Simonal Não Usaria Mais Black Tie

Para a psicanálise é próprio do domínio do simbólico a operação de manejo do empírico, de construção e alteração da nossa relação com o que chamamos de realidade (algo que ainda deixa alguns “realistas ortodoxos” nervosos). Essa operação do simbólico, essa capacidade de criar relações a partir de nomes e símbolos, fica bastante evidente quando pensamos na figura de um político, roubando o exemplo de Slajov Zizek. Pois ainda que passemos metade de nossa vida a falar mal dos políticos, ainda que saibamos de suas falcatruas, ainda que os julguemos na nossa vida cotidiana como seres desprovidos de caráter e tudo mais, caso venhamos a ser apresentados a algum nobre deputado ou senador numa festa ou algo que o valha, provavelmente iremos apertar-lhe a mão e em algum momento soltar um “Excelentíssimo Senhor Deputado X” com um sorriso amarelo nos lábios… Menos do que o ser humano empiricamente corrupto nos vemos diante de uma figura que representa algo maior, que carrega em si algo para além do empírico e do fatual. Uma anedota política (que nem sei de onde tirei) conta que o Presidente Juscelino sabia o nome de todos aqueles que ele cumprimentava. Contava-se isso, pois sempre que o presidente cumprimentava alguém, principalmente quando estava em grandes situações sociais, por mais desconhecido que esta pessoa fosse, sempre dizia algo como: “Meu caro amigo Geraldinho…” Isso espantava a todos, e espanta mais ainda pensar que menos do que uma memória prodigiosa o truque era muito mais simples e genial. Ao se aproximar destas pessoas o presidente rapidamente perguntava em voz baixa seu nome, e dessa forma a pessoa sussurrava seu próprio nome para ele, e aí sim Juscelino exclamava em alto e bom tom como se eles fossem velhos conhecidos. Ao questionar se as pessoas não se sentiam usadas por isso, se não ficavam chateadas, ofendidas, o que li era que pelo contrário, elas se sentiam muito felizes por um Presidente da República do Brasil desejar falar seus nomes e dar a entender que os conhece.

O Filósofo-Psicanalista e Marxista-Lacaniano, Slajov Zizek, no seu jeito peculiar de escrever lembra uma fala de um dos irmãos Marx, que depois de fazer algo que não devia na frente de outros, retrucava: “Em que vocês acreditam, nos seus olhos ou nas minhas palavras?“. O ponto no qual Zizek toca é que quem realmente só acredita nos olhos perde um ponto importante e fundamental, que é a força de estruturação da realidade pelas palavras. Como a maneira que nomeamos e entendemos determinada coisa estrutura em certo sentido o que esta coisa é e o que podemos fazer. Não quero dizer com isso que devemos sempre acreditar no que qualquer um nos diz, ou ainda que não exista nada que seja real, material, que a força de tudo está nas palavras, como se estas fossem passe de mágica. A questão não é se um raio objetivamente existe ou não (esta não é a questão, pois é claro que ele existe) o problema é entender se este raio é um fenômeno da natureza ou uma demonstração da força de Deus. Uma amiga me relatou certa um vez um caso que leva ao absurdo toda essa discussão. Certa esposa dirigia a noite seu carro pela cidade e ao parar no sinal de trânsito se deparou com seu marido dentro de um carro parado ao lado. Ao olhar com mais atenção reparou que o marido estava acompanhado de uma loura, destas que dizemos que “existem mais bonitas”. Quando o marido viu a esposa o vendo virou para ela e de dentro do carro falou e gesticulou: “Não sou eu…não sou eu…não sou eu…” (a esposa teve dúvida se era realmente ele…)

