Notas Doutorais #2 – A poética contra-ataca o bla-bla-bla hegemônico

Quando li esse pequeno trecho abaixo de um livro delicioso de Marshall Sahlins vi aí, de forma sintética, não só a expressão de um problema antropo-lógico, mas uma questão central também para todas as ciências humanas. Incluída a psicologia social e política, área na qual me formo e na qual pretendo prosseguir. Sahlins denuncia, de forma provocativa e sempre bem-humorada, a redução do sentido da experiência humana às relações de poder na sociedade, a redução da poética a política. O texto sintetiza de forma brilhante o conjunto desta pequena obra que destilando veneno se chama: “Esperando Foucault, ainda”. O livro tem algo de um diário, no qual o antropólogo norte-americano escreve tanto coisas bestas como sérias, mas sempre de forma interessante, abrindo porta tanto para o riso tolo quanto para o pensamento científico. A preocupação do autor é contra-atacar as visões marxistas e funcionalistas infiltradas no pensar-fazer da antropologia contemporânea, preocupação que pode ser deslocadas para o conjunto das ciências humanas, como a psicologia. O autor apelida essa redução totalizante dos objetos e experiências humanas de “obssessão foucaulti-gramsci-nietzscheana”. A idéia de que toda relação social é uma relação de poder, atribuída ao trabalho de Foucault se alia ao poder totalizante da noção de “cultura” e “senso comum” como momentos da hegemonia, na obra de Gramsci. Há aí um quadro fechado na qual toda relação ou contribui para a manutenção do sistema de dominação ou, por outro lado, ativa a emancipação, a transformação política.

Eu não sei bem o que fazer com esse texto do Sahlins, nem sei se há algo a fazer, por assim dizer. Semana passada, voltei de uma defesa de mestrado na qual o autor se apropriava da lógica marxista ortodoxa para analisar a sociedade. Marxismo ortodoxo em poucas linhas: centralidade da economia e do trabalho na vida humana; diluição de qualquer diferença social à dicotomia burguesia x proletariado que tudo hierarquiza, e que implica a compreensão estática de identidades e discursos fixados pela estrutura econômica; e por fim a idéia teleológica de uma redenção comunista como ideal motor das ações e práticas presentes. Ora, a impressão que me dá esse tipo de perspectiva é que não resta nada a se entender. Talvez o autor desta dissertação que fui ver assim como outros marxistas hardcores, valham-se da bela máxima de Marx, de que a filosofia se ocupou de entender o mundo e agora deve se preocupar em mudá-lo. Para este pobre euzinho que vos fala, tenho de lhes dizer que o caráter totalizador das categorias políticas, a busca de afetos e pensamentos, traços de lógicas de dominação e de igualdade em aspectos banais do cotidiano é coisa que bem aprecio. No entanto, não posso deixar de me render à crítica de Sahlins. A minha impressão é que partindo deste marxismo não se muda politicamente nada, e nem se compreende coisa alguma. As palavras de Sahlins, coligidas aqui embaixo, me dizem que é preciso deixar falar, deixar ser, é preciso restituir lugar para o singular sem reduzi-lo a funcionalidade, sem negar o sentido diferencial das coisas absorvendo-as apenas aquilo de genérico, funcional. Com picardia Hannah Arendt nos conta uma anedota que ajuda a exemplificar este ponto. Num texto que não me lembro qual ela critica aqueles que traçavam uma analogia entre a religião e o comunismo soviético, pelo fato do sistema estalinista também se basear na censura, impedir a reflexão e apostar na fé e na redenção final como fundamento de justificação. Arendt então nos diz que ela, como muitas mulheres, utiliza o seu salto para bater em pregos quando há de se colocar algum quadro na parede, mas nem por isso confunde o seu sapato com um martelo.

A POÉTICA DA CULTURA, III – (p.27-30)

Poder, poder grassando em toda parte,

E os signos cabisbaixos a murchar.

Poder, poder grassando em toda parte,

E nada mais para se pensar.

