Mulher brasileira

A vida ordinária e cotidiana das grandes cidades brasileira tem sido o cenário de um teatro violento e triste. O mesmo enredo repetido à exaustão. A violência urbana acompanhada de cenas de execução em todas as configurações possíveis. Os perversos  sempre ávidos por novas formas de sofrimento e tortura devem se deleitar com o que vemos nos jornais. Por um lado um jovem de 14 anos recebe 6 (seis!) tirous à queima-roupa da polícia em Manaus. Por outro um policial joga spray de pimenta nos olhos de uma menina, uma criança. Poderia dar outros exemplos, mas não é disso que quero falar.

Edmundo Leite, colunista do Estadão, no textoTributo a uma mulher desconhecida relata o caso da mulher, que ao presenciar uma execução, liga para a polícia e denúncia o caso. Podemos ler a notícia e ouvir a ligação aqui. A mulher, com voz firme e resoluta, conta ao atendende da PM, com clareza, que uma viatura da polícia entrou no cemitério, em seguida um rapaz foi retirado de dentro do camburão e depois ela ouviu um tiro de execução desse sujeito. A mulher logo no início da ligação fala: “Diz que já é normal fazer isso aqui, mas não é normal eu assistir isso”. Essa mulher merece um tributo, como propõe Edmundo Leite.  Mas ela merece mais, muito mais. Não uma retribuição pessoal, particular. Merece que nós honremos seu gesto. Sua ação. Ora, ela ligou para a Polícia vendo a polícia matar. Ela não só agiu frente à bárbarie, como ainda acreditou na instituição.  E  percebe-se  que  a PM agiu em conformidade com a lei como deveria acontecer sempre e não acontece. E por isso estamos agora discutindo esse caso.

Nos comentários do blog do Edmundo Leite, fiquei espantado com a truculência e a agressividade de certos homens que frente a casos como esse, sempre tagarelam coisas estapafúdias, como “bandido bom é bandido morto”; “ela só denunciou porque eram policiais, se fossem bandidos matando/estuprando ela não teria feito nada (!)”; “os defensores dos direitos humanos não deveriam ter direito a defesa da polícia” e absurdos do gênero. É curioso que as resoluções propostas avançam sempre contra qualquer regra ou valor democrático. Além de naturalizar as relações sociais, como se vivessemos sob a divisão dos bons contra os maus, e ai de você em defender “bandido”. O que esta senhora fez foi simplesmente dizer, “Não, isso não pode acontecer”. Não há predicado, não há condição. Ela diz: eu não vou viver, de forma alguma, com a responsabilidade frente a esse fato. Daí vem o poder do seu ato. E quando o policial executor vem em sua direção dizendo que apenas socorria o criminiso e questiona se ela sabia o que aquele rapaz teria feito, ela diz sem medo: “Eu não sei o que ele fez (voz do PM ao fundo) É mentira senhor. Eu não quero conversar com o senhor. O senhor paga o que o senhor faz. O senhor tem a consciência do que faz.”

Não é coincidência que esse caso faça ressonância com os exemplos que tenho discutido aqui, nas ultimas semanas, a partir da inquietação que produziu em mim a leitura do livro “Responsabilidade e Julgamento”, uma coletânea de artigos de Hannah Arendt.  A possibilidade de romper e inaugurar algo no mundo, de fazer valer a justiça é algo raro, mas sempre necessário. Esquecemos isso quando banalizamos a ação desta mulher, ou quando passamo a ver a violência e a miséria urbana como mera paisagem. Hannah Arendt, no trabalho citado, discute a questão moral e ética envolvida na decisão humana. Ela se baseia na maneira como os agentes de baixa patente do nazismo se defenderam quando julgados pelos crimes cometidos no período nazista.  O ponto central é a relação entre a decisão e a questão da moralidade.  A autora rechaça veementemente certos  “argumentos”  que  justificavam a ação dos agentes nazistas como apenas ordens que estes deveriam cumprir, sem caber a eles refletir sobre a natureza das ordens;  ou então de que frente a um regime criminoso como um todo, todos  foram igualmente culpados. Esses argumentos (como os acima tipo: “bandido bom é bandido morto”) buscam estruturar uma rede de proteção contra o pensamento e o julgamento, contra  o sentido de certos atos e a responsabilidade frente a estes atos. Não é preciso ser uma filósofa com o NOME de Hannah Arendt para entender o que se deve ou não fazer. A mulher anônima entendeu muito bem o que tudo isso envolvia.

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Ps: Não sei se é coincidência que seja uma mulher a autora desta ligação. Suspeito que não. Assim como não acho que seja coincidência que os homens estejam sempre envolvidos nessas situações de violência. Odeio qualquer tipo de ontologia de gênero, que atribui a homens ou mulheres qualidades e características essenciais. Mas não consigo deixar de pensar nessas coisas  ao me deparar com esse caso.

 

 

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Published in: on 05/04/2011 at 13:30  Comments (4)  

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4 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Obrigado pela citação e parabéns pelo texto.
    Abraços

  2. Eu é que agradeço pela visita! Um abraço,
    Rafael

  3. É isso aí, Rafa. A responsabilidade e a coragem daquela mulher são dignos de uma homenagem mesmo. Uma pena que seja tão raro pessoas assim, e uma pena que sejam tão frequentes casos como aquele que ela denuncia.beijo

  4. […] Essa questão aparece sempre em qualquer luta social e política. Pode se dar quando uma mulher na rua presencia um homicídio perpetrado pela própria polícia e faz alguma coisa com isso; quando as pessoas passam a não aceitar mais a violência cotidiana […]


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