Um Deus Possível

“Eu só poderia acreditar em um deus que soubesse dançar” – NIETZSCHE

Andei pensando numa coisa que pode até mesmo ser simples, mas que não é tola.

O mistério das coisas e das pessoas, dos lugares mágicos, místicos, estranhos e belos. O mistério do bar, da singularidade daquele bar, do garçom ou da música, ou ainda daquela menina que se perdeu da gente na passagem de uma madrugada para um triste amanhecer, naquele bar de mesas e espírito de plástico que nunca fecha. A certeza da humanidade universal no sempre deixar a colherzinha suja e sozinha no meio da pia, depois de toda louça lavar. A beleza de achar a coisa mais linda ver e ouvir João Nogueira cantando “Mineira”. O sentimento profundo de entender que através de uma pessoa chamada Rubem Braga foram enunciadas as grandes verdades da vida. A certeza da beleza das coisas e do mundo numa menina magra e bela dirigindo um carro a sorrir sem conseguir se controlar, despertada por palavras e gestos bobos de um “rapaz novo encantado com vinte anos de amor” e uma intenção bem sapeca, ainda que desprovida de razão ou motivo concreto. O mistério de entender que aquela pessoa ali, em tudo diferente de você, é bem possível de fazer qualquer coisa, inclusive te entender. Ou te fazer entender que aquilo que você achava saber era pura fantasia classe média besta e porca. E ainda o sempre sentir algo grande e cerimonioso se misturar com a gente no meio de um samba bom, a alegria a nos atravessar e transformar. Achar a si mesmo ali onde você não se estava.

Uma coisa central para a vida, o amor, a política, a amizade, a arte. O que quer que seja, é esse algo do transcendente, de uma compreensão que nos atravessa e nos encontra. O sentir e entender que o que chegamos a pensar ser só nosso é muito mais, está no mundo, atravessa pessoas e corações. A passeata, a cama, o bar, o samba. Não interessa onde, pois há sempre essa dimensão no qual o agir mais individual, o pensar mais concreto e sólido abraça e abrange vários, muitos, sem deixar de ser o que sempre fora.
Quando Rubem Braga intimamente diz que já foi acusado de amar mulheres tristes, quantos, eu pergunto, quantos culpados não circulam por aí protegidos pela luz natural e pela dissimulação, quantos?

Algo sério a se estudar. Projeto, não de doutorado (que pena…), mas de vida. Focar nesse mistério das proximidades entre diferentes. Da compreensão do universal no mais concreto. Da passagem do fechado para o espírito sempre aberto. Dizendo que falo da compreensão, do entendimento, estaria preso a dimensão da razão. Focando no transcendente haveria sempre esse ranço do divino. Mas… e aqui arrisco, talvez a expressão do divino contenha antes mesmo da idéia de um terceiro, Deus, uma maneira de expressar esse desejo de comunhão, de união. Não consigo deixar de associar este estar num samba ouvindo e sendo ouvindo, cantando e gritando à condição daquele que reza e acredita.
Depois que se entende que o sexo é sempre um fracasso, a gente passa a dar mais valor as pessoas, a vida, a conversa. Ponto mais belo da vida.

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Published in: on 04/09/2009 at 03:59  Comments (1)  

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  1. Bonito demais


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