Sobre o desamor, amor ou Notas doutorais # 5 – A negação da contingência

(Dedico este texto a Julia Mesquita. Amiga incondicional com quem converso sobre os problemas da contingência e do destino há quase 10 anos.)

 

“Numa certa hora eu perguntei: ‘Mas porque você foi embora Lali?’

‘É… a vida… um equívoco! Você brigava muito comigo, queria que eu pusesse farinha, quando eu não punha farinha, se eu comprava Sissi você queria gasosa, e tal… E eu dizia: ‘Um dia eu vou embora!’. E você: ‘Vai quando quiser…’”

(Depoimento do Sr. Abel para Ecléia Bosi, no livro “Memória e Sociedade”, p.220)

“Vivo muito o presente, o futuro, só agora fiquei voltada para o passado. A vida é o presente. Depois de 1927 casei-me e casada não fui mais eu. Fui Jovina-Samuel. Minha vida foi a dele. Não posso falar das feridas recentes que ainda doem. Não posso reviver uma vida que terminou com ele.

(Depoimento de dona Jovina a Ecléia Bosi no livro “Memória e Sociedade”, p.295)

                Os dois trechos acima me marcaram muito. Quando os li senti alguma coisa que não sei nomear. Tanto devido à força das experiências de amor e desamor contida nas frases, quanto por tocar em elementos sócio-psicológicos que tenho me voltado nos últimos meses, ao pensar minha tese de doutorado. No primeiro depoimento, a memória de um casal que se separa traz isso que é tão banal, serial… Essas coisas… Esses detalhes cotidianos que espinafram, incomodam. Tolices quando vistas assim, por cima, na terceira pessoa. E tudo parece tão simples, tão fácil de resolver, mas atrás dessa simplicidade há tanta mágoa. Atrás desses detalhes o que não se esconde? Essa briga, as dezenas do “você vai quando quiser” quanta destruição não há? Mas há aí uma série, uma repetição de cenas, de coisas, de palavras. No segundo depoimento, dona Jovina, convidada a narrar sua vida só nos conta até 1927. E é dessa forma que justifica porque não falará mais. Ela não pode dizer o que se passou depois de 1927, pois a partir daí sua vida já não foi mais dela. Não há apelo, condição possível para que ela narre, pela simples construção: “Não posso reviver uma vida que terminou com ele”. Não posso, só pode implicar que não está sob meu poder. Ela não diz, “eu não quero”, diz, “não posso”. Sua vida não foi mais dela e sobre isso não há apelo.

                Quem não tenta compreender os fatos de sua vida? Quem não tenta entender a seqüência, os acontecimentos, os sentimentos? E quem dá conta de todos esses fatos? E quando é tudo duro demais, ou lindo demais, ou puro demais?

                Ora, seria tentador articular o desamor ao condicional, às circunstâncias; e o amor à pura verdade de uma revelação, sem início, processo ou causa. A tentação é forte. Mas Cartola nos previne contra isso, quando canta: “Ai se eu pudesse fingir que te amo, ai se eu pudesse, mas não posso nem devo fazê-lo, isso não acontece”. O que acontece, ou melhor, o amor que não mais acontece, está para além de circunstâncias, na mesma medida que a vida de Jovina depois de 1927 já não foi mais dela. No entanto, e isso é importante, eu não creio em misticismo, forças ocultas ou interferência divina e, portanto, houve sim uma vida de Dona Jovina pós-1927, houve segredos, pensamentos, fatos. Para o sujeito cínico e cientificista é tudo muito claro, dado que nesse caso trata-se de uma escolha da pessoa Jovina não nos contar sobre sua vida. Não há, empiricamente, nada como Jovina-Samuel. Mas isso não é tão pobre, meu amigo? Pensar assim, não é jogar fora algo tão belo e forte? Algo que leva o sujeito a demarcar, com uma potência fora do comum, que sua vida não é mais sua. Dona Jovina tem que falar, tem que se colocar para poder não se colocar mais.

