Mestrado#2

“Se você pretende saber quem eu sou /
eu posso lhe dizer, entre no meu carro /
na estrada de Santos e você vai me conhecer…”

As curvas da Estrada de Santos, Roberto Carlos

Para conhecer o Roberto, nos idos de 60, a mocinha deveria entrar no seu carro. Dessa forma, se o carro do rei estivesse enguiçado, a mocinha (ou o rapazinho) não teria o imenso prazer de conhecer o rei, pois é só na velocidade das curvas que ele mostra realmente quem é.

A referência a noção de sujeito coloca importantes questões para pensar a vida social e política. Essa noção implica entender de que maneira as pessoas subjetivamente articulam sentidos específicos às relações sociais e fatos dae suas vidas. E é a partir do decantamento de certos sentidos ligados à  nossa existência que temos o que chamamos de eu.
A subjetividade define-se pelas práticas vividas e pelos sentidos ligados a estas práticas. Não há, portanto, um sujeito anterior e pronto de uma vez por todas. Ou um sujeito definido de forma abstrata como o homem racional do penso, logo sou lá do Descartes. Qual é a idéia desse ideal de sujeito? É que  somente a partir da condição de homem racional que se torna possível ser um sujeito. Já o Roberto, dando uma aula ao Sr. René, mostra que não é a sua capacidade racional que o define, mas sim sua prática de dirigir perigosamente pela estrada de Santos, sua coragem, seu vigor. É por aí que ele estrutura e liga os muitos pontos de sua vida, do passado e do presente, numa certa organização semântica.

Uma concepção de sujeito (ou subjetividade) nessa linha, coloca em questões e traz a nossa cena alguns elementos para pensar: A crítica à idéia da existência de algum momento redentor e final que constituiria o sujeito (a consciência de classe, exemplo); a verdade do elemento prático em razão da abstração; e a existência de muitas situações e posições nas quais os indivíduos se afirma como sujeitos. Isso porque, por mais corajoso e garotão que o nosso Roberto pudesse ser, ninguém imaginava que sua vida se resumia a ir e voltar para Santos, todo dia. Ele também dormia, em algum lugar ou vários, comia, bebia, rezava ou não, escrevia, visitava a avó. Ou seja, sua vida era atravessada por várias práticas e discursos, que condicionavam um fazer e um sentir. Não dá pra confundir a boate com a igreja. Ou a casa da mãe, com a da mãe Joana. Em cada situação vivencia-se diferentes sensações e expectativas.

Dessa forma, ficamos com duas opções: Ou pensamos que há um centro organizado que processa e elabora tudo isso, mais ou menos, como se dá a relação entre o ator e seus personagens. A marca dessa relação seria a idéia de que sempre  haveria uma pessoa real atrás de cada personagem.  Ou, por outro lado, pensamos que há sempre um processo de incorporação dos personagens (no ator) e que não há em definitivo um ser humano singular, “de verdade”, atrás ou fora da encenação. Ou seja, o ator é o personagem, ou o conjunto desses personagens. Mas considerando este último ponto, ficamos com um problema. Então, não há sujeito de forma alguma, e sim muitos sujeitos, cada um emergindo a partir de cada situação,  cada experiência? Assim, seríamos como o comunista de Marx, iríamos “caçar de manhã, pescar à tarde, criar gado de noite, criticar após o jantar, tal como se deseje, sem jamais se tornar caçador, pescador, pastor ou crítico”? Será que é isso? Mas tenho certeza que fosse este comunista o nosso Roberto, ele falaria para sua dama, “olha só,  vamos lá, você quer me conhecer? Então venha me ver caçar um belo javali…” O que quero dizer com isso é que as diversas práticas vividas pelas pessoas acabam se estruturando a partir de algum princípio singular, que assim se torna uma certo eixo da vida desta pessoa. Nem temos por um lado um centro fechado e definido, e nem por outro apenas contingências e contextos.

O que falta em toda essa equação é a compreensão de que a relação que o indivíduo estabelece com sua vida, com uma posição e não com outra parte de um princípio ativo desencadeado por este indivíduo. Pois numa situação aberta, marcada por muitas possibilidades, é preciso que este indivíduo inscreva um sentido singular na sua relação com aquilo. É no momento que o indivíduo se engaja ativamente no processo de demarcação de uma posição e não de outra que vemos aparecer o sujeito. Mas ainda que isso se processe de forma mais ou menos estável, nunca se cristaliza, pois as práticas e as relações sociais são sempre passíveis de transformação.
Pois se o Roberto não vendesse mais disco nenhum a partir de 69, ficasse pobre e tivesse que vender o seu amado carro, e daí uma certa moça quisesse lhe conhecer, e então, o que será que ele diria?

mudancas

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Published in: on 04/10/2009 at 05:05  Comments (1)  

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  1. Seus textos estão cada vez mais interessantes e sensíveis. É um prazer lê-los e refletir sobre….
    Tirinha genial também!


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