Notas doutorais #1

 

Após um ano de início do meu doutorado, só agora sinto que começo a trabalhar em minha tese. O aprendizado, a experiência no mestrado, concluído também a coisa de um ano me mostrou muitos dos problemas que carrego comigo e que preciso enfrentar. Aquilo tudo que esperava de mim e que não aconteceu, veio pedir o troco. Veio mobilizando meus nervos, meus dedos, deixando minha retina inquieta. Essa distância entre “expectativa e experiência” como diz o historiador Koselleck, marca certa virada subjetiva que vejo entre a dissertação e a tese. Explico daqui a pouco isso aí. No mestrado vivi certo estado de alienação. Alienação, palavra difícil. Sempre me lembro de uma seleção para professor no departamento de psicologia da UFMG, na qual uma candidata abusava do termo ao dar a aula, como parte do processo. Toda hora aparecia a tal da “alienação”. Depois da aula, um professor da banca pergunta, “Mas o que você entende por alienação?” E a moça restou agitada em peripécias gestuais. Nós ficamos sem resposta. A pergunta foi essencial, simples, precisa. É preciso saber do quê se fala, de que o espaço comum da palavra, do boteco, do blog, da vida, é diferente sim do conceito, do pensamento filosófico, do fazer científico. É preciso manter o lugar da autoria e o cuidado com a definição. A candidata poderia recorrer ao que quer que fosse para explicar o que entendia por alienação. Se me bem me lembro, alienação em Marx tem sentidos diferentes, dos quais destaco dois que são ligados entre si. O trabalhador está alienado do seu trabalho, pois não toma parte nos resultados deste. A burguesia ao dividir o trabalho em atividades fragmentadas impossibilita que se restitua ao trabalhar o sentido da totalidade.  Num segundo sentido, a alienação é o estranhamento entre a atividade produtiva e a dimensão subjetiva, o que Marx chama nos Manuscritos, de estranhamento. O sujeito não se sente naquilo que faz, sua atividade não é parte de seu ser. Jacques Rancière, em sua tese de doutorado que virou o livro, “As noites dos Proletários”, traz o poema de um operário que exemplifica o segundo sentido. “Eu não tenho vocação para bater martelo”. A atividade é dissociada do sentido do ser humano, do ser eu, do ser. No mestrado vivi por vezes essa dissociação, quando via que meus propósitos se desencontravam daquilo que fazia. E aqui algo curioso e importante se mostra, pois estava alienado de mim mesmo em mim mesmo. Não batia martelo, ninguém me obrigava a fazer o que não queria. Caminhava como desejava. Escolhia meu percurso baseando-me nas minhas preocupações teóricas, nas possibilidades práticas do meu contexto, na minha percepção sobre as questões candentes do momento, buscando nessa costura instituir uma construção autoral. E aqui foi o erro, pois fiquei com essa visão dividida, levei a cabo este projeto fragmentado e nele me realizei, de certa forma. Ou seja, juntei o segundo sentido com o primeiro da alienação aqui de cima, realizei-me no fragmento. Em nenhum momento fiz um todo desses momentos. E a noite “convencia as paredes do quarto e dormia tranquilo”. Daí é claro que o trabalho ficou como um todo bastante irregular. Relendo-o vejo momentos interessantes, percursos e autores complexos bem talhados. Mas também me deparo com afirmações ingênuas e mal-pensadas que, certamente, minam o todo. O impressionante é que repensando no quê aconteceu, ao me deparar com a irregularidade da dissertação, ao invés de marcar posição no front fraco, fiz o contrário, reforcei ainda mais a parte boa. Enfim, questões para análise e para a tese.

A atividade acadêmica deve partir sempre de convicções, de movimentos afirmativos, ainda que estes se mostrem equivocados. O que importa é não manter as indecisões no caminho. A questão não é tanto ser categórico ou não, mas sim acreditar de todo o coração naquilo que se faz. Frente ás leituras de Ernesto Laclau, Jacques Rancière Chantal Mouffe, autores combativos que se equivalem na luta contra o poder hegemônico do capitalismo liberal, do consensualismo e da “ordem” tive eu também que me rebeler contra esses rebeldes. O termo contingência, que alarguei fazendo tudo caber, mostrava que eu não queria escolher um caminho, queria restar à sombra da encruzilhada, da angústia, mas ainda sim à sombra. Quando na verdade o trabalho do sujeito, como já me lembrava Aletta Norval é saber agir e decidir quando se chega a uma situação na qual “Eu não sei por onde ir”.

