Rio de Janeiro: Violência, Medo e Execução

Ao passar por uma banca não resisto e sempre confiro as primeiras páginas dos jornais, sobretudo dos mais vagabundos. Aqui no Rio sempre encontramos na capa desses jornais algo sobre o flamengo, a violência e mulher gostosa. Uma capa exemplar é a de hoje, 3 de novembro de 2009 do jornal Meia-Hora, no qual as coisas foram ainda mais facilitadas, pois juntou-se mulher e flamengo, num novo caso do jogador Adriano:

capinha

E não estou aqui criticando estes jornais, pois acho que eles conseguem captar e sustentar figuras que se encontram nas palavras e visões dos cariocas, ou pelo menos de parte deles. E dessa forma,  acabam trazendo a tona, em cores berrantes, coisas que nunca estariam estampadas nas páginas aristocráticas e frígidas dos globos e folhas de são paulo da vida. De fato, o que me incomoda sim, sobretudo nas capas do ‘Meia-Hora” é a defesa irrevogável das ações da polícia, mesmo de suas ações mais cruéis, e a completa ausência de qualquer reflexão sobre isso tudo. O tema e o tratamento dos criminosos continuamente aparecem associados a  “pragas” e “insetos” da vida social.

bopecida

E é nessa mesma onda, que prolifera entre a nossa “grande” mídia e nossos políticos o termo “bandido”, e “vagabundo”. Termos que não caracterizam nenhum tipo de prática ou ação, como “traficante”, “assassino”, ou “ladrão”. Ao subsumir todos na classe “bandido” constrói-se, por um lado uma indiferença entre estes sujeitos e suas ações, e por outro crias-se uma diferenciação brutal em relação aos trabalhadores, nós, as “pessoas normais” como outro dia disse o presidente Lula. Assim, não resta nada que valha qualquer coisa do lado de lá, no lado dos anormais, dos bandidos.

O último marxista vivo, Istvan Mészaros escreveu há algum tempo uma frase que podemos usar como código para interpretar as questões sociais no país: “Quando os conflitos já não podem ser ocultados, são tratados meramente como efeitos dissociados de suas causas (A Necessidade de Controle Social, p.33)”. Nada que acontece no Rio parece ter causa. A violência urbana emerge como um grande enigma da humanidade, mas  ninguém parece tentar decifrar esse enigma. Assim, um problema histórico e recorrente aparece sempre como algo novo e inédito, sobre o qual pouco entendemos. O que se quer é sempre alguma resposta rápida e nervosa por parte do estado. Mortes, muitas mortes cabem bem nessa equação.

E assim de tudo o que já se falou e escreveu sobre o assassinato do coordenador de projetos do Afroreggae, da participação da polícia no latrocínio, do descaso com a vítima agonizando no chão, e da liberação dos mesmos. De todas essas coisas que ampliam nossa úlcera e neurose cotidiana, uma que me chamou atenção foi a fala do diretor executivo do Afroreggae, José Junior, que logo após a divulgação das imagens do carro de polícia passando, segundos após o assassinato, declarou que o mais importante naquele momento era ir atrás dos assassinos.  Assim, ele minorou a importância e envolvimento da polícia nisso tudo. Ora, aquilo me pareceu tão estranho. Não porque não se deve procurar e prender os  culpados (o que ocorreu durante a última semana), mas porque não se deve minorar as ações dos policiais. É preciso colocar muita luz nesse caso. Não para tratar tais policiais como os únicos responsáveis por tudo isso,  mas como pontes que nos levam a pensar o que é a polícia, suas práticas e sua cultura. É preciso parar de eliminar ou expulsar os sujeitos como se tudo se tratasse de problemas individuais. Pois o que acontece com o Capitão Bizzaro, e o tenente Vinícius Ghidetti (do caso do morro da Providência), é o  mesmo processo que sustenta as práticas de extermínio. A dissociação dos indivíduos com seus lugares e práticas sociais. E é aí que entra o mote do Mészaros, trata-se conflitos como se fossem coisas isoladas, sem causas. A magia das comunicações e dos homens de poder é conseguir sustentar isso ao longo do tempo, quando a repetição de atos violentos (assim como da confluência de instituições legais e criminosas, nesse caso) deveria estabelecer uma sólida ponte entre tais questões. Morando no Rio há um ano e meio fica bem claro que o tráfico de droga, o crime e a violência estão entranhados na cidade. Mas a cada nova “onda” de violência parecemos esquecer que as ondas são causadas pela dinâmica do mar, da praia, da água.

