Notas doutorais #4 – Narrativa, destino, ação

“Todas as investigações dos intelectuais contemporâneos sobre a crise mundial desembocam nesta conclusão unânime: a civilização burguesa sofre da falta de um mito, de uma fé, de uma esperança. Uma falta que é a expressão do seu colapso material. A experiência racionalista teve a eficácia paradoxal de conduzir a humanidade à convicção desconsolada de que a Razão não pode apontar nenhum caminho. O racionalismo só serviu para desacreditar a Razão. Os demagogos – disse Mussolini – mataram a ideia de Liberdade. Sem  dúvida, é mais exato dizer que os racionalistas mataram a ideia de Liberdade. A razão extirpou da alma da civilização burguesa os resíduos dos seus antigos mito. O homem ocidental colocou, durante algum tempo,  a Razão e a Ciência no retábulo dos deuses mortos; Mas nem a Razão nem a Ciência podem ser um mito. Nem a Razão nem a Ciência podem satisfazer toda a necessidade de infinito que existe no homem. A própria Razão se encarregou de demonstrar aos homens que ela não lhes basta e só o Mito possui a preciosa virtude de preencher seu eu profundo (…)

… o homem, tal como a filosofia o define, é um animal metafísico. Não vive fecundamente sem uma concepção metafísica da vida. O mito move o homem na história. Sem um mito, a existência do homem não tem nenhum sentido histórico. Quem faz a história são os homens possuídos e iluminados por uma crença superior, por uma esperança sobre-humana; os demais homens são o coro anônimo do drama. (…)

A civilização burguesa caiu no ceticismo. A guerra pareceu reanimar os mitos da revolução liberal: A Liberdade, a Democracia, a Paz. Mas, em seguida, a burguesia aliada sacrificou-os aos seus interesses e aos seus rancores na conferência de Versalhes. Mesmo assim, o rejuvenescimento destes mitos serviu para que se concluísse a revolução liberal na Europa. Sua invocação condenou à morte os restos de feudalidade e de absolutismo ainda sobreviventes na Europa Central, na Rússia e na Turquia. E, sobretudo, a guerra, cabal e trágica, provou mais uma vez o valor do mito. Os povos capazes de vencer foram os povos capazes de um mito para as multidões. (…)

Nesta época, o que mais nítida e claramente diferencia a burguesia e o proletariado é o mito. A burguesia já não tem nenhum mito. Tornou-se incrédula, cética e niilista. O mito liberal renascentista envelheceu demais. O proletariado tem um mito: a revolução social. Dirige-se para este mito com uma fé veemente e ativa. A burguesia nega; o proletariado afirma.”

Em: “Por um socialismo indo-americano”  JOSÉ CARLOS MARIATÉGUI,  P.56-9

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Published in: on 13/06/2011 at 18:32  Comments (1)  

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  1. Interessante. Mas o conceito de mito que aprendi com alguns povos invalida esta teoria. O problema da burguesia não é a ausência de mitos, mas sim a submissão aos mitos errados (ou melhor, a mitos desumanizadores). Dizer que um povo, classe ou pessoa não tem mitos é como dizer que um corpo não tem calor, o que é impossível. A própria ciência e a filosofia têm mitos como alicerces. Só que não os chamam mitos, mas hipóteses. A composição última da matéria, por exemplo, será sempre um mito, sobre o qual construímos teorias tão sólidas quanto edifícios, ou tão eficazes quanto aviões. Mas edifícios e aviões também caem, embora esta seja a exceção. O erro, então, não é a Razão, nem a razão, mas apenas a ignorância em relação ao papel do mito, da sua centralidade em nossas vidas, e por isso a eterna separação entre ciência e religião e todas as mazelas que daí derivam. Acho que é mais ou menos o que o autor fala, embora os conceitos que ele usa possam levar a uma negação da utilidade da razão, e também a uma espécie de relativismo cultural que, ao invés de finalmente unir a humanidade, tem o poder de dividi-la ainda mais, mantendo a alienação, os preconceitos e a xenofobia.


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