No doutorado sinto que tenho um problema de pesquisa que me agarra, que me mobiliza. E que me coloca contra dada versão e prática da psicologia social, que fiz minha, esse saber que parece às vezes tomar como “inimigo” a própria psicologia. Uma psicologia social que buscava se firmar no limbo das “grandes ciências humanas”, do qual a psicologia não teria parte, por ser demasiado burguesa, individualista e cientificista. Voltei-me contra essa convicção de que a psicologia social era mais do que a psicologia, e de que por puro acaso (ou melhor, contingência) estava eu no meio de psicólogos, psicólogas, na verdade. Agora quero afirmar a validade da vida subjetiva, do pensamento, do afeto, da singularidade doeu. O que não significa defender a psicologia clínica, pelamoderdedeus. Menos estreiteza… Pretendo encarar essa coisa da “subjetividade” na vida das pessoas, sem medo nem vergonha. Minha busca, que se inicia, é apreender como as pessoas ao se deparar com possibilidades e caminhos as reduzem a uma decisão, em específico a escolhas que jazem sobre o mundo público, sobre questões políticas. O que faz uma pessoa marcada por papéis múltiplos, pai, trabalhador e bicha, amigo e picareta, ou flamenguista escolher votar no PSDB, mudar-se para o Haiti, virar comuna, ou reciclar o lixo? O que este diz para si e para os outros sobre sua decisão? E o que isto tem a ver com a relação que nós estabelecemos com nós mesmos. Agora resolvi… Quero ouvir lorotas. Dessa que a gente usa para justificar a vida que a gente leva, que a gente busca para entender a gente mesmo, quando simplesmente, as coisas não têm muito sentido.

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Published in: on 14/02/2011 at 18:26  Comments (4)  

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4 ComentáriosDeixe um comentário

  1. hummm… soa tão familiar…
    a gente ainda não conversou direito depois da minha defesa, mas acho que muitos caminhos convergem.
    especialmente sobre a afirmação de uma prática/pesquisa NA psicologia. por que desautorizar nossas origens? é preciso digeri-las – especialmente numa pesquisa de doutorado. um pouco fica, um pouco se vai, mas fincamos pé num campo, nos apropriando dele. que sejamos nós, então, que nos apropriemos da psicologia: nós, que queremos pensá-la e que abrimos armários, baús e manuscritos escusos, para lançar luz em nossa própria história.
    afinal de contas, de que vale pensar a subjetividade (ou a juventude, a liberdade…) se não pensarmos de onde veio essa ideia, para quê, a que preço?
    #notasposdoutorais…
    hehehe

  2. Rafa, tá aí…você tem mais tempo e mais maturidade agora para desenvolver melhor suas perguntas, pensar melhor no problema. Mas acho muito bonito esse caminho que você tomou..acho fascinante, na verdade. Talvez porque suas indagações são para além de um doutorado, para além de uma tese. Sou uma pessoa que tem dificuldade com essa “metodologia” de vocês…no meio do caminho entre uma análise de caso e uma pesquisa estatística. Sei que é preconceito meu, afinal, da história de um único indivíduo com certeza se aprende algo sobre outro indivíduos. Enfim, estou curiosa para saber como se dará no final das contas essa sua pesquisa. Quais caminhos você acabará percorrendo ao longo desses 3 anos que restam de doutorado. É muito bonito ver seu discurso em relação à psicologia social e à sua pesquisa se transformando ao longo dos anos. Me faz pensar o tanto que nós das `ciências duras` somos estáticos na nossa forma de trabalhar. Somos uma máquina de produção de problemas e respostas, sempre partindo do mesmo método, sem refletir nos caminhos, sem tentar esgotar as perguntas…sim…sinto, principalmente agora, trabalhando no lab…sinto que estou me alienando. Sinto que minha vocação não é apertar parafuso, nem mesmo idealizar e construir uma montagem inteira, onde engrenagens e suportes e parafusos sejam meus objetos de trabalho.

