A. de Alfa

“Os melhores de todos serão aqueles que têm apenas uma única certeza: independentemente dos fatos que aconteçam enquanto vivemos, estaremos condenados a viver conosco mesmos”. Hannah Arendt

Apesar do nome deste blog tenho falado pouco, ou quase nada dos bares. E é talvez um descuido. Não descuido com os bares, mas um descuido comigo mesmo. Porque os bares são parte de mim, são meus “lares”, se me permitem a infâmia. Mas é isso aí, quando entro num bar, barulhento, confuso, com garçons berrando pedidos, gente fazendo caras e bocas, aí sim… Aí sim, me sinto em casa. Não sei dizer sobre o meu conforto nessa bagunça, mas que las hay, las hay.  Em Belo Horizonte nenhum lugar, nada me fez e me faz mais feliz do que o Opção. Ali eu encontrei, em matéria e devaneio, tudo o que se precisa para viver. Ao seu Ronaldo e a todos da casa serei eternamente grato. Mas o Opção sempre foi um lugar do delírio, não tanto isso do bar-lar, dessa relação próxima e cotidiana, quando, por exemplo, sem ir ao bar ele vai a você na figura de um garçom que atravessa a rua na sua frente. Em BH senti algo assim pelo Bar do Paulinho, apesar do dono do recinto ser dado a desaforos. Mas enfim lá também foi um bar de infância/adolescência/mulecagem. Assim, nenhum bar em minha vida se equivale ao Alfa, aqui no rio, ao lado da casa onde morei e fui feliz por mais de 3 anos. Chego agora de lá, fui tomar uma cerveja e comer uma pizza de carne seca com catupiry para descansar da escrita do meu projeto de tese. E sentado no bar não impedi as lembranças. Ali, entre paredes de um azulejo de muito mau gosto recordei histórias, momentos, pessoas. Sentado numa cadeira que é grande demais para o tamanho da mesa, percebi que ali me senti sempre em casa. Não seria exagero dizer que a escolha da casa onde morei, a 20 metros do bar, se deu em larga medida pela presença desse bar. Num domingo, nos idos de 2008, eu e Gabriela passamos na porta a caminho do apartamento que iríamos olhar. Ao passar na porta do bar, no seu clima peculiar de domingo, cadeiras na rua, conversas animadas, um preparo dos clientes para o futebol de mais tarde, senti ali algo bom. Essa coisa que a gente sente e diz quando encontra o lugar da gente, no mundo, na existência ou mesmo em Botafogo. Foi no Alfa que, ainda na primeira semana de mudança, sentamos para almoçar e esperar o fogão que chegaria da loja naquele dia. Na dúvida, comi logo uma feijoada, ainda que de início tenha refugado, pensando que talvez não poderia dar uma dormida depois do almoço. Disso não lembro, mas é provável que não tenha resistido a siesta. Poucas semanas depois resolvi almoçar lá por volta das 5 da tarde. Corri pro Alfa e perguntei para o garçom, o Neto, se ainda havia almoço. Ele, zombeteiro me disse: “Rapaiz, aqui quando acaba o café da manhã, começa o almoço e quando termina o almoço já é a janta” Tem como não se apaixonar por um lugar onde se ouve isso?

O Alfa fecha por volta das 3, 4 da manhã e abre antes das 7, nos dias de semana. Nos fins de semana ele abre por volta das 9, com isso poucas vezes vi o bar fechado. E é possível que denunciasse mais o fim do mundo ver o Alfa fechado do que não ver o sol. Mas foi quando quando terminava minha dissertação de mestrado, ansioso e angustiado, que nós dois mais nos aproximamos. Enquanto achava que nada daria certo, que não conseguiria terminar nem o capítulo 2, quiçá a dissertação, corria para o alfa e lá tomava, invariavalmente, uma cerveja e comia ou uma pizza ou um belo PF, que às 3 da manhã, é muito mais PF. Voltava para casa repleto de idéias e bem mais tranqulo. Os turistas que chegam ao rio logo querem conhecer o Pão de Açúcar, o Cristo e essas coisas, Ipanema, Lapa. Mas só hoje me dei conta de que nunca deixei de levar um amigo para conhecer o Alfa. Alguns compartilhavam dessa minha alegria esfuziante pelo recinto, enquanto outros apenas prezavam muito minha amizade. Não me importava o que achavam, importava que conhecessem o “meu” bar. Mais do que um bar o Alfa foi um tempo. Que passou. Mas o Alfa continua lá, firme, nos lembrando como diz um dos velhos entrevistados por Ecléia Bosi, que não é o tempo que passa, é a gente que passa por ele.

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Published in: on 21/07/2011 at 12:41  Comments (5)  

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5 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Mais uma da série braguianas… 😉 []s!

  2. Adorei!

  3. Chicones, tu sacou tudo. To querendo voltar na linha bragueana, deixar o sentimento rolar. Mas tb to gostando da onda George Orwell, de discussão e panfletagem política, e prevejo que as “notas doutorais” vão se proliferar. Enfim fico nessa encruzilhada de três vias.
    Elisa, beibe…sua presença doura o ambiente. Cliente assim bebe o que quiser e não paga! Volte sempre!

  4. chorei! no trabalho! ❤ ❤ ❤

  5. Beibe, valeu demais. Vc taí, sempre me emocionando. Bejo grande!


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