Ler é um negócio muito perigoso

Isso começou há alguns anos, num início de tarde qualquer, quando voltava para casa da UFMG. Saí da FAFICH a caminho da avenida Antônio Carlos onde pegaria o meu ônibus (o famoso 2004). No caminho parei na biblioteca da Faculdade de Letras para pegar um livro do Rubem Braga. Eu já acreditava, como continuo acreditando, que a vida é uma missão, e naquele momento  uma de minhas missões consistia em ler todos os livros do velho Braga. Algum tempo depois ficou só uma tristeza, alguma coisa de fracasso e desânimo, quando descobri que Rubem teria escrito mais de 15.000 crônicas, e pouco mais de  quinhentas haviam sido publicadas em livro. Aí desisti do projeto, pois a cada crônica lida pensaria nas 29 que ficaram perdidas no tempo, mortas na história. Pensaria nesses filhos abortados. Um asno, esse Rafael. Não sabia ainda que a obra do escritor está toda contida numa única crônica, qualquer uma. Qualquer crônica de Rubem Braga contém tudo o que o mestre escreveu (Arrisco a dizer que é isso que define o gênio, um traço reflete seu mundo. Drummond diz exatamente isso quando escreveu que “difícil não é fazer mil gols como Pele. Difícil é fazer um gol como Pele”).

Bom, voltando a história. Subi no ônibus e com água na boca passei a folhear o livro, “O Homem Rouco”. E aí, já na primeira crônica , “Sobre o amor, etc.”,  li as seguintes palavras:

“Dizem que o mundo está cada dia menor.

É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. (…) Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremisível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.

Chamem de louco e tolo ao apaixonado que sente ciúmes quando ouve sua amada dizer que na véspera de tarde o céu estava uma coisa lindíssima, com mil pequenas nuvens de leve púrpura sobre um azul de sonho. Se ela diz ‘nunca vi um céu tão bonito assim’ estará dando, certamente, sua impressão de momento; há centenas de céus extraordinários e esquecemos da maneira mais torpe os mais fantásticos crepúsculos que nos emocionaram. Ele porém, na véspera, estava dentro de uma sala qualquer e não viu céu nenhum. Se acaso tivesse chegado à janela e visto, agora seria feliz em saber que em outro ponto da cidade ela também vira. Mas isso não aconteceu, e ele tem ciúmes.”

Frente a esses versos fechei o livro. Senti uma coisa estranha, pois isso era muito bonito para ler assim, distraidamente, dentro de um ônibus quente e barulhento. Isso me aconteceu mais algumas vezes, a vida insistindo em aparecer no meio de letras.  Lembro que nesse dia, com cuidado, guardei o livro na mochila e deixei um sorriso de retardado no rosto pelo resto da viagem.

Outro dia na rodoviária do Rio de Janeiro fui invadido mais uma vez por esse sentimento, ao ler um complicado Henri Bergson:

Ora, o que não faz nada não é nada. No entanto, eu me dizia, o tempo é algo. Então ele age. O que poderia ele fazer? O simples bom senso respondia: o tempo é aquilo que impede que tudo seja dado de um só golpe. Ele retarda ou, melhor, ele é retardamento. Ele deve portanto ser elaboração.Não seria ele então veículo de criação e de escolha? A existência do tempo não provaria que há indeterminação nas coisas?”

Senti coisas poderosas, o trecho na hora entrou em ressonância com frases,  com músicas e filosofias. Na hora lembrei-me da música “Se ela quisesse” de Vinicius e Toquinho, que diz: “Que o tempo insiste, porque existe um tempo que há de vir…”. Na rodoviária, ao ler o trecho de Bergson acima, parei e mais uma vez guardei o livro. Era preciso parar e pensar sobre isso… Como tem sido dificil perceber o que é importante nesse mar de informações que nos arrasta e acaba com nossas retinas. Precisamos ler melhor e não mais. Porque ler não é brincadeira. É viver.

E viver, como diria o poeta, é muito perigoso.

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Published in: on 08/11/2010 at 10:07  Comments (5)  

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5 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Taquepariu! Eu tenho que entrar mais aqui. Eu venho e você me joga isso na cara? Não é possível! E o tempo, que se fazia um rochedo, se desmancha num rio. O perene se torna perecível, o imutável, mutável. Muito obrigado mais uma vez meu bom amigo.

    PS: E o meu inconsciente me traindo: Eu li “lar” é um lugar muito perigoso.

  2. Que beleza! Muito bem, achei delicado e incisivo, ao mesmo tempo!

  3. Excelente! Me fez lembrar da época que eu tava na Inglaterra lendo o “Assim falou Zaratustra” e tendo essas sensações onibusescas também. []s!

  4. Nunca leia todos os textos do seu autor preferido. Guarde alguns para a velhice! 😉

    Agora, o Bergson pensou e escreveu tanto para concluir que “há indeterminação nas coisas”? Cada vez mais concluo que os filósofos (em geral) ganham a vida para encher estantes. Mais sábios acho os índios que não escrevem mas sabem das coisas. Ao invés de construir mais e mais prateleiras, jogam fora e reciclam o que é supérfluo.

    Abraço!

  5. Pô Rodrigo, aí você apelou, hehe…Jogou fora toda filosofia ocidental… Mas isso de deixar livros para depois é muito bacana. Mas talvez o bom mesmo é saber que os grandes escritores e seus livros maravilhosos são sempre inéditos mesmo quando relidos.


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