  3. é meu amigo Rafa, dos percursos vamos tentando construir nossas ferramentas e alargar nossas possibilidades de compreensão do mundo… bom saber que pelas trilhas do mestrado tem se feito mais fecundo o problema do doutorado…
    e pelamordedeus mesmo, não é por se voltar à vida subjetiva que está a defender a psicologia clínica… afinal, por aí que caminham os sujeitos que nos incitam a pesquisar e a pensar a pesquisa…
    um grande abraço.

  4. Mana: è isso aí que tenho pensado mesmo. “a afirmação de uma prática/pesquisa NA psicologia. por que desautorizar nossas origens?” Ainda que no meu caso pessoal, como fui para a Psicologia Social desde o 3o período, minha filiação À Psicologia sempre foi um questionamento mesmo. Li muito mais Bobbio, Touraine, Melucci e Mouffe na graduação do quê Lacan, Piaget, por exemplo… E aí realmente pensei em fazer o mestrado na sociologia e migrar de vez…Como justificativa para isso eu via como alguns pesquisadores defendem que a psicologia social não é psicologia necessariamente. Ela pode muito bem ser uma derivação da sociologia ou da ciencia política. E eu já repeti essa frase aqui de cima uma milhão de vezes, e ainda acho que ela tem um sentido sim… É necessário pensar esses conflitos conceituais, as relações entre as áreas, epistemologias, metodologias, objetos de pesquisa. Tipo, o que significa pensar uma psicologia se a clínica é o momento principal da prática/pesquisa psicológica? Enfim, qual a diferença entre falar de sujeito partindo da filosofia social ou da psicologia?

    Gabi: Aí é que tá a questão. Eu não conseguiria mesmo me envolver com um problema que fosse externo a mim, que não fosse intimamente conectado ao meu dia-a-dia, não tenho esse poder de abstração e de desprendimento, por isso minhas “indagações são para além de um doutorado, para além de uma tese.” Em relação a metodologia o que tenho achado bonito é como é difícil trazer, por exemplo, as intimidades, as questões mais fortes da vida das pessoas, o que é um objeto do trabalho psicológico para a objetivação cientifica… Vejo como a dissertação da Julia mostra isso muito bem, quando vai discutir a relação de jovens com a adesão ao tratamento de HIV e a pesqusiadora tem que decidir o que fazer com o tanto de informações certamente centrais para o problema da adesão, mas que envolvem a exposição da vida sexual, afetiva, familiar de uma pessoa, sem achar que é só trocar o nome que tá tudo resolvido.
    Eu acho que como a ciência de vcs gosta da hegemonia, e se constói na negação do valor de verdade de todos os outros discursos, do poético, o religioso, etc. se considerando um sistema fechado é claro que esse sistema se torna mais estático. Mas de fato eu não sei se dá pra ser diferente não…Até pq eu tb me valho da diferença entre ciencia naturais x ciencias humanas para entender a minha atividade e “prefiro” que as coisas permaneçam como estão…hehehe

    Fred:Bom te ver por aqui meu caro, é também nos caminhos dos diálogos e discussões com vc que tenho alargado minha forma de compreender o mundo. Eu falei muito rápido do problema da clínica, da psicologia. Talvez isso mereça uma discussão mais aprofundada em outro espaço. O que começo a ver é que nossa psicologia social a partir de um part pris de negação tanto da clínica como momento da subjetividade, como o saber cientifico moderno como horizonte para nossa prática pesquisa, a psicologia acaba ficando enredada nessa divisão. Fico lembrando de umas discussões de manual, tipo “não há ciencia neutra”, e ainda que eu concorde demais com essa afirmação do poder da ciencia fico pensando que ela leva a discussão para a relação entre saber/poder mas nem tanto para a “construção do objeto” do conhecer. Enfim, não sei se dá pra entender o meu ponto, não nego a validade da psicologia critica combativa, mas ando pensando na necessidade de novos consensos na nossa área, assim como de outras brigas que poderiam instaurar horizontes mais profícuos do que ficar debatendo se a psicologia é social ou individual, por exemplo…


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