RB e as mulheres #2

Essa é de uma outra carta do mestre Rubem Braga ao poeta Manuel Bandeira. Ele começa  a carta canalha e termina lírico, inversamente ao que em geral fazem os homens com seus amores.

“Pretendo desde rapazinho escrever uma longa coisa que nunca tive coragem de escrever a respeito da beleza das mulheres. Atrapalhadamente minha tese é isso: uma repulsa por tudo o que o cristianismo fez com as mulheres bonitas. Minha tese era declarar pateticamente a benemerência pública e universal da mulher bonita, pelo bem enorme, inapreciável que ela faz. Sustentaria essa tese com argumentos e evidências de toda espécie, inclusive esse de que na vida diária, na rua, a visão de uma mulher bonita desconhecida, a simples e passageira visão que ela nos oferece nos faz um bem tão grande e tão grátis que é um absurdo feroz não conceder a uma pessoa assim todas as espécies de privilégios neste mundo e no outro. Já me aconteceu estar desesperado, atormentado com problemas às vezes (não estou dramatizando, você pode acreditar) bem cruéis, duros, urgentes, insolúveis e nesse estado a simples visão de uma mulher bonita me dar um ânimo tão grande, um perdão tão completo para toda a estupidez da vida que em certa época eu talvez tivesse me matado se não fosse isso. Agora que estou pacato, com problemas menos horríveis e prementes, em geral apenas crônicos, com crises de agudez suportáveis, tenho tempo para pensar nesse benemerência que estupidamente o cristianismo desconhece. A mais boa mulher feia não pode fazer tanto bem como a mais ruim mulher bonita. Não é humano, mas sim desumano querer dar uma espécie de preferência moral à mulher feia, como faz o cristianismo, que sempre está em guarda contra a beleza (…) Você deve estar chateado e rindo dessa minha dissertação confusa sobre mulher bonita, mas o que eu queria dizer é que experimento pelos poetas como você uma gratidão semelhante. Quanta gente você não ajuda, não enriquece com a sua simples poesia. Que bem faz! Digo por mim, que lhe devo mil coisas, mil serviços íntimos” (Carta a Manuel Bandeira, , Livro: Rubem Braga – Um cigano fazendeiro do ar, p.298-9 )

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Published in: on 20/01/2011 at 16:36  Comments (1)  

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  1. “Já me aconteceu estar desesperado, atormentado com problemas às vezes (não estou dramatizando, você pode acreditar) bem cruéis, duros, urgentes, insolúveis e nesse estado a simples visão de uma mulher bonita me dar um ânimo tão grande, um perdão tão completo para toda a estupidez da vida que em certa época eu talvez tivesse me matado se não fosse isso”

    Brigado seu Rubem! É isso, e se não é isso, deveria ser.


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