Folga: Enquanto a vida não me escala…

Espero conseguir dar um tempo aqui nesse blog. Tenho que ir ali e terminar um mestrado, depois volto. Todas essas palavras digitais acabam me distraindo e por isso importa dar um tempo. Mas, às vezes, não escolho mesmo escrever um texto, é ele quem me escolhe. Como nesse agora que segue aqui embaixo. Pretendo mesmo esquecer da vida (que me deixou ferida, diria o pagodeiro) e partir para a análise e escrita acadêmica.

Mas caso a dor sobrevenha e estoure um texto, bom aí não terei mesmo escolha…

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Deus Protege a Quem Chora.

Foi numa noite de tristeza e solidão. Foi ao final do dia ao me descer o cansaço; no limiar da enunciação, de uma explosão ou de um grito; de um choro, agora incontido. Num não saber o quê, porque e quando me coloquei para fora de casa. Andaria para onde quer que fosse. Choraria, bailaria, falaria. Quem sabe um delíriozinho qualquer. Buscava que da solidão unida a angústia brotasse um gesto de amor. Ser mineiro no Rio de Janeiro nos traz a experiência culminante desse “ser mineiro”. Na diferença com o calor, a vida e o riso das pessoas, entendo um pouco mais quem sou.

Foi no meio disso e à falta de companhia que me dirigi ao Bip-Bip em Copacabana. Bar famoso pela boa música. Não fui atrás de som e sim de redenção. De um pouco de paz. Ao chegar lá tudo estranhei. Sozinho, sentia que me olhavam… Não há mesa e ficam todos em pé na rua, exceto pela roda de músicos que tocam e cantam, sentados nas únicas duas mesas dentro do recinto. De início fiquei incomodado. Mal sabia onde por meus pés e mãos. E aí resolvi ir embora, passear pela praia de Copacabana desistindo, temporariamente, de encontrar ali minha paz. Era domingo e o calçadão estava cheio. Putas, turistas, tias gordas e sebentas. Meninas e meninos feios. Depois de um tempo resolvi voltar ao bar, última chance… Dali iria embora enterrar minha dor na cama, chorar até sobrevir o soluço vazio, a secura da lágrima, o silêncio de quando a palavra acaba…

E na volta senti algo diferente. Nos sambas antigos, nos versos floreados, aos poucos me achei. Nas cabeças brancas de violeiros impacientes, refiz um passado. Na roda embalada pelo compartilhamento da emoção me vi menino… Vi outras noites, outras pessoas, alguém que fôra eu…
“João, são muitas as noites antigas que me prendem no meio desta noite. Pobres as noites sob as lâmpadas da redação, mesquinhas as noites de trabalho insincero, tristes noites sem ternura noturna”…
Tristes noites sem ternura noturna. Nos versos do velho e fundamental Braga, recapitulei noites antigas dentro desta. Vivi mais uma vez outras noites entre homens velhos e brancos, com as mesmas caras rosadas, barrigas salientes e a pose de quem tudo entende da vida. O ar desses homens que enunciavam que eles tinham sim, e um dia eu também teria, todas as respostas. Nos gestos dominadores desses machos-alfa revi ilusões. Mas no meio da música, do samba, do chico, do cartola, do elton, ah… No meio dessas canções e do amor nos olhos desses homens e mulheres já atravessados pelo tempo, vi as coisas mais lindas da vida, de minha vida. Lembrei uma noite específica, na qual estava numa outra roda como essa. Roda de velhos e de música. E lá, nessa noite passada, eu encontrava uma paz tão verdadeira e estranha aos meus vinte anos que tudo isso me desarranjou muito. E em determinado momento nesta noite, na qual  me preparava para deixar a roda e a música, e daí partir com amigos jovens a caçar mulheres, meninas, bocas e, talvez, seios, pensei uma coisa. Algo que baixou com todo peso e brutalidade de uma benção, ou maldição. No meio disso tudo, na dúvida se partiria para a “night”, pensei: “Para onde posso eu ir depois de estar aqui e viver essa maravilha, essa beleza, essa música? Como sair daqui e me dirigir a uma boate, a uma palavra sem sentido, a um gesto que nada traz de beleza?”. É claro que não parti e fiquei ali com os velhos e o violão. E nunca, nunca me arrependi dessa escolha. Talvez me arrependa simplesmente de não ter escolhido mais isso, em outros momentos da vida. O caminho da beleza. O caminho do infinito, independente de tecidos e intumescências…

Isso veio a mim, e restaurou uma paz. Parcial, mas ainda sim uma paz. A vida faz sentido. Há algo que valha uma lágrima. Há princípio no acordar. Coisas assim, muito afirmativas. E aí vivi minhas muitas noites, minhas noites de música e beleza, minhas noites de solidão, de abandono, de silêncio e vazio. De choro. E no meio disso, esses velhos  sagazes ao ver a lágrima descer logo escalaram o Elton e o Paulinho Pinheiro a me socorrer:

“Choraaa… Põe o coração na mesa.
Choraaa, sua secular tristeza
Tiiiira… o teu coração da lama
E chora a…dor santa e a dor profana
Que….
Deus Protege a quem chora”…

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Published in: on 14/11/2009 at 03:30  Comments (7)  

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7 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Foda!!!

  2. Grande Li, valeu cara…Bom te ver por aqui…

  3. O senhor tem se superado. Gosto muito desse lugar aki

  4. Lindo! Muito bonito…
    assino embaixo do comentário do Fred…

  5. Filhão que coisa mais linda. Eu também queria estar lá.

  6. […] a primeira vez que entrei no Bip-Bip senti algo bem diferente. Senti uma força de outro plano que me disse: “Vem sempre, menino!”. Senti uma […]

  7. […] a primeira vez que entrei no Bip-Bip senti algo bem diferente. Senti uma força de outro plano que me disse: “Vem sempre, menino!”. Senti uma […]


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