Notas doutorais #3 – Marxismo, sensibilidade e afirmação

Ando às voltas com o marxismo, mais uma vez. Há algo no marxismo que me encantou e, penso, permanecerá sempre a me encantar. A obsessão pela totalidade na compreensão da vida social. A negação, através da dialética, de ver partes, movimentos autônomos, fechados em si mesmos. Essa busca das mediações, a proposta de reconstruir um todo, sempre. Ainda que tal perspectiva muitas vezes se encontre, lá na frente, naquilo que o marxismo tem de pior, seu gosto por fórmulas. Fórmulas, como aquelas que dizem que há um verdadeiro marxismo, lá nas entranhas dos escritos do velho barbudo que responde a todas as críticas, mesmo as ainda não escritas. Isso de marcar que os equívocos são sempre dos marxistas vulgares, aqueles que não compreenderam a maravilhosa teoria de Karl Marx. Esta é para mim a contradição primeira e mais verdadeira da filosofia que se quis mundo, por excelência. Apontar como fiador de sua verdade, não o mundo dos homens e mulheres, mas sim os escritos, as palavras, e quem sabe apenas o coração de um velho pensador alemão. A verdade do marxismo são suas práticas e interpretações, todas elas, tudo junto e misturado. Mas penso que o anseio de ver o todo, de negar as particularidades como verdades paralelas, de integrar, articular, costurar, isso deve ser um movimento lento, cuidadoso. Do contrário é fácil cair no puro fetiche de uma totalidade feliz e reconciliada, suave. São o que fazem as tais fórmulas, que dizia aqui em cima. Lembro de um debate organizado pelo DCE da UFMG, na Fafich, há coisa de 4 anos. A discussão era sobre movimentos sociais de minorias, homossexuais, negros e mulheres (minorias, sabe?). Ao cabo do debate, quando todos já se preparavam para ir embora, um militante do DCE, pediu a palavra. Ele, com claro intuito de dar a última palavra, nos ensinou que as mulheres, os gays e todos os oprimidos estavam plenamente contemplados na Revolução Russa. E logo sacou uma citaçãozinha de Lenin para corroborar sua versão e nos mandou pra casa. Que mensagem bacana, que ótimo que tava tudo lá na Revolução Russa, é só fazer de novo né, meu chapa? Acho linda a passagem, duas postagens abaixo, do Marshall Sahlins quando ele crítica as interpretações hiperfuncionais do marxismo na antropologia. A verdade é que a psicologia social e política deve se voltar sim para pensar a totalidade, mas se precavendo contra as alegrias fáceis dos tempos sem conflito, sem angustia, sem perturbação, de frágeis reconciliações que nada dizem.

