é Nóis #1

Terminei há uma semana uma fase importante de minha vida, a realização de meu mestrado. Foi um momento repleto de coisas loucas, belas e novas. Momento de vidinha de casal pequeno burgûes em Botafogo, momento de sair da casa da mãe, momento de virar  tio, e de virar tio de novo, e de realizar algo objetivo na vida.

Há hoje, objetivamente, um Rafael antes e um depois do mestrado. Isso assusta e faz bem, mostra que o tempo passa, coisas acontecem, novidades emergem em momentos que pareciam tão banais, pessoas nascem, e outras, infelizmente morrem. É assim sempre, e disso ninguém foge, nunca. Resta saber o que cada um faz dessas coisas…

Sei que pouco antes de terminar a escrita de minha dissertação que foi um momento muito solitário e doloroso de minha vida, via a cada linha o reconhecimento de pessoas, lugares, filmes. Momentos no qual algo se marcou e me constituiu. Esse reconhecimento emergia assim muito naturalmente, como, por exemplo, quando descobri que uma pessoa, das mais importantes na escolha que fiz e faço, de uma vida voltada a academia e às coisas do pensamento, o Biziu, anda longe da minha voz e da minha mão. Pessoa linda e complicada a qual agora só vejo nas linhas de emails errantes. Mas que me deu para ler num dia assim sem mais: “Édipo Rei”. Nada mais, nada menos do que a obra de Sófocles, mito inspirador e ponto central na psicanálise. Ao ler, na sapiência própria dos 13 anos, tombei zonzo de culpa, quando descobri que eu também amava minha mãe. Foi engraçado e trágico, como quase tudo na vida. E ainda havia aquelas histórias lindas que ele me contava sobre a Odisséia e a Ilíada, a coragem e inteligência de Ulisses, que tanto me inspiraram. Foi dessas coisas que nasci… da poesia, do canto.

Mas também havia coisas assim, mais esparsas, cenas, filmes, pessoas que passaram e marcaram. No filme “Antonia’s Line” (A Excentrica Família de Antônia), há uma cena dessas. Após o estupro de sua neta, Antônia armada de uma espingarda vai atrás do estuprador, um perverso desses que existem em todo canto. Antônia não atira no estuprador, ela faz algo muito pior. Lança uma maldição sobre ele. E é sem dúvida das coisas mais fortes e pesadas que poderia acontecer. O poder definidor da palavra. A força de constituir mundos e relações. Estabelecer o possível e o proibido. Nada é mais forte do que isso. E para os realistas de plantão isso não é uma constatação, é sim uma crença.

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Published in: on 22/01/2010 at 02:28  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. ou dos gestos…e se ela n’ao estivesse ali com a arma?

  2. na minha dissertação vai estar escrito assim: ao rafa, pelos 9 anos. (e pelos muitos que ainda virão e que nenhum realista consegue fazer duvidar) =*. foi muito feliz estar ai e te ver conquistar essa vida, baby!


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