Te disco toda #1 – Um novo samba?

Eu era daqueles que via num disco nada além de um aglomerado de músicas. Daqueles que preferem colher uma música aqui e outra versão ali, catando-as como quem pega fruta no pé, antes da estação. Segue-se cuidadoso procurando no disco somente aquela bela música desejada, lá no alto do pé. E quando outras músicas vêm junto joga-se de lado com desinteresse. Música verde.

Há algum tempo escutei[1] uma banda tocando a linda “Serrado”, do Djavan, num bar de Belo Horizonte. Fiquei com a fruta na cabeça e saí a sua cata nos pomares da net. Lembro que baixei vários discos do compositor sem obter sucesso. Em determinado momento achei o bendito disco e quietei-me a escutar freneticamente a bela canção. E qual seria o disco? Não lembro… E alguma outra música do disco? Nada disso. Ponto final e corta.

Mas alguma coisa aconteceu e subitamente virei uma pessoa de disco. Nem bem sei quando nem como isso se deu. Suspeito que tenha algo a ver com a compra de um toca fitas, novo, porém já uma velharia nos idos de 2004 que adquiri para colocar no carro. A época era de assaltos rotineiros aos aparelhos de CD, aqueles com frente removível[2]. Por conta disso resolvi colocar um toca fita no carro e ouvir rádio. Quem teria fitas K7, quem ainda gravaria fitas em 2004? Certo dia, fui almoçar na casa do namorado de minha mãe e de lá saí feliz com duas fitas bem antigas. A primeira era o belo disco “Meus caros amigos” do Chico, de 76. A fita tinha de um lado “Mulheres de Atenas”, “Você vai me seguir” e do outro, “Corrente” e a lindíssima e tristíssima “Basta um dia[3]. O outro disco era o maravilhoso Toquinho/Vinícius de 75. “Turbilhão”, “Acorde solto no ar”, “Meu pranto rolou”, a preferida “Se ela quisesse” e por fim a também belíssima e tristíssima “Um homem chamado Alfredo”. E aí só dava Chico, toquinho e vinícius no carro e na vida. As músicas dançavam ao ritmo dos solavancos, e coloriam as feias esquinas da avenida Antônio Carlos, no meu caminho diário para a FAFICH[4]. Quantas vezes, não dei mais uma volta no quarteirão, antes de chegar em casa, só para ouvir “Adeus” ou então “A noiva da cidade”. Uma fita… O lado acabava, virava de lado, virava de outro…

“Se ela tivesse a coragem de morrer de amor

Se não soubesse que a paixão traz sempre muita dor

Se ela me desse toda a devoção da vida

Num só instante, sem momento de partida”

A partir daí comecei a entender que um disco é um disco e não um punhado de músicas.

A memória anda fogo, porque também não lembro quando me atentei para a beleza e a completude do disco “Um novo samba” do Benito de Paula. Só conhecia o compositor pelo samba-lava-a-alma “Retalhos de Cetim”, e pela canção-piada, “Meu amigo Charlie Brown”, sendo que nunca entendi a graça desta. Portanto, eu não era por princípio ético-estético um partidário do Sr. De Paula. Nada disso. Foi por arrebatamento mesmo que virei a casaca.

O disco é uma obra. No sentido pleno da palavra. “Tudo está no seu lugar”. O disco é triste, tem um “molejo de amor machucado”, é pesado e profundo, mas com alguns sambas alegres marcando o compasso.  Começa pela triste e fundamental “Se não for Amor”: “Você me olha desse jeito/ meus direitos e defeitos / querem se modificar…”.  A música é dessas pra voltar cantarolando, bêbado e sozinho pela rua, triste e cerrado na beleza e na magnitude de coisas profundas e bestas, como sorriso de mulher ou lágrima de amigo. Tem esse lema fundamental: “Mas se não for amor, não diga nada, poor favor…”. A segunda faixa é talvez o único exemplar conhecido do gênero samba-épico. O “samba do profeta” tem coro, e começa com um potente: “Eu vi…”. A canção segue entre acordes de cavaco e metafísica. Não precisa falar mais nada. Coisa linda.

A terceira canção entra em ressonância com o nosso cansaço cotidiano e suas possibilidades de emancipação. A cerveja, o samba, a morena. Do batente pro batuque como canta Edu Lobo. Tem um ritmo gostoso e diz: “Eu passei a noite inteira lhe admirando/ Fui sambando, fui chegando e você me amando / Você foi tomando conta do meu coração”. A música põe em relevo, tanto na melodia quanto na letra, essa associação entre a banalidade da vida, a chateação rotineira e o lirismo do encontro. A próxima música é também triste e lenta, talvez seja esse o tom do disco. A desilusão, o desencontro, essa vida que não é e que espera para acontecer. “Quando tudo mudar”.

A quinta faixa, “Certeza de você voltar” é uma das minhas favoritas. Marca esse ponto entre o desânimo e a alegria besta, que não vai nem fica. “Foi você na madrugada que chegou sem dizer nada / Que sorriu para mim notar/ conversamos simplesmente/ foi aí que de repente/ despertei para dar amor/ e passamos tanto tempo / nos olhando e até por dentro sem falar eu dediquei / amor a você/ tudo… e a noite foi passando / você se distanciando / bem pra trás fiquei no amor / não faz mal, valeu o instante/ e a certeza de você voltar (…)”. E os puristas babam de raiva com esse “mim notar”… Mim não faz nada diria uma antiga professora. Mal sabe ela que “mim” fez um samba lindo e singelo. No meio do disco temos a descontraída “Que beleza”, que como “Mulher brasileira”, segue num fraseado simples, divertido e banal. A faixa quebra o clima arrastado que se seguia. A próxima é “Sandália de couro” das mais sem graças do disco. Nada demais, nem de menos. A canção fala mais uma vez do amor, enquanto apresenta as belezas de Salvador.

