Onde imperar a opressão, lá estaremos

Estamos a duas semanas da eleição do novo presidente do Brasil. Nos últimos dias ando num misto de angústia, excitação, alegria e raiva.

Tenho visto e sentido na fala de algumas figuras da mídia,  em conversas com amigos próximos e nas gozações que circulam pela internet um ódio violento dirigido a candidata do PT, Dilma. Um ódio do presidente Lula, esse ignorante; do PT e sua turma; um ódio dos programas sociais “esmola”; ódio da burrice do povo de pensamento turvado pela miséria que não enxerga a verdade, óbvia, à sua frente.  As últimas eleições nacionais apresentaram uma tendência, importante, de polarização social em torno da escolha dos candidatos. As regiões mais pobres do país votam no PT e as regiões mais ricas votam no PSDB. Foi assim em 2006 e provavelmente será da mesma forma agora. Como as grandes empresas de comunicações tem seu candidato, José Serra, elas tem jogado pesado na maneira de conduzir e leva a termo essas eleições. Assim, frente às denúncias de corrupção que aparecem nos dois lados, só  aquelas do lado petista merecem o foco e a  devida atenção. O que fica claro e evidente na abordagem dos casos Erenice Guerra por um lado e Paulo Preto por outro.

Meu envolvimento no debate eleitoral e na campanha pela Dilma começou no momento que entendi uma coisa bem simples, que não tem a ver com macroeconomia, índices sociais ou projetos bilionários. O que eu vi foi como o projeto Serra é o projeto de  manutenção do que há de pior no Brasil: a discriminação, o elitismo, a soberba de alguns e a  miséria de tantos.  Um projeto  feio, pesado, agressivo.  E é triste ver tantas pessoas que gosto dando suporte a esse projeto.

Foi a partir dessa percepção que parti para a campanha da Dilma com a minha vontade, minha lucidez, com o meu desejo, minha razão e loucura. Foi quando eu vi que há um país em jogo, e que esta é a boa briga, que marca nossa vida e nossa história. A Dilma ou o Serra não vão resolver todos os problemas do país,  não estamos falando de magia. Mas a candidatura de Dilma vai na direção de enfrentar desigualdades e opressões históricas, simbólicas e materiais. Traz no seu bojo uma palavra de liberdade, o desejo de um país justo. Campanhas, debates, comparações e estatísticas são importantes para pensar e decidir o voto. Mas o fundamental é entender os projetos distintos de sociedade que estão em jogo e se posicionar frente a isso. A pergunta que cada um de nós deve se fazer agora, é: Que país a gente quer ser? Que tipo de sociedade queremos para os nossos filhos, nossos sobrinhos e netos?

De tudo o que aconteceu de importante no governo Lula o que mais me marcou foi uma coisa que alguns vão achar bobagem, enquanto outros vão ver nisso uma fraqueza e não uma força. A coisa mais bonita que vi foi a ação do Lula durante o momento mais agudo da crise da Petrobras com a Bolívia. Em determinado momento, num evento público, Lula disse algumas palavras sobre isso. Ele disse que algumas pessoas no Brasil queriam que ele invadisse a Bolívia, declarasse guerra a esse país incivilizado e fizesse valer os direitos econômicos da empresa brasileira. Se ele não  fosse “enérgico” ficaria claro para todo o mundo que o presidente era um banana, um fraco. Ele deveria mostrar “autoridade”. Nossa empresa estava sendo roubada e o nosso presidente tinha que fazer alguma coisa. E ele fez. Lula falou em alto e bom tom que o povo boliviano é um povo sofrido, um povo pobre que morre de frio porque não consegue pagar pelo gás. E que os bolivianos são nossos irmãos latinos, portanto, ele não iria fazer como os belicistas norte-americanos e entrar  em guerra com a Bolívia. Ele disse que acredita sempre no poder do diálogo e, por essa razão, iria chamar o Evo Morales para discutir. Lula falou isso num momento agudo de uma forma tão bonita e forte. Os acordos foram revistos tempos depois, provavelmente a Petrobras “perdeu” dinheiro. Há algo além de lucro e de dinheiro. (o que a direita nunca vai entender). Há de reconhecer a opressão e a desigualdade e há de se lutar contra isso, sempre, seja onde for. Na vida sempre se perde, que seja dinheiro então, e não a vida, a honra, a esperança ou a alegria.

