Ei Tolstói, Vai tomá no Cu#6

ou:

Coleção Primeiros Passos:

“O Que é Sedução”

“Anna falava com desembaraço e sem pressa, de quando em quando, desviava seu olhar de Liévin para o irmão, e Liévin percebia que a impressão que causava era boa e logo se sentiu a vontade, espontâneo e alegre, ao lado de Anna, como se a conhecesse desde criança”.
(…)
– Não é mesmo de uma beleza extraordinária? Perguntou Stiepan Arcáditch, ao notar que Liévin dirigia os olhos para o quadro. [de Anna]
– Nunca vi um retrato melhor que este.
– E e extraordinariamente parecido não é verdade? – Perguntou Vorkúiev.
Liévin voltou os olhos do retrato para o original.Um brilho especial iluminou o rosto de Anna, no momento em que ela sentiu sobre si o olhar de Liévin. Ele ruborizou-se e, afim de esconder sua perturbação, quis perguntar se não fazia muito que ela vira Dária Aleksándrovna; mas, nesse mesmo instante, Anna pôs-se a falar:

(…)

Dessa vez, Liévin já não falava, em absoluto, da maneira mecânica como havia conversado naquela manhã. Na conversa com Anna, cada palavra adquiria um sentido especial. Falar com ela era agradável, e ouvi-la, mais ainda.
Anna falava não só de modo natural e inteligente, mas também inteligente e despretensioso, sem atribuir nenhum valor às próprias idéias, mas dando o máximo valor às idéias de seu interlocutor.
A conversa enveredou por uma nova tendência da arte as novas ilustrações da Bíblia feitas por um artista francês. Vorkúiev recriminou o artista pela realismo que chegara à grosseria. Liévin disse que os franceses haviam levado o convencionalismo na arte mais longe do que ninguém e, por isso, viam um mérito especial no retorno ao realismo. No fato de já não mentirem, eles encontram poesia.
Nunca algo inteligente dito por Liévin lhe proporcionou tanta satisfação quanto essas palavras. O rosto de Anna iluminou-se, de súbito, quando reconheceu de um golpe o valor daquele pensamento. Ela riu.
– Estou rindo – explicou Anna – como rimos quando vemos um retrato muito parecido conosco. O que o senhor disse caracteriza com perfeição a arte francesa atual, a pintura e até a literatura: Zola, Daudet. Mas talvez seja sempre assim, os artistas elaboram suas conceptions a partir de figuras inventadas e convencionais e, depois de fazer todas as combinaisons, as figuras inventadas cansam e eles passam a imaginar figuras mais naturais, mais fidedignas.
(…)
Sim, sim, aí está uma mulher!“, pensou Liévin, esquecido de si mesmo e fitando o belo rosto vivaz de Anna, que agora se modificara completamente. Liévin não escutava o que ela estava falando, inclinada na direção do irmão, mas estava impressionado com a mudança da sua expressão. Antes tão lindo em sua serenidade, o rosto de Anna passou, de repente, a exprimir uma estranha curiosidade, além de raiva e orgulho. Mas isso durou apenas um minuto. Ela semicerrou os olhos, como que recordando algo.
(…)
E olhou de novo para Liévin. O sorrido de Anna, o seu olhar, tudo lhe dizia que ela dirigia aquelas palavras apenas a ele, com pela sua opinião e, ao mesmo tempo, ciente de antemão de que os dois se compreendiam um ao outro.” (Tolstói, Anna Kariênina, p.684-7)

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Published in: on 08/10/2009 at 17:23  Deixe um comentário  

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