E assim seguimos. Há algumas semanas um helicóptero fora derrubado numa favela carioca. O que vimos se seguir disso foi uma série de ações da polícia,   de invasão, prisão e morte em favelas e periferias que parecem não precisar de nenhuma explicação. Um problema grave nesse caso é que boa parte da sociedade civil considera necessária, ou ainda normal, tal tipo de ação. Como se para fazer omeletes tivéssemos sempre que quebrar os ovos,  não  mesmo o que se diz. O problema é que não estamos fazendo omelete nenhum, e que os ovos são pessoas, vidas e sonhos.

Não vi o filme “Salve Geral”, sobre os ataques e as consequências das ações do PCC em São Paulo em 2006. Mas mais do que o filme propriamente dito, essa notícia me impressionou muito mais. Ainda mais porque não me considero desinformado, e busco sempre ler outras fontes de informação além da monovisão propalada por nossa grande mídia. Fiquei bastante impressionado com o número de assassinatos que se seguiram aos ataques do PCC em São Paulo, em maio de 2006. Mais de 400 pessoas morreram. Eles eram, em sua maioria, jovens pobres e negros. O que sei e lembro com clareza dessa época é a forma relativamente simples que se construiu um bloco, uma aliança simbólica no qual algumas práticas e ações passaram a ser “necessárias” para defender a nossa vida social. Ou seja afetos, sentidos de responsabilidade e moral foram ativados frente a esse inimigo terrível e muito presente, o PCC. Na época morava numa cidade do interior de minas e só acompanhava tais notícias via Globo, Band, Record e Sbt. E ainda que nenhum desses canais trouxesse tais reflexões, era claro para mim que estávamos frente uma maneira diferente de ação criminosa. Queimavam-se ônibus, sem pessoas dentro, os ataques se dirigiam a grande Bancos e policiais, no trabalho e a paisana. Sobretudo o ataque a bancos e a policiais me pareceu bastante significativo de uma intencionalidade, um objetivo, e logo de alguma visão e raciocínio. Mas não, logo se propagou o medo generalizado de que o Brasil iria explodir a qualquer momento, e que qualquer pessoa poderia ser atacada na rua. E é esse medo que alimenta a nossa cegueira frente a morte dos mais de 400 jovens…e não só em 2006.

E é por isso que a manifestação das mães dos executados em São Paulo, na ocasião do filme “Salve Geral” é algo de extrema importância. Pois mais do que coisas isoladas, já podemos ver nesse passado, cenas de um futuro/presente bem próximo. E sabemos que a história sempre se repete como farsa. Acredito que é isso o que veremos no rio por muito tempo ainda, essa farsa que tanto acaba com a vida, com o sonho e com a beleza.

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Published in: on 03/11/2009 at 19:00  Comments (1)  

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  1. Isso né…o medo! O medo dos insetos alienigenos chamados “bandidos” . Essa palavra realmente me dá frio na barriga, já que, por lei, não se pode discriminar negros, pobres, ou índios, usa-se “bandidos”. É isso que vc falou, parece que a violência é uma coisa a parte, dissociada da cidade em si (vulgo…leblon e barra). Como se sua origem, proliferação e continuação não fossem apenas sintomas de problemas enraizados…


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