Ei, Tolstoi, vái tomá no cu#5!!

No livro “Pensamento e Linguagem“, o genial pensador russo Lev Vygotsky utiliza exemplos da literatura de seu país para demonstrar aspectos chaves na conexão entre o pensamento e a palavra. E todos esses exemplos, além de casar intimamente com os pressupostos teóricos em questão, eram profundos em si mesmos, contendo a capacidade mágica de produzir uma expansão sem fim em nosso ser. Como se através de cada um deles entendêssemos não só algo específico, mas tudo sobre a natureza humana.

Ainda que já admirasse a literatura russa, não seria honesto senão dissesse que foi a leitura do ultimo capítulo desse livro que despertou em mim a ação de pegar “Anna Kariênina”…

Pois um desses exemplos em “Pensamento e Linguagem” é este trecho abaixo, sem dúvida das coisas imateriais mais bonitas que já passaram por meus olhos. Além da beleza ingênua, traz uma questão fundamental da compreensão, e portanto, da incompreensão na relação humana.

Se nosso casal abaixo tudo entende a partir de quase nada, quantas pessoas nunca vão entender nada, apesar de palavras e sentenças completas, inflexões, explicações, tratados e manuais práticos.

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“- Espere – disse, sentando-se à mesa. – Eu queria, há muito tempo, lhe perguntar uma coisa.
Fitou-a de frente, nos olhos meigos, embora assutados.
– Por favor, pergunte.
– Veja, disse Liévin e escreveu as letras iniciais: q, a, s, m, r, n, p, s, q, d, n, o n, m? Essas letras significavam: “Quando a senhora me respondeu não pode ser queria dizer nunca ou naquele momento?”. Não havia a menor probabilidade de que ela conseguisse entender essa frase complexa; mas Liévin fitou-a com tal expressão que sua vida parecia depender da compreensão daquelas palavras.
Ela olhou para ele com ar sério, depois apoiou na mão a testa franzida e começou a ler. De vez em quando, dirigia os olhos para Liévin, interrogava-o com o olhar: “Será o que estou pensando?”.
– Compreendi – disse Kitty, ruborizada.
– Que palavra é esta? perguntou ele, apontando para o N, que significava a palavra nunca.
– Significa a palavra nunca – respondeu. – Mas não é verdade!
Liévin rapidamente apagou as letras, entregou a ela o giz e levantou-se. Ela escreveu: n, m, e, n p, d, o, r.
Dolly já estava inteiramente consolada do desgosto causado pela conversa com Aleksiei Aléksandrovitch quando viu estas duas figuras: Kitty, com o giz nas mãos e com um sorriso tímido e feliz, que olhava para Liévin, acima dela, e a bela figura de Liévin, curvado sobre a mesa, com os olhos ardentes de atenção dirigidos ora para a mesa, ora para Kitty. De repente, ele se tornou radiante: compreende. Significava: “Naquele momento, eu não podia dar outra resposta”.
Fitou-a de modo interrogativo, tímido.
– Só naquele momento?
– Sim – respondeu o sorriso dela.
– E a…E agora? – Perguntou Liévin
– Pois bem, leia aqui. Direi o que eu gostaria. E gostaria muito! – Escreveu as letras iniciais: q, o, s, p, e, p, o, q, a. Significava: “Que o senhor possa esquecer e perdoar o que aconteceu”.
Ele tomou um giz com os dedos tensos, trêmulos e, depois de parti-lo ao meio, escreveu as letras iniciais do seguinte: “Nada tenho para esquecer ou perdoar, eu nunca deixei de amar a senhora”.
Kitty olhou para ele com um sorriso indelével.
– Compreendi – respondeu num sussurro.
Liévin sentou-se e escreveu uma frase comprida. Kitty compreendeu tudo e, sem lhe perguntar: é isto?, pegou o giz e respondeu de imediato.
Por longo tempo, Liévin não conseguiu compreender o que ela havia escrito e mirou os olhos de Kitty muitas vezes. Um estupor de felicidade o havia dominado. Não conseguia de forma alguma restituir as palavras que ela deixara subtendidas; mas nos olhos encantadores de Kitty, que reluziam de felicidade, Liévin compreendeu tudo aquilo que precisava saber. E escreveu três letras. Mas ele não havia ainda terminado de escrever e Kitty já lia ao mesmo tempo que a mão dele escrevia, e ela mesmo terminou, e escreveu a resposta: sim.” (Anna Kariênina, p. 394-5)

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Published in: on 04/07/2009 at 21:13  Deixe um comentário  

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