Enfim, tudo bem, mas o que diabos isso tem a ver com o Simonal? Depois de ver o filme “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que eu Dei” entendi que sua história foi exatamente marcada por isso, pela força das palavras, do entrelaçamento de situações e experiências a signos, o colamento da pessoa a uma figura. Um fato complexo e estranho (Para quem não sabe a história, o fato de Simonal ter mandado agentes policiais conhecidos bater no seu ex-contador), ao ser transformado em palavras (Simonal é ligado a ditadura, é de direita, está a favor da tortura e da perseguição política..) eliminou qualquer possibilidade de outro sentido para sua vida e história. E o filme traz a radicalidade dessa situação, ao colocar em relação a magnitude do poder em certo momento deste astro aliado ao seu trágico destino. Tragédia, na qual em momento algum outra palavra conseguiria se interpor e criar um novo sentido, pelo menos enquanto ele estivesse vivo. (O honesto relato de Paulo Moura quando este tentou convidá-lo para um show é bem didático deste caráter trágico, assim a presença titubeante de Simonal no programa da Hebe com uma série de documentos na mão buscando provar sua inocência…)

Ao contar esta história vemos também surgir outro relato, um outro sentido para todo esse conjunto de fatos. Por exemplo, eu aprendi através do Nelson Motta que o Simonal teria sido achincalhado de maneira irresponsável pelo Pasquim, que o teria acusado injustamente de Dedo-Duro. Portanto, para mim o Pasquim era o responsável direto pelo banimento do cantor. Por esse motivo fiquei surpreso com a simpática presença de Ziraldo assim como pelo sempre antipático Jaguar no filme. Depois entendi, pois a história e sua narrativa traz além de uma outra leitura sobre a vida de Simonal, também uma abordagem diferente sobre a relação do Pasquim com toda esta história. Ainda que tenha minhas questões sobre esse livramento apressado da revista, acho interessante como a salvaguarda desta importante publicação brasileira sintomaticamente carrega a marca de nosso tempo. Se durante a ditadura era psicologicamente importante identificar o dedo-duro, o de direita, o errado, hoje vivemos essa época onde não se parece ter mais culpado, nem lado, nem partido, nem esquerda… (Fundamental entender melhor esta questão do bode expiatório, concordo que Simonal, pelo fato também de ser negro e ter sido um grande astro tornou-se uma “ótima” figura para ocupar esse lugar do torto, do perverso…)

Pensei em muita coisa a partir do filme. Mas principalmente liguei essa história a dois outros filmes. O recente filme “O Leitor” e o clássico nacional “Eles não Usam Black-Tie”. O que é central para o meu argumento no primeiro filme, é a questão de como nos apropriamos da história, como esta é organizada e “semantizada” pelas pessoas a partir de certo contexto. No filme, mais do que a história singular ali mostrada, de um rapaz e uma mulher, achei maravilhosa a questão de considerar esse não lugar, e esse não tempo que é o da Alemanha pós-nazismo como na verdade um espaço de histórias singulares, pessoas e vidas. Como ver a História da Alemanha, pensar a si mesmo frente à idéia deste monstro (o nazismo, Hitler) que teria tudo engolfado, tudo determinado. Concordo com muitos pensadores quando estes buscam desmistificar estes momentos agudos da história, estes que adquirem aura de inferno (ou paraíso) na Terra, uma não vida, como se as pessoas não comprassem mais pão, não se fosse mais a escola, como senão quisessem salários maiores. Mas “O Leitor” traz essa dimensão de que há vida e pessoas nesse momento e de que não se trata de uma não história, há muitas e muitas circulando longe do que veremos no futuro nestes pobres livros didáticos de história. “Eles Não Usam Black-Tie” se baseia na peça de mesmo nome escrita por Gianfrancesco Guarnieri sobre a vida de uma família de operários da periferia paulistana. Confesso que nunca senti uma angústia tão grande vendo um filme quanto no final deste. É um desses filmes maravilhosos, mas que dói muito de ver. Aquele final, no qual o jovem personagem submetido as agruras da vida, as dificuldades materiais de existência, coloca-se contra a greve da qual seu pai é um dos militantes mais apaixonados é sem dúvida de deixar a gente no vazio. Pois este personagem torto, no qual fatalmente nos vemos segue desfiliado, abandonado por todos, sem nome, sem lugar ou história ou na vida que não a do erro do mal. Ao ver o filme sobre Simonal nada me abalou mais do que o relato de sua esposa, quando esta conta que quando Simonal ia aos shows de seus filhos se escondia do público para que as pessoas não relacionassem seus filhos a ele, para que não se perpetuasse neles aquilo que ele carregaria até morrer.

simona2

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Published in: on 17/09/2009 at 13:32  Deixe um comentário  

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