No tempo da delicadeza

Algumas lembranças insistem em voltar. Momentos, fragmentos de um tempo. E são coisas tolas mesmo, detalhes perdidos no cotidiano, esse tempo sem evento, de quase pura repetição. Há alguns anos, ainda estudante de psicologia, fiz um estágio numa clínica particular para idosos. Um espaço de convivência, “como se diz”, para senhores e senhoras da elite belorizontina. Chamavam-nos de estagiários, mas não havia nada de estágio, éramos funcionários de baixo custo e muita disposição. Nós, estudantes de psicologia,  realizávamos atividades recreativas e educativas com os idosos. Foi um tempo difícil, pois é duro conviver com esse limite do corpo, com almas quebradas pela vida, mulheres silenciadas e, muitas vezes, marcadas pela violência passada e presente.

A instituição se especializou em receber idosos acometidos por diferentes tipos de demências. Alguns passavam o dia na instituição e ao fim da tarde voltavam para suas residências, enquanto outros dormiam em casas mantidas pela mesma instituição, com fins lucrativos, e bem lucrativos, eu diria. A maior parte das senhoras me tratavam muito bem. Foi um tempo de uma rotina marcada pelo inusitado, pela graça, e também pela dificuldade. Num dia a Beta estava confusa, sem saber onde estava, querendo sair para comprar um remédio na farmácia da esquina de sua casa, em Juiz de Fora. No outro, Rosa contava suas histórias, quando professora de piano em Valença. Esta também apimentava as coisas contando semi-safadezas, que provavelmente nunca fez. Eram coisas pueris, para os dias de hoje, mas que ela achava graça, pois deixava as outras senhoras ruborizadas. Com o passar do tempo fui conhecendo parcialmente as histórias. Entendendo o jeito de cada uma. E assim, o estágio, no qual não havia nenhum aprendizado explícito, dado que a supervisão se configurava mais num quadro de recados orais do que na discussão de problemas e casos, mostrou-se um momento de puro aprendizado. Momento de aprender a ver, entender sentimentos, pensar lógicas de ação e reação. Quantas não foram as vias pelas quais busquei o entendimento do quê movia, o quê queria, aquela senhora ali, agitada e agressiva, murmurando coisas incompreensíveis. Como proceder e intervir em relação àquele senhor que, à meia tarde de um dia qualquer, simulava uma masturbação, na mesma hora que jovens senhoras conheciam a casa e se decidiam sobre deixar seus entes queridos ali ou não? Este mesmo senhor que teve uma loja no mercado central, e que, sempre rabugento, implicava com meus cabelos cacheados, num misto de deboche e desprezo. E ainda este mesmo senhor que todo dia me contava do melhor time do Atlético de todos os tempos: “Perigoso, Chiquinho e Binga; Cordeiro, Brant e Ivo; Dalmi, Said (um turco brigador), Jairo, Mario de Castro (o melhor jogador da época) e Cunha”. No meu primeiro dia fui logo apresentado a Dona Argentina. Uma senhora doce, doce. Dizia torcer para o São Paulo e que gostava do Raí, que era bonitão. Daí em diante, de 20 em 20 minutos, ela me perguntava se o Raí ainda jogava futebol. Eu, com toda a paciência, dizia que não, que o Raí já havia se aposentado, naqueles idos de 2003. O bom é ver que, mesmo lentamente, as coisas mudam. Alguns meses depois ela passou a perguntar pelo Kaká e não falou mais no Raí.