Buscando novos rumos na literatura marxista, as “pequenas histórias que a História não contou” como canta Gonzaguinha, deparei-me com os escritos do peruano José Carlos Mariatégui, de quem já ouvira dizer, mas nunca tinha lido. E nas primeiras palavras que dele li, fiquei de pronto apaixonado. São palavras afirmativas e belas. Sente-se uma paixão pela vida, uma vontade de afirmação que procura no seio mesmo do dia, da tradição a força para a mudança. Muito me agrada as tentativas de articular o marxismo a tradições culturais e políticas de um povo. A busca de estabelecer o nexo entre a vida de um povo e sua emancipação do poder esmagador do capitalismo. É por isso que gosto tanto do apelo ao senso comum, à religião, a  “filosofia espontânea” dos povos da qual nos disse Antonio Gramsci. A noção de hegemonia e articulação, nos moldes definidos por Ernesto Laclau e Chantal Mouffe também fornecem elementos para isso do marxismo que tanto me fascina, para a compreensão da totalidade da vida política de um povo, mas que não nos direcione para uma visão comunitarista, hermética, originária. O elemento inca que Mariatégui procura trazer à tona, para pensar o Peru do início do século XX, não deve ser visto como a procura do lugar radicalmente original de um povo. Nada é original e nada é fechado. O mito é mito e não verdade por conta disso. Nesse cruzamento entre tradição, luta política, marxismo há algo que vale a pena investigar, vale a pena investir. Se muito devo do meu pensamento a figuras como Laclau, Mouffe e Jacques Rancière, tenho achado, por vezes, esses autores demasiado negacionistas, discursivistas, contingentes. A democracia-por-vir de Derrida como ideal que tanto alimenta o pensamento de Laclau e Mouffe, por exemplo, parece de fato fugir da questão da decisão, da verdade, da afirmação. Atualmente tenho procurado contrabalancear estes autores com uma discussão sobre narrativa e história na perspectiva hermenêutica, e também através da filosofia de Alain Badiou. Este, não por acaso, parte do mesmo desfiladeiro político histórico dos autores anteriores, mas se arma de conceitos como Verdade, Fidelidade, Evento, apontando para outro caminho. Rancière, por exemplo, ao diferenciar o que usualmente se chama política em dois campos, por um lado a polícia, como espaço do consentimento e dos lugares sociais, dos nomes próprios; e por outro a política, como momento de litígio em torno desses nomes próprios, momento de negação e subversão do fechamento das identidades pela emergência da igualdade entre os sujeitos, estabelece como horizonte máximo de sua teoria o momento de negação. Toda identidade e todo lugar definido é um momento da polícia. Ainda que ele deixe claro que para negar é preciso que se afirme, ou seja, é preciso que exista positividade na negação de um lugar, de um espaço, de um nome. Mas ainda assim, sinto que ele desvia o olhar daquilo o que É para o que NEGA aquilo que é.

Não sei, são indagações. São perguntas que me voltaram agora, com Mariatégui. É preciso uma filosofia política afirmativa.

“Por sua vez, os revolucionários, tal como os fascistas, propõem-se a viver perigosamente. Nos revolucionários, tal como nos fascistas, percebe-se análogo impulso romântico, análogo espírito quixotesco.

A nova humanidade, nas suas expressões antitéticas acusa uma nova intuição de vida. Esta intuição da vida não se mostra, exclusivamente, na prosa beligerante dos políticos. Nas divagações de Luis Bello, encontro esta frase: ‘Convém corrigir Descartes: Combato, logo existo.’ Na verdade, a correção se revela oportuna. A fórmula filosófica de uma idade racionalista tinha de ser: ‘Penso, logo existo.’ Mas a mesma fórmula já não serve a esta idade romântica, revolucionária e quixotesca. A vida, mais do que pensamento, hoje que ser ação, ou seja, combate. O homem contemporâneo tem necessidade de fé. E a única fé que pode ocupar seu eu profundo é uma fé combativa. Não voltarão, quem sabe até quando, os tempos de viver com suavidade. A suave vida pré-bélica só produziu ceticismo e niilismo. E da crise deste ceticismo e deste niilismo nasce a rude, a forte, a peremptória necessidade de uma fé e de um mito que levem os homens a viver perigosamente.

(José Carlos Mariatégui – Duas Concepções da Vida. Em: Por um Socialismo Indo-Americano, 2011).

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Published in: on 10/06/2011 at 16:30  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Meu caro amigo Bacelar,
    fiquei a pensar em alguns pontos abordados por você… um deles me chama atenção: o de que parece que os autores fogem da questão da decisão… esse é importante debate, afinal estamos aqui trazendo não só a discussão sobre a relação negação/afirmação, mas aquela sobre a própria concepção de sujeito nestas abordagens.
    vamos pensando…

    grande abraço,

    fred

  2. Mas Fred, me diz aí como vc pensa a relação entre a questão da decisão e a questão da emergencia dos sujeitos. Eu acho q o sujeito é e sempre será afirmação, ou seja, o momento da afirmação ele tem que ser marcado. Por isso, penso, na minha parte teórica, coloco como primeiro conceito a noção de “Ação” em H. Arendt.


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