 

A corrente obssessão foucaulti-gramsci-nietzscheana com o poder é a encarnação mais recente do incurável funcionalismo da antropologia. Com seus antecedentes estrutural-funcionalistas e utilitaristas, a hegemonização é homogeneização – a dissolução de formas culturais específicas em efeitos instrumentais genéricos. Tudo o que era preciso saber, digamos, as relações jocosas prescritivas – sua raison d’être – era que contribuíam para a manutenção da ordem social, do mesmo modo que as cerimônias totêmicas ou a magia agrícola organizavam a produção alimentar. Agora, porém no lugar da ‘solidariedade social’ ou da ‘vantagem material’, o ‘poder’ é o buraco negro intelectual para o qual todo e qualquer conteúdo cultural acaba sendo sugado. Repetidamente fazemos essa barganha idiota com as realidade etnográficas, abrindo mão do que sabemos sobre elas afim de compreendê-las. Como disse Sartre sobre um certo marxismo vulgar, somos impelidos a tomar o conteúdo real de um pensamento ou ato como mera aparência, e, tendo dissolvido esse particular em um universal (no caso, no interesse econômico), comprazemo-nos em acreditar que reduzimos a aparência à verdade. Max Weber, criticando certas explicações utilitaristas dos fenômenos religiosos, observou que o fato de uma instituição ser relevante para a economia não significa que ela seja economicamente determinada. Mas, se seguirmos Gramsci e Foucault, o atual neo-funcionalismo do poder afigura-se ainda mais completo: como se tudo o que puder ser relevante para o poder fosse poder.

Assombrosa, então, vem a ser a variedade de coisas que o antropólogos poder agora explicar em termos de poder, resistência e contra-hegemonia. Digo, ‘explicar’ porque o argumento consiste inteiramente em categorizar a forma cultural em pauta em termos de dominação, como se isso desse conta dela. Eis aqui alguns exemplos extraídos dos últimos anos de American Ethnologist e Cultural Anthropology.

1. Apelidos em Nápoles: ‘prática discursiva empregada para construir uma representação particular do mundo social, [o ato de conferir apelidos] pode tornar-se um mecanismo para reforçar a hegemonia de grupos nacionalmente dominantes sobre grupos locais que ameaçam a reprodução do poder social’ [Fora!: não se sabe o que há em um nome, quanto mais em um apelido…].

2.Poesia lírica beduína: esta é contra-hegemônica [Viva!]

3.Moda feminina em La Paz: contra-hegemônica [Viva!]

4.A categorização social de escravos libertos dominicanos como camponeses: hegemônico [Fora…]

5.O sistema andino de fiestas no período colonial: hegemônico.

6. A ‘espiritualidade’ construída das mulheres bengalesas de classe média, tal como expressa em sua dieta e vestimenta: nacionalismo hegemônico e patriarcado.

7. Certos pronomes vietnamitas: hegemônicos.

8. Lamento funerário dos índios Warao, Venezuela: contra-hegemônico.

9.Construção de casas na base do ‘faça-você-mesmo’ pro trabalhadores brasileiros: uma prática aparentemente contra-hegemônica que introduz uma hegemonia ainda pior.

10.O humor físico e escatológico de homens desempregados da classe trabalhadora mexicano-americana: ‘uma ruptura opositiva na hegemonia alienante da cultura e da sociedade dominantes’.

11. Senso comum: ‘pensamentos e sentimentos de senso comum não necessariamente tranqüilizam uma população inquieta, mas podem incitar à rebelião violenta, ainda que contida’.

12. O conceito de cultura como totalidade sem falhas e o de sociedade como entidade de fronteiras bem marcadas: idéias hegemônicas que ‘mascarraram efetivamente a miséria humana e abafaram as vozes dissidentes’.

‘Uma hiper-inflação de significância’ seria uma outra maneira de descrever esse novo funcionalismo que traduz o aparentemente tribial no politicamente retumbante pode meio de uma retórica que, tipicamente lança mão de um dicionário de nomes e conceitos modernosos, muitos deles franceses, uma verdadeira La Ruse[1] do pós-modernismo. Evidentemente o efeito final, ao invés de amplificar a significância dos apelidos napolitanos ou dos pronomes vietnamitas, trivializa termos como ‘dominação’, ‘resistência’, ‘colonização’ e mesmo ‘violência’ e ‘poder’.Privadas de referência real-política, essas palavras tornam-se puros valores, cheios de som e fúria, que não significam nada….exceto o falante.”