                Já há algum tempo venho me debruçando sobre os problemas da contingência, essa condição na qual o que é poderia muito bem não ter acontecido. Essas coisas que não são nem impossíveis, nem determinadas. Foi através de um pequeno texto de Agnes Heller que me deparei com este problema que me acompanha há tanto tempo. A filósofa húngara, ao tratar do problema da insatisfação na vida moderna, demarca que a insatisfação é resultado de uma vida contingente, na qual podemos ser qualquer coisa, mas ainda não somos nada. Ela diz que só saímos da contingência de uma vida de condições abertas quando fazemos nossas, as palavras de Martin Lutero: “Estou aqui e não poderia agir de outro modo”. É quando, nos termos dela, transformamos nossa contingência em destino. Um destino que não foi dado de antemão, a despeito de nossas experiências, mas sim afirmado sobre estas experiências.

                Se por um lado fiquei deslumbrado com a fórmula elegante e retumbante do “estou aqui e não posso”, por outro sempre me seduziu os delírios e aberturas da contingência. Afinal, para o neurótico, ela fornece uma desculpa para não ser, ainda não, posto que pode-se ser ainda, depois. Justificam-se adiamentos e esperas. Ainda que tudo isso recheado de angústia. A verdade é que no bojo da contingência, há uma promessa de redenção final, a promessa de um momento no qual saberemos sim o que fazer e como decidir, de forma mágica, automaticamente, sem mágoa.

                Mas isso é pura ilusão. O momento de decidir é sempre impossível e é sempre agora. Ficar delirando na contingência como condição intrínseca ao nosso tempo simplesmente afasta o que importa, a decisão e suas conseqüências. Que é quando vivemos, sempre. Vivemos sempre decidindo, querendo perceber isso ou não. E não há escolha certa, pronta, dada, e sim a decisão que acarreta responsabilidade. É aí que jaz a beleza da resposta “estou aqui e não posso agir de outro modo”. Ora, pois é claro que você poderia. Sim, formalmente não há dúvida alguma. Pois se a decisão já estivesse pronta, não haveria de fato contingência, poderia haver deconhecimento. Mas será que alguém é tão decidido assim, será que vivemos respondendo “eu não posso agir de outro modo”? E não será que ao gastar essa fórmula não fugimos das decisões jogando a responsabilidade para outros lugares que não nós mesmos?

                Os dois depoimentos acima falam do desamor, amor, mas acho que toda essa discussão trata de muito mais, diz da relação existencial, constitutiva dos sujeitos com o mundo. Observe que não se trata de construir mitos, super sujeitos. Pois o sujeito pode falar que não pode agir de outra forma e, logo em seguida, o fazer. E não há problema, porque haveria? O que é bonito não é a certeza e sim a carga de energia, de emoção, de vontade implicada em colocar as coisas dessa forma. De ser tomado por algo que não nos damos conta. Talvez por isso seja mais fácil articular o amor a pura afirmação e o desamor a banalidades e acúmulo de circunstâncias. No primeiro caso somos invadidos impiedosamente por outra pessoa, coisa que mesmo desejando não damos conta porque já não somos donos de nossa casa. No segundo caso, tentamos limpar a casa, expulsar os demônios e conviver apenas conosco.

                Como decidir as coisas em nossa vida? Como nos colocamos para decidir nossa profissão? Um trabalho? A pessoa com quem passaremos nossa vida? Pensamos seriamente em ajudar ou não aquele velho caído no chão, bêbado e fétido? Se juntar a um protesto contra a morte de três jovens no morro da providência? Decidir em quem votar nas eleições? Criticar publicamente um amigo homofóbico ou racista?

                Saber que as coisas não estão dadas desde sempre é libertário. Por isso a contingência nesse sentido deve permanecer sempre presente. Mas isso não pode nos fazer esquecer da nossa responsabilidade pelo que o mundo é, pelo o que fazemos no mundo, pelo o que fazemos com nossa vida. É preciso não fugir da determinação, do que é, do que queremos que seja. Isso tudo nos remete a como vivemos nossa vida e como nos relacionamos com o mundo que nos cerca. Como nos posicionamos frente a tudo isso que acontece, que nos acontece e que fazemos acontecer?

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Published in: on 08/08/2011 at 13:40  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. meu querido,

    é amor de muito!

    e nem é contingente.

  2. pois é. to sabendo demais, meu bem. Ó, beijo enormolous..!


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