Ainda temos Chico Buarque de Hollanda

“Vim reiterar meu apoio a essa mulher de fibra (Dilma), que já passou por tudo, e não tem medo de nada. Vai herdar um governo que não corteja os poderosos de sempre. O Brasil é um país que é ouvido em toda parte porque fala de igual para igual com todos. Não fala fino com Washington, nem fala grosso com a Bolívia e o Paraguai”. (Chico Buarque)

Depois da declaração do Chico ontem, lembrei-me de um texto do Vinicius de Moraes escrito para o cronista e compositor Antonio Maria, amigo intimo do poetinha. O texto é delicioso, mas os dois últimos parágrafos são de arrepiar.

É preciso ouvir o poeta.

Oração Para Antônio Maria, Pecador e Mártir
– de Vinícius de Moraes- 1968

Nós saíamos os dois do Vogue, e depois de deixar Aracy no táxi que a levava ao seu subúrbio, seguíamos de carro até o Leblon, às vezes acompanhando a matilha madrugadora de vira-latas a transitar entre as calçadas do Jardim de Alá; havia sempre um que parava para fazer pipi, o que provocava o reflexo dos outros, e era aquela mijação feliz – que eu nunca vi raça de bicho mais contente da vida que vira-lata carioca ao nascer do sol. Parecia, mal comparando, uma fileira de lingüíças semoventes, uma a cheirar o rabinho da outra.
Você ria uma grande gargalhada, contente com o seu Cadillac velho, com a explosão da aurora no mar, com os vira-latas transeuntes e com seu novo amigo e poeta. E depois de passar pela casa de Caymmi, para ver se o baiano ainda relentava a noite, acabávamos nos Pescadores, enfrentando um filé com fritas, ou uns ovos com presunto, os melhores de Copacabana, porque eram feitos para a nossa grande fome. O pão era fresco, a cerveja bem gelada. Depois você me deixava em casa, eu dilacerado de saudades de tudo: de você, das conversas na boate amiga, onde dois barões, Von Schiller e Von Stuckart, disputavam em carinho e gentileza. E sobretudo da mulher amada ainda não tida. Você, maciste ao volante, cantava a marcha que tinha feito para a minha infinita dor-de-corno:

É muito Tarde para esperar por ela
Ela não vem ouvir a tua voz
Esquece, amigo, porque a vida é bela
A noite é grande e cabe a todos nós…

Um elo forte e viril se fizera entre nossas almas, e nós passamos a ser imprescindíveis um ao outro. A noite  – que esperança! – não era grande, era pequena para a nossa gula de vivê-la em toda a sua plenitude. Tudo passava tão rápido, nós olhávamos as moças dançando. Aracy cantava, surgia a figura amiga de Fernando Ferreira, de repente a porta da boate deixava filtrar a luz da manhã. “Ele”, como dizia Américo Marques da Costa, tinha despontado. Mais um dia, mais uma morte. Muitas mortes morremos nós, meu Maria, antes que a sua acontecesse para deixar-me mais só vivendo as minhas.
Tantos já se foram, atraídos pela Grande Noite… Evaldo Rui, Bicudo, Stuckart, Waldemarzinho, Louis Cole, Alzirinha, Mauro, Dolores, Ozorinho, Ismael Filho, Ari… Mas em compensação aí estão Paulinho Soledade, Carlos Niemeyer, respirando por um fole só, mas cada dia fazendo mais viração; Verinha, esse amor de Verinha, uma graça total; a nossa boa Araça, rainha das vagotônicas, e o querido Rinaldinho, que neste particular nada lhe fica a dever, ele e sua gargalhada que o rádio silenciou. E de vez em quando ainda acontece uma grávida, em geral moça do Norte. Porque a verdade, meu Maria, é que depois da pílula, moça carioca quase não muda de silhueta.
Às Vezes eu fico pensando. Não sei se você gostaria de estar vivo agora, meu Maria, depois de 1964. Tudo piorou muito, o governo, o meu caráter, a música. Agora só se faz música para Festival e perdeu-se aquela criatividade boa e gratuita da década de 50. Todo mundo faz música com objetivo: comprar apartamento, ter um carrinho, ganhar popularidade, dobrar o cachê, vencer Festival, namorar as moças, bater papo furado. Isso não quer dizer que os caras sejam ótimos compositores: eles o são. Mas tudo é feito com espírito muito toma-lá-dá-cá, cada-um-por-si-e-Deus-por-todos. Assim, a meu ver, perde a graça. Aliás, não é culpa deles, em absoluto. É “o esquema”, como está na moda falar. Eles têm que estar na onda, senão não tem apartamento, não tem carro, não tem cachê, não tem Festival, o papo micha e as moças não dão. Ficam, por assim dizer, marginalizados, e aí nem o Globo nem a Record querem nada com os infelizes. Em resumo, meu Maria, não se perdeu a música; perdeu-se a sua dignidade.
Mas por um motivo eu sei que você gostaria de estar vivo: as moças. Elas estão, meu Maria, cada dia mais lindas e esportivas, havendo mesmo uns espécimes de se espetar na parede com alfinete. E acho que você iria gostar do Antônio’s, um restaurante novo do Leblon onde todo mundo vai, e tem de certo modo o espírito do velho Maxim’s dos anos 51/53.
De vivo mesmo, meu bom Maria, há Oscar Niemeyer e Di Cavalcanti, certamente os dois maiores homens do atual Brasil. Di está, nos seus setenta, a coisa mais jovem, trêfega, inteligente e lírica do mundo, pintando cada dia mais lindo e batendo o melhor papo da República. E Oscar então, desse nem se fala. Elevou-se muito acima de todos, pelo gênio, pela consciência política, pela compreensão humana, pela simplicidade autêntica.
E há os estudantes. Estão maravilhosos, e dando lição de cultura aos pais e professores. Saem à rua como um fogo que se alastra, fazendo comícios relâmpagos, topando as paradas com a polícia e conseguindo unir todas as camadas da população, com exceção dos milicos. Outro dia nós saímos em passeata cívica, e éramos 100 mil na Avenida Rio Branco: estudantes, intelectuais, clero, donas de casa, protegidos por um extraordinário esquema de segurança bolado pelos próprios garotos. Uma beleza. Se alguma coisa de bom tem que sair deste país, vai ser à base do novo movimento estudantil.
E, naturalmente, Chico Buarque de Hollanda

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Published in: on 19/10/2010 at 15:04  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Ir pra Amazônia tem muita coisa boa, mas sentimos falta dos amigos que ficam. Ó sentimento trágico! Por que não podemos ter o melhor de dois mundos?

    O Vinícius pode até ser “o cara”, mas o Niemeyer não. O cara não gosta de árvores, já percebeu? Toda obra dele a primeira coisa a fazerem é limpar tudo, e depois replantar com umas plantinhas rasteiras… Síndrome de europeu com medo de índio, isso sim.

  2. Hehe… Nesse momento achei importante a fala do Chico, onde via uma diferença crucial da candidatura de Dilma x Serra, no trato das questões externas. O Niemeyer é um louco né, porque é muito contraditório. Brasília é uma contradição, mas quando a ausência de árvores pode ser coisa do Lucio Costa tb que fez uma metrópole americana no coração do cerrado…


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