Marshall Sahlinhs – Esperando Foucault, ainda

Tradução: Marcela Coelho de Souza e Eduardo Viveiros de Castro

São Paulo: Cosac Naify, 2004


[1] Jogo de palavras entre Larrouse, o dicionário e ‘la ruse’, a ‘manha’ ou ‘astúcia’. [N.T]

Anúncios
Published in: on 30/03/2011 at 18:29  Comments (7)  

The URI to TrackBack this entry is: https://obarseular.wordpress.com/2011/03/30/notas-doutorais-2-a-poetica-contra-ataca-o-bla-bla-bla-hegemonico/trackback/

RSS feed for comments on this post.

7 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Rafa, Vou deixar os especialistas da área comentarem. Me sinto meio ignorante.

  2. Acho que Sahlins lê mal Foucault. Lê de maneira reducionista! Mais reducionista do que aqueles que critica. Não sou marxista, mas os marxistas não são desse jeito aí faz séculos!
    Tenho a impressão que ele acha que os filósofos estão tentando invadir um espaço que ele, como antropólogo, acha que é só dele! Ele diz que as relações nem sempre são relações de poder, mas não é capaz de derrubar essa ideia. Na obra dele, pelo menos, ele não faz isso. Ele faz provocações, mas não é argumentativo.

  3. Gostei do comentário Tiago, valeu. E concordo apenas numa parte contigo, o Sahlins aqui é provocativo e não argumenta. No entanto, a partir das minhas leituras em psicologia social, e também a partir de artigos e pesquisas nas ciencias sociais em geral, acho que o que ele faz é importante, é uma boa provocação. Dessas que não fecham o argumento, mas convidam a pensar mesmo. Não acho que ele aqui esteja analisando Foucault e sua obra, mas sim buscando perceber como um determinado ponto do trabalho do Foucault influenciou e influencia teorias nas ciencias humanas em geral. Acho que devemos tomar cuidado com a totalização apressada, a busca de uma visão global que não se detem na condição, na diferença, na prática cultural em questão. Ainda que considere que há aí uma questão própria e cara à antropologia (a verdade da cultura) não acho a provocação dele um corporativismo, pois a vejo na psicologia social e nas ciencias humanas em geral. Enfim, um abraço!!

    . A obssessão “”

  4. […] ou de “maria”. Torcer é pura festa e magia, exaltação do sublime amor e não de ódio. O Marshall Sahlins me atacaria por outro lado e me diria, como um psicanalista de botequim, que é essa minha […]

  5. concordo com a crítica de Sahlins ao modo que FOucault é utilizado, contudo, o curioso é que marxistas acusam os foucaultianos de não pensarem no todo e sahlins acusa foucault e ‘totalitarista’ no sentido de as relações de poder estarem por tudo… creio que faltou a Sahlins uma leitura aguçada dos ultimos escritos de foucault e de suas ultimas aulas, em especial as de 1984 em Berkley. Mas ainda acho as críticas dele a esse simplismo ‘marxiano’ de tentar sempre trabalhar com o todo desastroso, o qual realmente deixa estes sem ação no todo, apenas críticos. e camarada, parabens pelo blog. saudações anarquistas.

  6. Opa, Gustavo valeu pelo elogio. Eu gosto muito dessa passagem do Sahlins menos pela crítica ao Foucault e mais pela critica ao que os foucaultianos fazem. Acho que ele é feliz ao falar dessa constelação nietszche-gramsci-foucaultiana como algo que reduz o sentido sempre a um momento político. Eu gosto até mesmo porque, através de uma psicologia social crítica, me vejo na busca de compreeender os fenomenos sociais a partir desta matriz politizada. Mas é preciso ter cuidado senão recaímos num funcionalismo, mais exuberante, mas ainda sim um funcionalismo. Valeu!!

  7. O texto da Arendt é de um dos ensaios (não lembro o qual) do Entre o Passado e Ofuturo, que saiu aqui no Brasil pela Coleção Debates. =)


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: