Sim.

Ainda não estou levando muito a sério o blog no ano que segue, como talvez não esteja levando mesmo todas as minhas obrigações e responsabilidades. E o ano segue valente para o seu final. Depois de um começo belo e pretensioso, ele segue indiferente e preguiçoso. Ele ou eu. Ele e eu. E só a idéia da Copa, no seu poder, é que segura a angústia e a dissolve em pura e besta expectativa. Como a Copa acontece de quatro em quatro anos, como nela ocorrem feitos extraordinários que nunca se repetem, há contida na idéia da Copa uma dimensão extra-temporal que transcende todo e qualquer evento terreno e que não tem nenhuma relação com futebol. De fato o que mais me lembro quando penso em Copa do Mundo são em certos momentos passados de minha vida, momentos de outras copas, nos quais sempre imaginava como estaria minha vida numa próxima Copa. Em 1994 aos 11 anos pensava como seria viver em 1998 quando estaria então com 15 anos de idade. No tempo e na vida incerta só havia a certeza de uma próxima copa. Em 2002 estaria então com 19 anos e toda a minha vida estaria clara e definida. Os 19 anos ficaram para trás já há 8 e essas perambulações imaginativas perderam a graça há muito mais tempo.

E agora depois de um início de ano virulento e apressado, marcado por grandes acontecimentos sobreveio o marasmo das coisas. O que não seria de se estranhar para quem há tanto ouve e tenta decifrar o segredo daquela música dos senhores Gudin e Pinheiro que diz: “Dia de muito é véspera de nada”. É preciso, antes mesmo da Copa que nunca trouxe nada além de uma alegria boba, espantar o diabo do marasmo. Trazer de volta a vida, bela, extraordinária e encantadora. Num texto curto que coloquei logo aqui embaixo do Rubem Braga ele sintetiza isso de uma forma linda quando agradece a todos os infortúnios, acasos, graças e violências que aconteceram na vida de sua amada, pois tudo isso a trouxe aos seus braços. É essa força que preciso, é dessa afirmação que quero me alimentar. É preciso afastar o medo de estar certo, é preciso excluir os talvezes, os nãos, e dizer sim, sim, sim! E mesmo sabendo que todo sim está contaminado com o erro, é preciso então viver o erro, reconhecer o erro e falar sim para outras coisas que possam então surgir.

             Sim, aí está a Vida. Por uma onto-teologia Tolstoiana.

Em 2009 coisas belas e tristes ocorreram. Foi um ano forte, um ano de envelhecimento. Foi um ano no qual perdi um grande amigo. Ano que ganhei uma sobrinha linda e esperta que continuou esta tradição feminina em minha família. Foi o ano em que conheci Anna Karienina do Tolstoi. Numa determinada passagem do livro ao conhecer e conversar com a extraordinária e bela Anna, Liévin, um dos personagens principais, pensa:

 ‘Sim, sim, aí está uma mulher!’, pensou Liévin, esquecido de si mesmo e fitando o belo rosto vivaz de Anna, que agora se modificara completamente. Liévin não escutava o que ela estava falando, inclinada na direção do irmão, mas estava impressionado com a mudança da sua expressão. Antes tão lindo em sua serenidade, o rosto de Anna passou, de repente, a exprimir uma estranha curiosidade, além de raiva e orgulho.
(…) O sorrido de Anna, o seu olhar, tudo lhe dizia que ela dirigia aquelas palavras apenas a ele, com pela sua opinião e, ao mesmo tempo, ciente de antemão de que os dois se compreendiam um ao outro.” (Anna Kariênina, p.684-7)”.

Nos últimos anos nada me impressionou tanto do que essa primeira expressão, que mais do que descritiva é antes de tudo performativa. Ela constitui aquilo que enuncia. O poder simbólico para Pierre Bourdieu é esse poder de construir o dado pela enunciação. Ao dizer “sim, aí está uma mulher” Liévin constrói uma mulher e também um mundo inteiro de relações. Este momento é o momento de verdade. Por isso é também teológico, funda o início das coisas e instaura um domínio do eterno, do transcendente. Por isso continua Tolstoi e diz que Liévin estava esquecido de si mesmo, e que ali tudo o que ocorria era destinado a ele, todos os movimentos aconteciam apenas para que ele os percebesse. O livro me marcou tanto, pois é uma obra que traz a tona toda a angústia, a solidão e o vazio, mas que consegue sair desse sofrer através de uma filosofia afirmativa, viva, exuberante, voltada para as pessoas, para fora. É linda e exuberante a afirmação, “sim, aí está uma mulher.” No último parágrafo do livro temos o vislumbre de toda a potência do pensamento de Liévin, ou de Tolstoi:

 “Continuarei a me irritar com o cocheiro Ivan, continuarei a discutir, continuarei a expressar minhas idéias fora de hora, continuará a existir um muro entre as coisas mais sagradas da minha alma e as outras pessoas, mesmo a minha esposa, e continuarei a culpá-la do meu medo e a me arrepender disso, continuarei a não entender por meio da razão porque eu rezo, e rezarei, mas minha vida, agora, toda a minha vida, a despeito de tudo o que possa vir a me acontecer, e cada minuto seu, não só não será absurda, como era antes, como terá também o incontestável sentido do bem, que cabe a mim infundir a ela” (p.801).

Sim, aí está um livro. Sim, aí está uma filosofia que vale ser vivida. Sim, aí está uma música. Sim, aí está uma mãe. Sim, aí está um pai. Sim, aí está um amigo. Sim, aí está uma decisão. Sim, aí está o meu caminho. Sim, aí está um amor. Sim, aí está um sorriso. Sim, aí está uma noite boa. Sim, aí está minha casa. Entre o ver, o sentir e o afirmar infundir em todas as coisas uma idéia infinita de bem. Passe impossível e necessário para um viver, para afirmação de uma vida. Fazer da relação com as coisas, mesmo as mais bestas, mas também as mais sagradas, momentos de afirmação da beleza, da verdade e da bondade.

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Published in: on 05/06/2010 at 16:50  Comments (3)  

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Sim, aí está o Rafael. Mesmo.

  2. Que bonito, Rafael. Faço também minhas as palavras da Elisa, acima.

  3. sim sim sim sim sim sim sim sim sim sim sim sim sim sim sim sim sim sim sim sim sim


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