A oitava faixa volta a cantar com tristeza a paixão impossível, ou melhor, o que existe “Depois do amor.” Canta Benito: “Quarto frio… janela escancarada, pra mostrar desarrumado/ tudo o que nós consumimos, resto do mais puro amor / E agora, mais distantes do que antes, nem amigos, nem amantes / sem conceito e sem respeito, demos fim no nosso amor”. Pausa… Essa é de chorar… Linda. E ela que começa lenta, subitamente cresce: “…e de repente loucos, perdidos sem nada a nos dizer / nós demos fim no amor, num grito a dor calou…/ de nós pouco restou”. E aí entra um fraseado de tango pontuando a dor e o drama da canção. A próxima música, “Agradecimento” é leve e otimista. É a canção de devoção a companhia perene e segura do amor. “Hoje eu sou feliz / você me ajuda a lutar e vencer”. A décima canção segue o roteiro do encontro possível. A música, “Ela veio do lado de lá” faz dupla com a terceira faixa “Fui sambando, fui chegando”.

Para finalizar o disco Benito de Paula nos convida a celebrar a dor da promessa quebrada, de um passo no carnaval e uma companhia na vida, daquela que não vai mais desfilar para você. “Mas chegou… O carnaval, e ela não desfilou / eu chorei na avenida, eu chorei…/ Não pensei que mentia a cabrocha que eu tanto amei…”. Nem eu Benito, nem eu. E assim a gente fica por aí, não mais envoltos em retalhos de cetim, mas em retalhos da gente mesmo. Cansados desse amor impossível, do olhar que nos segue no samba que vem do lado de lá e vai embora. Se o compositor tem certeza dela voltar, a gente não, a gente nunca sabe.

Para baixar: (http://umquetenha.org/uqt/?p=2315)


[1] Sujeito muito mais oculto do que pode parecer.

[2] É estranho como 2004 ficou parecendo 1993.

[3] Gosto mais da versão do Chico do que da Clara Nunes.

[4] Nunca entendi a implicância da Elisa com a música “Meu pranto rolou”. Ela cismava com a métrica da estrofe, “Meu pranto rolou / mais do que água na cachoeira / depois que ela me abandonou”.

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Published in: on 26/10/2010 at 11:17  Comments (4)  

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4 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Braguistíssima crônica, salve-salve! (Principalmente antes da parte onde começar a virar anúncio comercial benitodepauleano.) 😉 Massa a parada de dar uma voltinha a mais pra escutar outra música no K7 do carango, música verde, Chico, fafich, antônio carlos, vários insights líricos == massa!
    Mas verdade seja dita: porra, o “dark side” já tinha nos tornado discófilos há muito tempo, não? Ou vc renega sua origem rock ‘n roll? 😛

  2. é justamente o meu pavor daquele butãosinho “random” nos tocadores de cd ou mp3. Sempre te disse, né rafa..”deixe o disco rolar!” uma musica segue a outra e naqueles segundos de silêncio que seguem o ultimo acorde de uma música, ouvimos dentro da cabeça os primeiros acordes da próxima música…como um anúncio da sua chegada…
    Mas o engraçado é que disco é disco não somente que vem pronto. Tem um cd que vc fez para mim “Músicas belas e tristes em Portugues”…esse disco é tão disco quanto qualquer disco do Benito de Paula. Quando termina “Amora”, já espero “Gota d’água”…Como uma sinfonia é feita de movimentos e cada movimento não faz sentido fora do contexto da sinfonia…há algumas músicas que não existem plenamente fora do contexto
    de um todo..por isso precisamos dar aquela volta extra no quarteirão…

  3. Tava lendo o post e pensando: aposto q vai chegar a hora daquela musiquinha arrastada… rsrs

    Eu sei que vc nunca entendeu, e a maioria das implicâncias são mesmo inexplicáveis, mas curiosamente agora a música virou do avesso e é uma ótima lembrança daquela época(1993?)!

    Um beijo grande, meu querido!

  4. Chico, tenho que confessar que estou mais uma vez completamente envolvido com o nosso Rubem. A Gabi me deu de aniversário a biografia dele e já lamento muito que ela está a terminar. Coisa linda desse mundo. A vida do Braga é ainda melhor que suas crônicas, por incrível que pareça. Na verdade eu concordo demais contigo, dark side seria a primeira, caso o elemento cronológico de algo importasse.
    Elisa, beibe…acho que agora a ladainha é essa minha da lembrar desse fato, nem é mais a métrica da música, o que importa, hehe…
    Gata, vc me proviu de uma formulação elegante para essa questão do disco…O problema é que tem que gostar de música mesmo pra gostar de silência, e eu gosto mesmo é de palavra, música é palavra cantada pra mim, a música é quase um ruído, hehe…Fico feliz que esse disco tenha te marcado tanto… Um beijo com muito amor!
    rafa


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