A GRANDE MARCHA DOS VAGABUNDOS

“Em primeiro lugar o que é um vagabundo?

… Estas são as características que o distinguem: ele não tem dinheiro, veste-se com andrajos, caminha cerca de vinte quilômetros por dia e nunca dorme no mesmo lugar.

…Ele não tem emprego, lar ou família, nada de seu no mundo, exceto os farrapos que cobrem seu pobre corpo; vive às custas da comunidade…

O vagabundo não perambula para se divertir, ou porque herdou os instintos nômades de seus ancestrais; antes de mais nada, ele tenta não morrer de fome”.

Eric Blair, 1942 [George Orwell]

 

Sábado passado, ao lado de homens, mulheres, de jovens, idosos e crianças, fui às ruas protestar contra o estupro e outras formas de violência sexual contra mulheres. Para os boçais de plantão as mulheres, quando usam roupas curtas, estão na verdade convidando os homens para que estes as estuprem. É claro. E alguns ainda dirão: “Não é que a gente concorda com isso, mas é como o mundo é”. No sábado, mulheres de todas as idades em roupas de tamanhos e cores variadas, andavam gritando e cantando. Foi bonito de se ver, de participar, mas também triste, muito triste. É triste que o estupro possa ter atenuantes e justificativas, coisa que nos avisa que o mundo está acabando. A marcha das vagabundas, ou das vadias, é fundamental no enfrentamento da violência, ao colocar na rua esses corpos todos, suas formas e tempos. Corpos que deixam de ser corpos para dizer: “Somos mulheres!” Sim, sim aí está uma mulher. Pois, então que a violência infinita do estupro nunca mais ocorra.

Mas o mundo está acabando também porque, a cada dia, vemos menos manifestações contra a miséria, contra a pobreza, contra a opressão do capitalismo. Ah, esses que se vangloriam dizendo que estas palavras já estão gastas demais, que nada nos dizem nesse belo século XXI. E a dor da pobreza e da miséria, isso, para vocês aí, diz alguma coisa? Fiquei absurdamente chocado com o texto acima do grande George Orwell que não só lutou na Guerra Espanhola, mas também marchou cotidianamente ao lado dos vagabundos e mendigos ingleses. Fiquei a pensar numa grande MARCHA DOS VAGABUNDOS contra as práticas e ações moderno-fascistas que nos rodeiam. Essa visão que nega qualquer lugar a quem já não tem lugar. Ah, esses senhores que enchem o peito de orgulho com obras, tratores, casas devastadas, e pensam felizes que finalmente o “Brasil Grande” está chegando. Esse papo de progressos e avanços mil, sempre com responsabilidade social e ecológica, baseada na capacidade gestora de gente incapaz de entender que há coisas que não podem ser geridas. Há coisas que devem ser simplesmente aceitas, atenuadas, pensadas, mas que não podem ser resolvidas, sobretudo na base da caneta, do cassetete ou do trator.

Uma GRANDE MARCHA DOS VAGABUNDOS contra esses belos senhores que, sem nada compreender, pensam que tudo administram. Esses que falam de democracia e participação, mas logo-logo, complicando, chamam as ferramentas de trabalho de sempre. Os cães, a polícia, o ódio, o gás de pimenta. Sempre prontos a massacrar aqueles que não estão entendendo os rumos do novo tempo, ou para mais bem dizer, aqueles que simplesmente não concordam.

Há dois anos a prefeitura do Rio de Janeiro colocou grandes pedras embaixo de alguns viadutos da cidade. A visão era de uma superfície lunar e o seu intuito era impedir que moradores de rua ali dormissem. Semana passada, num jornal de Belo Horizonte, circulou as denúncias contra agentes da prefeitura que estariam roubando cobertores, caixas de papelão e pertences dos moradores de rua. Taí: O FIM DO MUNDO. Pois, vejamos: se essas pessoas já não são homens e mulheres, se são ratos ou coisas que o valha, então os tratemos como tais, não? Onde está a honestidade no belo mundo moderno? Não deveríamos então simplesmente exterminá-los de uma só vez? Ou será que conseguimos ver que esses maltrapilhos, mendigos e vagabundos não são simplesmente homens e mulheres, presos na perversidade de um sistema opressor que exclui muitos para garantir a liberdade, a vida, a riqueza a poucos, bem poucos. Os vagabundos são homens e mulheres, posto que têm sonhos, pensam, sentem desejos e frio. Sigam a seguinte sequência, por favor: Estamos no inverno. Em Belo Horizonte faz frio no inverno. À noite faz ainda mais frio. Os seres humanos sentem frio. Cobertores e caixas de papelão protegem contra o frio. É possível entender o encadeamento desses fatos? Eu entendo. Eles, os vagabundos, entendem e por isso se juntam, e por isso recorrem a cobertores e caixas de papelão.

E você, será que compreende?

E me diga, então, quem é o rato?

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Published in: on 22/06/2011 at 19:39  Comments (3)  

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Obrigada!

  2. Mais um motivo para permitir o aborto – porque mulheres sentem tesão, mulheres transam por tesão também, não só por amor, não só para constituir família, também porque o lazer no parque custa caro e é longe, e às vezes engravidam sem querer, ou porque camisinha é caro, ou porque nem sempre dá pra usar, ou porque às vezes estoura, e assim por diante. Os moralistas de plantão – sempre eles – dirão que “deu? Agora aguenta!” Como se o sexo fosse um pecado que merecesse punição! Como se todo punhado de células dentro da barriga feminina tivesse mais dignidade que a própria mulher adulta, vivida, com laços afetivos, etc. Como se as mulheres nunca tivessem tido o direito de usar conhecimentos milenares para interromper uma e outra gravidez, apenas para planejar o crescimento da própria família! É difícil até de acreditar que isso ocorra, por isso acho que a legalização do aborto é um passo importantíssimo para chegarmos a algo que pudesse realmente ser chamado democracia social. Grande abraço!

  3. Valeu pelos comentarios, Analise eu que te agradeço pela presença. Rodrigo, concordo com sua analogia. Abraço


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