Mas aqui, me diz uma coisa: Essa tal “Psicologia Social” serve para o quê mesmo?#1

Ao longo dos últimos anos tenho escutado, com frequência,  a pergunta acima que se direciona a disciplina científica, a área das ciências humanas que escolhi como o meu campo de trabalho e pesquisa. Para o meu espanto, passado, presente e (possivelmente) futuro, a maioria das pessoas não sabe,   não quer saber, e algumas simplesmente desprezam o que quer que psicologia social signifique. Talvez enxerguem nessa tal psicologia social  um simples entreposto entre áreas como a psicologia ou a sociologia. Assim, venho preparando-me ao longo desses quase 10 anos para responder a essa perguntinha. Pergunta que vem das mais variadas pessoas, de esquerda, da direita, pela frente, dos amigos, tanto dos ingênuos como dos preparados.

Estudo, trabalho e penso tudo na minha vida a partir desse algo que se chama psicologia social. Sim, sou completamente monotemático, e acho que (quase) tudo na vida está inter-ligado e faz sentido. No meio de minha vida classe média zona sul belohorizontina,  com família e amigos não muito afeitos ao cotidiano acadêmico, muitas vezes se fez e ainda se faz necessário explicar as coisas e os problemas dessa área.  O que acredito ser necessário mesmo não seja algo fácil, e isso não ocorre por culpa deles. Pois mesmo entre intelectuais, doutores e professores universitários é recorrente a emissão da pergunta lá de cima. E aí os mais  respeitosos  e cordiais fazem a questão movidos, por certo, por uma curiosidade interessada. Outros não tem nenhum problema em deixar transparecer um mix de  desprezo e desinteresse.

Mas tenho também que reconhecer que antes de entrar no curso de Psicologia, e durante todo o primeiro ano da faculdade, não fazia a menor idéia do que diabos tratava esse termo composto “Psicologia + Social”.  Foi apenas no terceiro semestre, após a realização do curso de “Psicologia Social  I” ( ministrada pela  professora Cláudia Mayorga) que tudo mudou. Posso dizer que a minha vida nunca mais foi a mesma. E esse momento, ou esses momentos nos quais a gente fala “a minha vida nunca mais foi a mesma” em geral se transformam em mantras, em cantos de afirmação e de explicação, que seguem eternamente, ou pelo menos até  o surgimento de um outro desses momentos.  Eternos enquanto durem no fraseado do poeta. São casos de revelação, quando uma verdade se apodera de todas as nossas faculdades presentes, organiza a massa disforme, constitui um destino e dá sentido a história. Algo que eu já sentia, algo que me acompanhava há  um bom tempo, uma busca que não tinha nome subitamente passou a se chamar “psicologia social“. Era o algo que me levava a ler “1984″ e “Admirável Mundo Novo” procurando desvelar  as conexões entre os pensamentos e ações dos personagens e os modos de organização daquele espaço fictício de vida,  interesse além (para alguns, aquém) da coisa literária. Era algo que me deixava besta ao ver que a beleza de Matrix, nos idos de 1999, não estava nos efeitos especiais.  Algo que já havia começado a  teoricamente experienciar quando, no primeiro semestre da faculdade, li o livro mais importante da minha formação acadêmica: o clássico de Peter Berger e Thomas Luckmann, “A Construção Social da Realidade”, na disciplina Sociologia I. E assim seguia atrás de pistas, atrás disso que me  orientava, ainda nebuloso, porque sem nome. Ora, como as pessoas pensam o que pensam sobre as coisas? Como pensariam diferente? O homem pensa igual a mulher? Porque os velhos acham que sabem mais do que os novos, e falam como se de fato soubessem? Porque às 6 da madrugada,  no centro da cidade, há em geral mais negros do que brancos andando pelas ruas? Por que num país com uma população tão miscigenada como a nossa vemos tão poucos negros ocupando profissões centrais na sociedade, como médicos, professores universitários ou empresários?  E por que frente a isso as pessoas acham, de verdade,  que o Brasil não é um país racista? Por que durante boa parte da minha vida convivi, sem maiores problemas, com pessoas que pensam que  os EUA representam o melhor dos mundo possíveis? E como achei isso normal, por tanto tempo?  (Na verdade, honestamente, deveria perguntar quando e por que parei  eu também de pensar assim?)

