Paixões I

Rubem Braga foi para mim muito mais do que um escritor, um literato. Ele foi por vezes meu pai, um tio, ou apenas um velho amigo com quem iria aprender coisas. Ele foi um psicólogo social afeito aos problemas do cotidiano brasileiro. Mesmo que sua maior preocupação se dava em torno dos caminhos que levam ao coração de uma mulher. Tema maior de sua vida. Rubem Braga foi aquele que imaginei conversar, aquele que vi me censurando nesta ou naquela aventura.

Ele me impressionou em diversas crônicas quando me sentia invadido pela beleza, pela poesia ou pela tristeza, mas sempre uma tristeza exuberante, forte, viva.

Há algumas semanas me deparei com a crônica abaixo. Linda, profunda e triste. Como a vida que quero para mim, e que mais do que tudo aprendi a querer um pouco com esse velho galante.

A Mulher e Seu Passado

Rubem Braga

Ela conta a história de uma freira que a atormentava no internato, em seu tempo de menina; de um homem que a fez viver longamente entre o desespero e o tédio, a revolta e a humilhação. E fica meio magoada porque a tudo eu sorrio, porque eu não pareço participar do sentimento com que ela fala contra essa gente que passou. Afinal ela também sorri: “Você é meu amigo ou amigo da onça?”

Sou seu amigo, mas rico ri a toa, e eu me sinto vertiginosamente rico porque essas história, alegres ou tristes, ela me conta de mãos dadas, junto de mim. Digo-lhe isso, mas não lhe confesso que aprovo e abençôo todas as coisas e pessoas que povoaram seu passado, e tenho vontade de dizer:

“Bendito teu pai e tua mãe; benditos os que te amaram e os que te maltrataram; bendito o artista que te adorou e te possuiu, e o pintor que te pintou nua, e o bêbedo de rua que te assustou, e o mendigo que disse uma palavra obscena; bendita a amiga que te salvou e bendita a amiga que te traiu; e o amigo de teu pai que te fitava com concupiscência quando ainda eras menina; e a corrente do mar que te ia arrastando; e o cão que uivava a noite inteira e não te deixou dormir; e o pássaro que amanheceu cantando em tua janela; e a insensata atriz inglesa que de repente te beijou na boca; e o desconhecido que passou em um trem e te acenou adeus; e teu medo e teu remorso a primeira vez que traíste alguém; e a volúpia com que o fizeste; e a firme determinação, e o cinismo tranquilo, e o tédio; e a mulher anônima que te vociferou insultos pelo telefone; e a conquista de ti por ti mesma, para ti mesma; e os intrigantes do bairro que tentaram te envolver em tuas teias escuras; e a porta que se abriu de repente sobre o mar; e a velhinha de preto que ao te ver passar disse: ‘moça linda’; bendita a chuva que tombou de súbito em seu caminho, e bendito o raio que fez saltar teu cavalo, e o mormaço que te fez inquieta e aborrecida, e a lua que te surprendeu nos braços de um homem escuro entre as grandes árvores azuis. Bendito seja todo o teu passado, porque ele te fez como tu és e te trouxe até mim. Bendita sejas tu”

Abril, 1964

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Published in: on 25/03/2010 at 01:28  Comments (1)  

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  1. Ah, mas q bonito!
    Tava com saudade dos seus posts com essas nostalgias constitutivas!

    Bj. Elisa.


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