Sinto que o momento é grave. É o momento de escolher um país. Mas não há nada de difícil nessa escolha. Difícil é viver na miséria, na dor do silêncio, da dominação. Esses dias fui capturado pela beleza e força da música “A louca” de Maurício Tapajós, com letra de Aldir Blanc e interpretação de Cristina Santos. E é através dessa música que gostaria de expressar o que ando sentindo nos últimos dias.

“pouca gente entende essa verdade

onde quer que impere a maldade

loucura pouca é bobagem

(…)

Enquanto o mal tiver razão e for normal a opressão

com lucidez hei de bancar a louca…”

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Published in: on 16/10/2010 at 22:51  Comments (7)  

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7 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Querido Rafael, obrigada pelo texto.

  2. Livia, valeu pelo carinho costumeiro!..Bjo!

  3. é meu companheiro! que se for para perder alguma coisa que não seja a vida, os direitos democráticos que com a campanha de Serra começam a ser colocados em risco, devido aos fundamentalismos que esta campanha vem incentivando.
    Continuemos em luta! Continuemos na busca de utopias, ainda que para alguns seja loucura!

  4. Continuem em busca de utopias! Quem vai pagar vão ser os netinhos pobres desses pobres que vocês acham que estão deixando de ser pobres.

    Enquanto isso o Chile, a Irlanda, a Espanha, Cingapura, Coréia do Sul, México crescem, desenvolvem e principalmente, independente dessa babaquice de esquerdismos ou conservadorismos, crescem com responsabilidade. Nesses lugares, só uma guerra ou desastre deixaria os pobres mais pobres. E aqui?

  5. Igor, gostei das suas críticas e queria saber mais sobre a sua posição. Tenho sentido falta de boas discussões sobre o estado de coisas dessas eleições.
    Mas é claro que discordo de suas afirmações. Primeiro, não se trata de utopia e sim de uma visão de política e de estado para além das demarcações liberais, de que o estado deve tratar unica e exclusivamente de questões sócio-economicas, de base, e deixar o resto com o mercado.
    Então minha visão dessa eleição não é utópica, até pq qualquer projeto que tenha PMDB no meio deixa automaticamente de ser utópico. O projeto Dilma é um projeto, como o do Lula, repleto de contradições. Agora do outro lado a gente tem a clareza da mão dura e pesada da direita. É só pegar as declarações do Indio da Costa de que o Pronasci é a Bolsa-bandido, e outras declarações contra direitos dos homossexuais. E também a maneira como o Serra encaminha as discussões em relação a Bolívia, como se ajudasse muito falar que é terrorista, traficante, ou o que seja. E eu me sinto um tanto emotivo com essas eleições devido ao preconceito sim que claramente é a base de muitos dos eleitores do Serra, coisa que me dá calafrio, por mais que sinto necessário aparecer.
    Segundo, você é o especialista aqui em administração pública, eu to longe disso. Mas pelo que vimos Irlando e Espanha (dois dos países que vc falou) ficaram e ainda estão numa situação ruim economicamente depois da crise de 2008, não? Não sei como estão nesse momento, mas lembro que foram dois países que sentiram o baque. Eu estava na Irlanda no início do ano e a perspectiva lá não era nada boa.
    é isso,
    um abraço,
    rafael

  6. Muito bão! Gostei particularmente da frase “Há algo além de lucro e de dinheiro (o que a direita nunca vai entender).” Valeu, []s!

  7. Um texto delicado e firme num momento tão agudo. Sinto o quão verdadeiro é esse texto. Se alguém quiser conhecer o Rafael Prosdocimi Bacelar, ei-lo aqui!


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