Terrorismo Cotidiano – A crônica

“Eu não sou artista. Artista faz arte,

eu faço arma. Sou terrorista”

(Mano Brown do grupo “Racionais Mc’s”)

A idéia de que a palavra e a música sejam armas só faz sentido num imaginário que concebe a vida social como espaço de guerra e conflito. No qual a criação, a “arte”, representa matar ou morrer, conquistar ou perder território. Pois é para isso que existem as armas. Linguagem de domínio e violência. Podemos pensar que nesse caminho, não há apenas guerreiros e terroristas, mas também mediadores diplomáticos, as ONUs da vida, que buscam através de outros meios e palavras a “harmonia social”. Não parece que seja esse o caminho tomado por Mano Brown… Menos do que sentar numa cadeira e conversar ele parece querer jogar essa cadeira em alguém…Quem sabe, até mesmo em você!

Sua frase afiada nos remete a pensadores que compreenderam a vida humana como um palco de conflito e poder. Marx é uma referência obrigatória, pois através da sua afirmação de que a história humana é a história da luta de classes, instituiu o conflito, não como desvio, mas como habilitador da própria história. Foucault ao deslocar o poder da economia e do estado, apontando como toda e qualquer relação social é também uma relação de poder, por sua vez, provocou a crítica às terras santas da política. Ele sujou, por assim dizer, o poder entrelaçando-o às inúmeras teias que constituem a vida social. Não pretendo discutir a fundo o que tudo isso significa, nem as conseqüências dessas idéias (agradeceria se alguém assim o fizesse…). No entanto, não poderia deixar de dar uma palavra, que pinço aqui e ali de outros autores. Não gosto dessa idéia do poder onipresente, a meu ver essa idéia obscurece as características específicas do conflito. Entre o poder, a possibilidade de ação, encontrar-se fechado em esferas singulares, e por outro lado, estar presente em todo e qualquer lugar, aceito parcialmente a crítica de Foucault, mas não entendo que o poder se exerça sempre em todo lugar, mas sim que existe à medida que os sujeitos constroem espaços para a emergência de situações de conflito. No meu entender, a música dos Racionais é uma arma, pois assim eles a constroem, e não apenas por afirmá-lo categoricamente como é explícito nas palavras que iniciam este artigo, mas por todo o conjunto de práticas que este grupo adota no campo social, nas suas temáticas, na forma de aparecer na mídia e de se relacionar a outras pessoas e grupos. Resumindo eles carregam as relações sociais como relações de conflito, e assim elas se tornam lugares de poder. O que é evidente que não resolve absolutamente nada, e sim inicia alguma coisa.

Como psicólogo social, considero tais questões centrais às minhas preocupações teórico-cientificas e políticas, mas não seguirei essa veia, analítica e acadêmica, e apenas mostrarei alguns desses artifícios práticos de terrorismo cotidiano. Seguindo a linha de raciocínio do parágrafo anterior, tal terrorismo se faz através de práticas sociais, jornalísticas, estético-artisticas que possibilitam a emergências de relações de conflito em relações vistas como harmônicas ou ao menos estáveis, fundadas em algum ideal regulador não questionado. Plantar o terror é assim sabotar e implodir os alicerces que tomamos por fundamentais demais no cotidiano, aquelas coisas que acontecem no dia-a-dia e que não percebemos como resultados parciais de escolhas e lutas: morte de gente rica ter mais valor que morte de gente pobre; mulheres estupradas é que provocam o estuprador; a crise internacional é que levou os trabalhadores e perder trabalho ou ter que diminuir jornada e salário, e outras mentiras do gênero.

Começo assim pela crônica, como uma dessas manifestações. O meu interesse pela crônica é antigo. Mais do que um interesse, a crônica é mesmo uma referência em minha vida. No entanto, nunca fiz dela um objeto de análise, o que também não farei nesse texto. A crônica é um estilo literário no qual os fatos cotidianos assumem grande relevância. É a partir de situações vividas ou vistas que o escritor se apropria e escreve sua crônica. Muitas vezes desdobrando e criando possibilidades e imagens a partir de algo bem simples, um beijo, uma saudade, um menina que morre. A crônica por ser um dos gêneros mais flexíveis da literatura permite muitas variações e não irei me esforçar em solidificar uma definição singular. Irei me apropriar da consagração que este gênero teve entre nós, brasileiros, fato que tem sua origem em célebres autores como Machado de Assim e José de Alencar, e encontra sua mais fértil constituição num corpo de cronistas que desfilaram entre as décadas de 50 e 70 como Antônio Maria, Sérgio Porto, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e, sobretudo, Rubem Braga. O ultimo como um ideal-tipo de cronista. Entre outros motivos pelo fato de ser o único destes que nunca se aventurou por outros gêneros literários, e ser reconhecido unicamente por suas crônicas. Uma monótona aula de inglês, ou um ainda mais monótono nadador solitário foram temas de exemplos maiores desse estilo na literatura nacional.

