muito natural ainda que imerso na falta de rituais. A pós-modernidade menos do que o afastamento da tradição, é o afastamento do artifício, do evento, do ritual que promove a separação entre o subjetivo e o objetivo. Vive-se crendo que tudo o que se faz foi escolhido, pois há sempre escolhas. Enfim… escrever é mesmo estranho, a gente pensa e trabalha em silêncio por algumas palavras e daí vêm outras e lhes tomam o lugar. Vai entender…

Agora ando sentido certos medos quando me lanço a rua. São coisas que a gente vai ouvindo por aí e que ficam a espreita. Essa semana um cobrador foi morto no ônibus dentro da universidade na qual Gabriela estuda, no Catete, bairro próximo de casa, um sujeito foi baleado e morreu, dias depois em Botafogo, no bairro que moro, outra pessoa foi baleada e também morreu.  Parece que as pessoas que atiram a cada dia chegam mais perto (E como não lembrar daquele lindo e profundo poema do Brecht, e  imaginar quando me levarem quem irá, afinal, protestar? Pois já estão levando tantos enquanto me retiro para os confins de minha ignorância..). Isso começou bem antes, não digo nem a violência, e nem minha ignorância e sim o medo. Um parênteses é que alguns fatos inserem o medo e mais ainda o pânico, que tem tudo de subjetivo, na ordem dos fatos objetivos. Foi assim que depois de ler o caso de um rapaz que morreu atropelado quando andava de bicicleta na praia de botafogo, passei a levar uma carteirinha velha, com o meu nome quando ia correr. Ccomo naquela maravilhosa propaganda da moça que vai correr e ao fazer isso deixa de lado a mãe, o marido, as preocupações cotidianas, eu também gosto de correr e deixar tudo isso para trás, imaginar que estou num campo correndo simplesmente. Quando posso não levo nem mesmo as chaves. Mas aí um dia me deu um medo tremendo de morrer e restar no meio da rua, sozinho, sem ninguém saber nem mesmo quem sou. Fico pensando em como minha mãe e Gabriela saberiam que eu teria morrido… (sintominha barato, eu sei…). Por isso passei a correr com uma carteirinha antiga de médico, só com meu nome… E foi o início, não diria de uma escalada de pânico e tensão, não mesmo, mas de um medo persistente incucado em algum lugar da mente. E agora restam poucos daqueles seqüestradores gente-fina para manter a peteca lá em cima, mas pelo menos ainda tenho a peteca.

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Published in: on 10/05/2009 at 19:59  Deixe um comentário  

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