São essas perguntas que circulam o que eu chamo de psicologia social. E há outras, muitas outras. A idéia simples é que a  nossa vida, os nossos sentimentos e pensamentos são feitos nas nossas ligações com o mundo. É a vida nas suas relações e nas trocas o que anima, estrutura e colore nossa subjetividade.  A psicologia social é talvez mais do que tudo uma recusa de determinada partição entre as áreas do saber, e a implosão de mecanismos históricos de poder e dos conceitos que se seguem a isso. E por isso  a psicologia social representa, ao meu ver, o desejo e a necessidade de uma nova partilha teórica-disciplinar, uma nova redefinição de objetos, métodos e explicações. Historicamente, no caso brasileiro, a psicologia social se definiu em comunhão/diferenciação com a psicologia, ou seja, como uma filha, ainda que bastarda desta. Mas isso não deveria significar que ela não altere,  nem se alimente e que possa efetivamente contribuir com outras áreas das ciências humanas.

Se normalmente respondi a pergunta lá do título com boa vontade e disposição, acreditando na ingenuidade do interlocutor venho a cada momento assumindo uma posição diferente, cínica, desafiadora e exuberante. Do quê a psicologia social não trata, meu amigo? Essa seria a pergunta final que começo aqui esboçando, com dose necessária de  orgulho. Pretendo nessa seção do boteco discutir casos, exemplos de possíveis interrogações e contribuições específicas da psicologia social para os problemas que nos cercam. Alguns vão dizer que a psicologia ou a sociologia já trabalham com isso ou aquilo, e que, portanto, ficar aqui criando mais uma disciplina não vai levar a nada. Muito pelo contrário, o procedimento de fazer valer uma psicologia social a partir de uma ou de outra dessas áreas empobreceu e muito a própria psicologia social, pois o termo novo herdou  as divisórias conceituais, as manias e afetamentos daquelas senhoras velhas.

Para começar, é preciso dizer que não pretendo ser exaustivo, mas apenas trazer a tona exemplos da vida cotidiana nos quais a psicologia social possa nos ajudar a pensar. E que por outro lado, esses exemplos possam também ajudar a dar forma a esse objeto confuso e pouco propenso a substantivos do qual trata a tal Psicologia Social.

(Peguei isso aqui, no BarcoBebado)

Então, depois de ver o filme abaixo, o que diabos será que determina a ação e a escolha dessas crianças?

Olha, sinceramente, eu não faço a menor idéia. O que talvez, seja um bom começo…

pois o termo novo herdou todos os empecilhos e badulaques daquelas senhoras velhas.
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Published in: on 08/08/2010 at 01:52  Comments (3)  

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Eu ia justamente perguntar “O que não é Psicologia social”..mas vi que vc já introduziu essa pergunta de forma retórica. Então te pergunto “O que é psicologia? ” e “o que é sociologia? “. Uma existe sem a outra? O que se ganha ou se perde fazendo as mesmas perguntas de raça, gênero, etc., para um psicólogo não-social ou um sociólogo não-psi?

  2. Olá passei aqui de novo para avisar que o blog de psicologia antigo saiu do ar devido aos muitos acessos simultaneos, entao, estou aqui pra te avisar do novo blog: ==> http://psicologiaparatodos.orgfree.com/blogpsicologia

    não esqueça de visitar! Pode esquecer o outro endereço!

    Abraços!

    biel

  3. Gabi, isso mereceria uma reflexão mais longa sobre o significado mesmo das disciplinas, e ainda sobre as ciencias humanas de uma maneira geral. Porque acho que é disso que se trata. Na construção de uma disciplina cientifica alguns caminhos são tomados e se fortalecem e outros são esquecidos, ou pelo menos, tornam-se marginais. Por isso é importante salientar que falo aqui do Brasil, pois a história dessas disciplinas é bem diferente em outros lugares. Meu ponto é que muitas vezes a psicologia se fortaleceu considerando individuos como uma entidade singular, e se propôs a investiga-la como algo em si e não como processos e relações. Constituiu-se no mito da singularidade. Da mesma forma a sociologia historicamente caminhou para retirar do caminho a subjetividade como algo cientificamente de menor valor. Ficando com uma visão que privilegia as estruturas, os fatos sociais objetivos. A psicologia social se diferencia ao mostrar esses percursos. É evidente que outras areas tb fazem isso. Tanto sociologos, psicologos, geografos, filosofos, educadores, muitas vezes fazem o que chamo aqui de psicologia social. Aí para mim a psicologia social é um nome que designa muito mais um campo de saber no interior das ciencias humanas É isso que não se faz presente, pois o termos só é utilizado (no Brasil) pelos psicólogos.


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