Minha adoração por Rubem Braga é tão antiga quanto pela crônica, pois foi exatamente através do autor e do livro “A Borboleta Amarela”, que pela primeira vez me atirei nesse gramado. Mas não ficarei aqui de regateios pelo trabalho do cronista, coisa que devo fazer em outro momento. Ressalto, porém, três coisas que são mais marcas do estilo em si, do que propriamente relativas ao seu desenvolvimento em Braga: 1. A crônica aparece principalmente em jornais e revistas circulando mais do que outras formas de publicação; 2. O tema não é pré-definido, decorrendo de uma série de situações contingentes, algumas profundamente pessoais e amorosas, enquanto outras sociais e políticas que traduzem questões de dado momento social; 3. Pelo seu formato diário e tamanho reduzido a crônica assume um valor de coisa transitória, fadada a perecer no próximo dia.

Ainda que os temas afetivos e mulheris tenham primazia e desbanquem qualquer outra temática na obra de Braga, seria injusto não trazer a tona algumas de suas crônicas que abordam questões sociais. Uma delas é “A empregado do Dr. Heitor”, na qual o autor invadindo as casas de família no bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, vai descortinando as relações sociais nesse espaço. Assim ele nos conta de uma cozinheira “que já está velha e nunca vai ao portão porque não tem nada que fazer no portão. É uma mulata desdentada e triste, que há quinze anos responde à mesma dona de casa: “eu já vou, dona Maria.” E há quinze anos vai fazer o que dona Maria manda. E que nunca teve uma idéia interessante, por exemplo matar dona Maria, incendiar a casa”. Em outro texto, de 1936, o escritor no título nos lembra que “O Morro não é dos Malandros”, e afirma categoricamente que “Um sujeito que gosta de ópera e não gosta de um samba de Cartola, da Estação Primeira do Morro de Mangueira, é um sujeito que não gosta propriamente de ópera, gosta apenas do Teatro Municipal”. Ainda em outra crônica datada de 1935, “Reportagens”, Braga através de uma antropologia selvagem numa missa católica, mostra como esta é composta por estranhos rituais e assim desqualifica o ataque anterior de um jornalista contra os cultos de origem africana, a umbandas e o candomblé. Ora, reportei-me às datas desses textos, pois ainda que se tratasse de questões especificas de sua época, de forma alguma estes textos estão aprisionados ali. Eles possibilitam ainda hoje novas interpretações para fenômenos contemporâneos. O que de alguma forma contraria o terceiro ponto levantado sobre a crônica, o da sua transitoriedade. A crônica parte do fato singular para fazer falar e desdobrar muito daquilo que se encontra apagado na suposta singularidade e objetividade dos fatos. Ela constrói pontes entre os fatos e seus determinantes, colocando em cena muitas vezes práticas que restavam operando no sub-solo. A idéia de que há um sub-solo, e de que este pode chegar e mudar a superfície, possui um potencial transformador enorme numa sociedade que se organiza de forma hierárquica, discriminatória e excludente, estabelecendo possibilidades rigorosas para alguns e frouxas para outros. Os exemplos que aparecem sazonalmente de jovens ricos que violentam sujeitos pobres é um traço claro disso. Pois em geral aparece sempre uma idéia na mídia de que aqueles jovens são crianças que não sabiam o que faziam. Junto a essa página do jornal, logo vemos um outro discurso, aparentemente desconexo, que é da maioridade penal, da necessidade de diminuir a idade a partir da qual um sujeito pode ser preso, resolvendo assim o problema nacional da violência. O que liga essas duas “notícias” é o mesmo procedimento que permite a enorme simpatia da opinião pública pelo estúpido personagem principal de “Meu Nome Não é Johnny”. Pois ao se julgar um jovem traficante de classe média todo perdão é válido, visto que ele é realmente inocente do pior crime, ser preto, pobre, favelado e querer ainda nos ameaçar com sua arma de fogo. Todos nós sentimos uma enorme empatia pelo personagem de Selton Mello, o que não significa nada mais nada menos do que vemos naquele jovem mais um de nós, um carismático heterossexual branco de dentes ainda mais brancos. O que os jornais (e a opinião pública) fazem nesses casos é mostrar com clareza que a violência do rico é sim menos violenta do que a do pobre; que assalto e roubo é mais violência do que preconceito e discriminação; e que traficante é aquele negro que mora na favela… (é evidente que o personagem de Selton Mello é bem “menos” traficante do que os traficantes… o que já é uma coisa bem complicada)

O exercício da crônica ainda se faz presente nos jornais e revistas do país. E assim é preciso também apontar outros autores mais contemporâneos. Partir de Rubem Braga, tem muito mais uma preocupação sentimental e pessoal, do que a vanglória de cronistas de outras épocas. Com certeza poderia pegar uma dezena de crônicas atuais para reafirmar minha hipótese, mas não me preocupo em esgotar o tema, e sim apenas iniciá-lo.