No meio disso tudo, com o passar dos dias e meses, é claro que passei a ter minhas preferidas. Uma delas era a Didita, dona Afrodite. Uma senhora magrinha, que ficava mascando um chiclete imaginário o dia todo. Ela falava de forma seca e direta, sempre. Não gostava de mim de início, como convém às pessoas desconfiadas. Mas com o tempo ela foi se tornando carinhosa. Não era essa coisa explícita não, era um carinho velado, mas nem por isso menos profundo e sincero. A outra senhora é sobre quem queria contar uma pequena história. Dona Tiná foi o meu xodó (ela se chamava Albertina, havia outra senhora com o mesmo nome que chamávamos de Beta). Tiná era era muito calma, de fala baixa, gestos delicados, sempre elegante. A cabeça boa, observadora. Ficava sentada olhando tudo e todos e vez ou outra se aproximava buscando saber alguma coisa, ou querendo compartilhar uma impressão que lhe causara os fatos do dia. Ela não gostava das atividades que propúnhamos. Preferia ficar quieta, sentada, conversando com uma ou outra senhora. Às vezes subia para escutar música. Ela era casada e diziam que seu marido era um senhor elegante que aos fins de semana a buscava para um passeio. Ela dormia durante os dias da semana numa das casas mantidas pela instituição e no fim de semana ia para sua casa. Em determinada tarde o carro que levaria as senhoras para suas casas atrasou muito. As gerentes da casa, então, pediram para que alguns de nós, estagiários e funcionários, levássemos as idosas que conseguiam andar para a casa mantida pela instituição, na qual estas pernoitavam e que ficava a três quarteirões de onde estávamos. Eu fui de braços dados com duas senhoras que caminhavam relativamente bem. Uma era a Cilene, uma senhora esperta e ágil que ficava o dia todo lendo e que não se envolvia com nenhuma atividade. Parecia gostar de pontuar que não era da mesma categoria daquelas senhoras demenciadas. E a outra era a Tiná.

Andávamos lentamente. Eu sempre observando o caminho, preocupado com possíveis quedas. Segui ao meio das duas senhoras de braços dados. Caminhávamos e conversávamos. Eram três quarteirões que, sozinho, percorreria em 5 minutos. Nesse dia demoramos uns 20 minutos. Na presença das duas senhoras provenientes de um tempo de outras relações, me fiz um fidalgo perdido no corpo de um jovem estudante de psicologia. Tiná parecia gostar muito de andar de braço dado comigo e eu, levianamente, imaginava evocar ali uma outra presença masculina. Um rapaz de outro tempo, de outros carinhos e destinos. Tiná parecia mais leve, talvez até mesmo por sair à rua, coisa que a vida regrada das instituições, mesmo essas pagas e caras, não permitia. Em determinado momento ela me pediu para parar. Agachou-se um pouco e lentamente pegou uma flor vermelha, num quintal qualquer. Colocou a flor na orelha, olhou para mim e perguntou: “Está bonito?” Eu, respeitosamente, disse que sim. Ela sorriu e continuamos a caminhar, mas agora a calçada que jazia à nossa frente não estava cravejada de buracos, também não ouvíamos buzinas, nem víamos carros. Havia, em volta, um tanto mais de gentileza, e tudo, tudo parecia lento. Minhas roupas também se transformaram. De súbito envelheci um pouco, talvez menos na idade e mais nos trejeitos e no vernáculo. Tiná, ao contrário, estava mais jovem. O olhar profundo e a elegância permaneciam as mesmas. Seguimos andando, um ao lado do outro, talvez no tempo da delicadeza, sem nunca chegar a lugar algum.

Anúncios
Published in: on 05/07/2011 at 19:18  Comments (6)  

The URI to TrackBack this entry is: https://obarseular.wordpress.com/2011/07/05/no-tempo-da-delicadeza/trackback/

RSS feed for comments on this post.

6 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Que doce…

    Lembro bem das suas histórias dessa época.

    Muito bom ver o que foi feito desses tempos na sua lembrança, bonito!

  2. Beibe, pois é a memória é um negócio esquisito né. Guarda umas coisas, joga outras fora. Valeu pelo comentário!! Beijo grande.

  3. Lindo texto, parabéns! O final, então, de uma poesia sem fim!

  4. Ô rapaz, valeu demais. A gente começa a escrever e não sabe como as coisas vão terminar, né?

  5. Exatamente!

  6. Lindo, pura poesia…um passeio pela delicadeza mesmo.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: