Pelas suas madrugadas a cantar…

Rafael Barba

Belo Horizonte por Rafael Barba

Passei as últimas duas semanas em Belo Horizonte, cidade em que nasci e me tornei o que quer que não sou.
Ontem pela madrugada, durante meu retorno ao Rio de Janeiro entre Benitosdepaula e Vinícius, uma jovem gal e um boêmio Joãonogueira, muita coisa se passou em minha mente.

Passei a entender como  BH, de uma cidade vivida em seus prazeres e estranhezas, em suas particularidades difíceis de se articular, consolidou-se como um espaço mítico de minha vida. Espaço que me integra numa  cadeia de sentidos e delírios específicos. Ao invés de uma cidade heterogênea e complexa, chata e confusa, surgiu uma cidade no qual tudo, ou quase  me traz um sentido. E o mito que venho construindo sobre BH, desde que de lá saí, o que só passei a ter consciência dessa última vez, é a de uma cidade segura, ingênua e levemente delirante, de algo “puro”. Lugar onde se pode tranqüilamente perambular por suas ruas às 5 da manhã sem olhar para os lados e nem mesmo para trás… Se este mito diz de uma proximidade minha e de uma acomodação sentimental na cidade, tem também muito da distância, de quem vive longe e lança um olhar que constrói e só vê as coisas belas…
É mais do que claro que BH não é nada mítica, nada especial e evidentemente nada justa. Mas, “e daí” diria eu, pois saibam que não sou um observador universal, nem mesmo um “sueco em trânsito” em busca de generalidades universais, e nem pelo contrário de singularidades latinas, mas sou sim alguém que chorou em esquinas com nomes de inconfidentes e recostou meninas, nem sempre belas em muros imundos. Sou alguém que  vê algo de eterno e sagrado na pura existência da rua da Bahia, ou ainda que experimenta em poucos quarteirões da Avenida do Contorno, especificamente entre a loja Bakanas e o Dragon Palace a passagem de toda uma vida.

Antes dessa última viagem tinha uma clareza tranquila  sobre um outro lugar também mítico de minha história. Falo do bar de samba Opção do seu Ronaldo, lá no Caiçara. Lugar no qual sempre que retorno sinto uma certeza grande na vida, em suas possibilidade de existir e de emcionar, lugar no qual reconheço o tempo e sua dinâmica e sinto uma experiência transcendental, nada dramática.Mas agora percebo que a cidade como um todo vem se tornando este grande templo, o que não diria que é algo triste e nem feliz, não mesmo, se você insiste em pensar nesses termos…

Este mito carrega nossa experiência em geral tão pobre de viver num lugar estranho a nós mesmos, de sentido e de vida, de singularidade, como se por encostar naquele muro, ou por sempre ter visto aquela vaca ali na Leopoldina tivesse eu algo a ver com o fato do mundo existir.

Talvez seja importante construirmos mitos no qual  colocamos em relação as condições e experiências de vida a certos sentidos, sejam eles belos, prosaicos, políticos ou tolos…tanto faz.

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Published in: on 13/08/2009 at 00:55  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Pô, Rafa… q bonito. É assim, mesmo, né?, a cidade é aquilo q a gente viveu nela, e ponto.
    (por isso, assim como um rio, nunca se chega em uma cidade duas vezes).
    Somos nós q enchemos nossos olhos com os afetos q se engendram pela experiência da cidade.
    Eu acho q às vezes isso nem é traduzível aos outros. Com sorte, será possível aos que compartilham desses afetos, ou da cerveja gelada do Opção.

  2. O ser humano é simplesmente uma máquina de criar mitos.

    Todo nosso conhecimento e nossa ciência, assim como nosso lirismo, baseiam-se em construtos mitológicos que apenas em parte fazem interseção com algum resquício de “realidade última” da qual jamais seremos donos ou saberemos ao certo.

    O mundo consiste no mito que dele criamos dada nossa parcialidade na investigação do mesmo.

    Enfim, essa é minha opinião.
    Ótimo texto. []s!


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