Essa tal psicologia social #2 – Tempo e Experiência

No concluir da minha dissertação de mestrado um conceito  ganhou força súbita sem que eu tivesse total controle sobre isso. Não que o que o conceito representasse fosse estranho a mim, mas não havia, dentro da minha configuração téorica um lugar claramente definido para ele. O conceito de “experiência”, entendida como a emergência de uma relação entre a vida, a história (logo o tempo) e as relações sociais que cria uma sincronia,  uma singularização de tais relações num ser de sentido, o que podemos chamar de subjetividade.

Assim, a vida de uma pessoa se liga de forma orgânica a certos momentos histórico-sociais, estabelecendo perspectivas e sensibilidades através dessa relação do ser com o mundo. A “experiência” é assim um começo, a instauração de uma diferença nas relações, implicando  a dissolução/reconstituição de laços, pensamentos e sentimentos. “Sei que nada será como antes….amanhã”, cantaria Elis.

Minha dissertação se voltou para a ação política de jovens, mas mais do que  a questão do “jovem”, o que mais tem me colocado em alerta e me envolvido nos últimos meses é o foco na relação  que as pessoas estabelecem com o tempo. A sequência de momentos na vida. A lógica de sua passagem, o problema da vida cotidiana, o passado, a leitura sobre tudo isso. O que fazer com o passado, meu Deus? Não por outro motivo o filme “O Leitor” me capturou tanto. Como a história, seus grandes momentos são (foram) vividos no seu dia-a-dia? Interessante  e difícil o exercício de imaginar a vida na época da Guerra. Ainda mais na Alemanha, com o peso moral do nazismo.  As vezes pensamos que em época de guerra tudo  se resume a matar ou morrer. Isso também, mas há sempre aqueles que plantam e colhem, outros trabalham, outrou continuam a dar aulas, e provavelmente em algum canto se faz poemos de amor. Nas grandes guerras os soldados tiravam férias (isso sempre me pareceu muito louco). Enfim, a guerra não é o fim de nada, é mais uma parte das relações sociais (o que não significa que ela nao tenha um sentido específico na vida social). E isso vale também para o conjunto dos momentos históricos, não só para a guerra. O tempo é assim sempre um tempo social. Sua passagem e seu sentido dependem do conjunto de relações, o que certamente é uma obviedade.

A diferença na fruição do tempo ficou claro para mim numa situação um tanto banal que me ocorreu essa semana. Fui a uma escola particular da zona sul do Rio de Janeiro,para  lá divulgar um evento que estaríamos realizando dali a uma semana. Visitamos as salas do 9° ano do  ensino fundamental ao 3° ano do ensino médio. E quando saímos do 1° ano do ensino médio e fomos  falar com os alunos do 9° ano do fundamental, senti um choque enorme na diferença de aparência entre esses “meninos” . Como são diferentes… Como esse “ano” que passa parece algo importante, determinante na vida deles (foi o que vi). O que não percebi ao passar do 3° para o 2°, nem do 2° para o 1°. E nem acho que seja algo estritamente fisiológico, ou algo que o valha, é preciso perceber que por exemplo, nessa escola os alunos do ensino médio não usam uniforme e todos do ensino fundamental usam. Mas o que mais me chocou foi porque lembrei-me de como um ano na minha época de colégio significava tanto. Não por outro motivo tomar bomba era quase sinônimo de virar um grande nada no futuro, ou ainda nem mesmo ter futuro. O que é uma grande bobagem.

Como psicólogo social acredito que temos descuidado da relação que as pessoas tecem com o tempo, inconscientemente aderindo ao preceito popular, de que o tempo tem uma e única direção. O tempo vivido é a própria experiência. Não há tempo sem experiência. E nada disso pode ser entendido sem a imersão nas relações, o que mais do que algo de ordem puramente inteligível pela decodifição racional, implica uma relação constitutiva do ser das coisas. É preciso reconhecer, o papel fundamental que o tempo e as relações tecem com as pessoas e as coisas. Nada é o que é assim, sem mais.  Há um longo e perene processo de determinação das coisas. Fica o problema de entender mudanças e diferenças, senão só haveria repetição e permanência.

Enfim, não devíamos ter demitido Althusser, Foucault e outros estruturalistas, bastava tê-los rebaixado de posto.

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Published in: on 21/09/2010 at 11:41  Comments (1)  

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  1. Muito bom, Prós. Temas que queria explorar com vc em uma mesa de bar, seu lar. Agora com uma namorada historiadora e inglesa, o tema do tempo está sempre em debate. O tema da história no novo mundo, por exemplo. Também o artigo que lhe mandei hoje, evocando a long durée de Braudel, tem a ver com “É preciso reconhecer, o papel fundamental que o tempo e as relações tecem com as pessoas e as coisas. Nada é o que é assim, sem mais. Há um longo e perene processo de determinação das coisas. Fica o problema de entender mudanças e diferenças, senão só haveria repetição e permanência.” Abç!


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