Posso dizer sem problema que nunca fui um fã do Veríssimo. Achava seus textos um tanto óbvios, não entendendo porque o Chico gostava tanto dele. Achava suas piadas meio prontas e sem graça. Ainda não conhecia o Psicanalista de Bagé, mas isso já é um outro assunto… Quanto aos textos mais sérios não achava nada original ou inteligente. Mas ultimamente tenho gostado muito de suas crônicas e artigos publicados no jornal “O Globo”, no domingo. E um texto em especial chamou minha atenção e foi determinante para a escrita deste texto. Achei este artigo de uma profundidade e beleza, milimetricamente contida em poucas e precisas palavras. E não é tanto o tema e sua opinião, mas a forma como ele constrói esse campo da opinião. Digamos, minha adoração foi mais metodológica. Através das poucas linhas, o seu texto, como uma arma muito eficaz atinge um alvo também muito protegido. Enfim, transcrevo integralmente o texto, e espero que vocês gostem. E também espero que compartilhem o que quer que tenham pensado ao ler esse artigo, e mais ainda os textos dentro do texto.

A Evidência

Luis Fernando Verissimo

“É fácil ter opiniões firmes sobre, por exemplo, o câncer (contra) e o leite materno (a favor). Já outros assuntos nos negam o conforto de pertencer a uma unanimidade, ou mesmo a uma maioria. São assuntos em que os argumentos contra e a favor se equilibram e sobre os quais a gente pode ter opiniões, mas elas estão longe de ser firmes. Até opiniões que você julgaria indiscutíveis – exemplo: nada justifica a tortura – são controvertidas, e basta ler as seções de cartas dos jornais para ver como a pena de morte, oficial ou extra-oficial, tem entusiastas entre nós. Em assuntos como aborto, cotas raciais nas universidades, etc. coisas como a religião, a formação, a ideologia e até o saldo bancário de cada um determinam as opiniões divergentes. E não vamos nem falar nos extremos opostos de opinião provocados por qualquer avaliação do governo Lula.

Mas há um assunto sobre o qual você talvez ingenuamente imaginasse que nenhuma discordância seria possível. A brutal evidência – geográfica, cartográfica, literalmente na cara, portanto independente de interpretação e opinião – da iniqüidade fundiária no Brasil, um continente de terra com poucos donos, era tamanha que durante muito tempo uma genérica “reforma agrária” constou do programa de todos os partidos, mesmo os dos poucos donos da terra. Era uma espécie de reconhecimento da injustiça inegavel que desobrigava-os de fazer qualquer coisa a respeito, retórica em vez de reforma. O aparecimento do Movimento dos Sem Terra acrescentou um novo elemento a essa paisagem de descaso histórico: os próprios despossuidos em pessoas, organizados, reivindicando, enfatizando e até teatralizando a iniqüidade, para contestar a hipocrisia. A evidência insofismável transformada em drama humano.

Pode-se discutir os métodos do MST, e até que ponto as invasões e a violência não dão razão à reação e não desvirtuam o ideal, além de agravar a truculência do outro lado. Mas sem perder de vista o que eles enfrentam: não só a injustiça que perdura, apesar de programas governamentais bem intencionados e de alguns avanços, como um Congresso recheado de grandes proprietários rurais, o poder político e financeiro dos agro-business e uma grande imprensa que destaca a violência mas sempre ignorou a existência de acampamentos do MST que funcionam e produzem – inclusive exemplos de cidadania e solidariedade. É a minha opinião.” O Globo, Rio de janeiro 12/04

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Published in: on 15/05/2009 at 18:26  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Isso, Rafa.

    Vc tinha razão quando disse que seria meio triste a gente se encontrar (só) por aqui, mas não deixa de ser uma grande satisfação.

    Uma coisinha: gostei do Veríssimo, também acho q essa questão tinha q ser simples desse tanto, um senso comum mesmo. Maldita Veja, amém.

    Outra: me atrevo a pensar um pouco sobre essa arma_ a palavra. É muito interessante que o cara invente essa possibilidade, de dizer no rap q “Playboy bom é chinês, australiano, fala feio, mora longe e não me chama de mano”(!!!). Pô, dizer dessa diferença, muitas vezes de forma muito mais dura q isso, é uma saída muito boa, não é? É claro, é um meio, e não um fim em si_ e por isso é arma, e não arte. De qualquer forma, uma letra de música traz muitos elementos: denúncia, sublimação, laço social, engajamento, identidade….
    Sei lá, lembrei tb do trabalho da minha irmã, estudando como o hip hop tem um poder gigante na vida dos jovens da periferia. Uma possibilidade, uma arma,de fato.
    Enfim, tô aqui pensando alto, fingindo q é uma conversa num buteco.

  2. acho que é isso mesmo beibe… não sei se concordo com seu purismo (rá!), da diferença entre meio e fim na palavra da arma, e na da arte.
    Essas palavras da música, do hip hop, enfim da dança também, parece ser uma forma mesmo das pessoas se fazerem gente, terem um lugar mesmo no mundo. é claro, q isso não é privilégio da musica de preto, pobre e favelado… Nossos chicos e caetanos, clarices, e bragas tambem inventam nossa sensibilidade e um lugar no mundo pra gente chamar de nosso… O q é interessante é como certas palavras se ligam ao conflito, e outras não… nao to querendo de forma alguma privilegiar palavras de conflito, mas como elas sao importantes…

    bjo,
    rafa


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