A Fita Branca

A Minha orientadora me pediu para escrever um pequeno texto sobre o filme A Fita Branca, para colocarmos no site do nosso grupo de pesquisa sobre a infancia e a juventude, O NIPIAC. Eu tinha entendido que era mais uma análise mesmo, mas depois vi que a idéia era apenas uma apresentação do filme. Então resolvi colocar aqui o resultado extendido, e lá apenas essa breve apresentação do filme.

A Fita Branca (Alemanha, 2009, Dir: Michael Haneke)

O filme narra uma série de estranhos acontecimentos ocorridos numa pequena vila alemã em 1913, um ano antes do início da primeira guerra mundial. Dirigido pelo austríaco Michael Haneke, esta obra ganhadora do prêmio mais importante no festival de Cannes, a Palma de Ouro de 2009, traz uma angustiada reflexão sobre a natureza e o ciclo da violência a partir das intrincadas relações entre os moradores desta vila, atravessando questões econômicas, religiosas, de gênero, mas sobretudo focando nas relações entre adultos e crianças.

 A obra é tecnicamente perfeita, marcada por uma fotografia belíssima em preto e branco e narrado em primeira pessoa, a trama se desdobra a partir de dois estranhos acontecimentos que marcam esta até então “pacata” vila. Num primeiro momento o médico do povoado, ao voltar para sua casa em seu cavalo, sofre uma terrível queda quando seu animal tropeça num arame amarrado entre duas árvores. Vemos que o acidente fora provocado por alguém, pois o arame havia sido amarrado exatamente no caminho cotidiano do médico. Poucos dias depois, uma camponesa de meia idade sofre um acidente em seu trabalho vindo a falecer. A partir destes episódios, e das condições em que estes ocorrem, somos convidados e entrar no âmbito das relações que caracterizam a aldeia. Outros acontecimentos ainda mais estranhos e violentos se seguem. Sem apelar para um suspense simples, que buscaria uma resposta objetiva à questão da responsabilidade e autoria dos atos de violência, esta narrativa se volta sobre o complexo mundo de relações humanas nos convocando a pensar em algo mais profundo sobre a condição humana. Do ponto de vista de sua estrutura narrativa, “A Fita Branca” nos lembra o filme “Dogville” (do sueco Lars Von Triers) no sentido em que ambos, através da análise de um povoado particular, descortinam elementos de um processo histórico mais amplo. Ou seja, o que acontece ali é, antes de mais nada, uma referência a algo estrutural determinado por condições sócio-históricas e não fruto de acidentes casuais. Portanto, não é fortuito que “A Fita Branca” termine com o início de um momento histórico central do século XX, a primeira guerra mundial.

Gostaria de finalizar esta discussão com um elemento suscitado a partir da reflexão em torno do título do filme. Esse faz referência à prática de um dos personagens principais da trama, o pastor da vila, que, como punição às diabruras de seus filhos, amarra em seus braços uma pequena fita branca para lembrar-lhes o ideal de pureza e de inocência que marca a infância. A função desta fita seria a de duplamente lembrar tanto o que eles haviam feito de errado como também como eles deveriam ser, puros e inocentes. Para alguns críticos de cinema, a fita branca seria uma alusão ao nazismo, na sua prática de marcar os judeus e outros sujeitos que não eram considerados “puros”. A referência a fita branca nos remete ao domínio simbólico. Neste domínio algo é importante não pelo que é, mas pelo que representa. Ou seja, a fita é o substituto de algo, nesse caso a infância inocente e pura. Da mesma forma como um pai simboliza a lei, ou um padre/pastor, a moral e a essência espiritual de um povo. O que me chamou atenção no filme partindo desses elementos é o complexo processo de dissolução do plano simbólico na sua capacidade de estruturar a realidade social. Duas cenas são importantes para entender o meu argumento. Em primeiro lugar vemos a cena na qual a filha do pastor se caminha para a sua crisma. Ali ela irá reforçar seus votos cristãos. No dia anterior ela realiza um ato bárbaro contra um pequeno animal de seu pai, com o intuito claro de provocá-lo. O filme nos mostra que o pai vê o que a filha fez. O que se segue é a cena do ritual de crisma na igreja, na qual seu pai, o pastor, hesita ao colocar a hóstia na boca de sua filha, mas após um breve instante conclui aquele ritual religioso, e também simbólico e público. Em outra cena, pouco antes do final do filme, vemos o narrador, o professor da vila se dirigir à casa do pastor para mostrar-lhe suas suspeitas de que as próprias crianças estariam envolvidas nos atos violentos que ali haviam ocorrido. Mas o pastor ao ouvir da boca do professor aquilo que ele também suspeitava o ameaça, fazendo-o se calar e defendendo assim seus filhos, através do uso de seu poder. A fita branca é colocada em seus filhos para que estes se lembrem de algo que deveriam ter entendido. Ela é uma espécie de reforço quando a realidade já dá mostras de se desintegrar.

Mais do que considerar o círculo de atos violentos em si, é talvez mais interessante pensar na maneira como se funda e se dissolve a estrutura simbólica dessa sociedade. Ao final do filme entende-se porque a autoridade não tem necessariamente a ver com o autoritarismo ou a punição, pois o pai continua sendo autoritário, mas não há mais a autoridade, no sentido do laço que estrutura e une um corpo social. O pastor severo e duro com seus filhos, não aceita o julgamento de quem está fora de sua casa e assim exclui o que acontece de sua casa do mundo público, da vida social. O professor, mais do que qualquer coisa, é ali um cidadão. E se ao longo do filme acompanhamos um pai rigoroso e um pastor devotado a lei de Deus, tudo isso desaparece quando percebemos que tais regras deixam de estar vinculadas à ordem social, e se fundam no desejo e no poder de um homem real. A cena da crisma nos mostra isso, quando frente aos olhos da cidade e, porque não, de Deus, o pai se desvia daquilo que não poderia ser desviado. Mais importante do que o ato de violência da filha, é a impotência da palavra e do ato em criar um sentido para as ações, e assim construir um mundo comum.   

A partir desse momento podemos dizer, parafraseando Freud, que a fita branca é só uma fita e nada mais.

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Published in: on 09/05/2010 at 12:16  Deixe um comentário  

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