George, sin pierder la ternura # 3

Algumas reflexões sobre o sapo comum (p.381-5)

“Antes da andorinha, antes do narciso e não muito depois do galanto, o sapo comum saúda a chegada da primavera à sua maneira, que é emergir de um buraco no solo, onde permaneceu enterrado desde o outono anterior, e rasteja até a mais próxima porção de água apropriada.

(…)

Nesse período, depois de seu longo jejum, o sapo tem um aspecto muito espiritual, como um anglo-católico rígido perto do final da Quaresma. Seus movimentos são languidos, mas resolutos, seu corpo está encolhido e, por contraste, seus olhos parecem anormalmente grandes. Isso nos permite notar – o que talvez não víssemos em outra época – que o sapo talvez tenha o olho mais bonito do que qualquer criatura viva.

(…)

Menciono a desova dos sapos porque é um dos fenômenos da primavera que mais profundamente me atraem, e porque o sapo, ao contrário da cotovia e da prímula, jamais ganhou muita força dos poetas. Mas estou consciente de que muita gente não gosta de répteis ou anfíbios e não estou sugerindo que para desfrutar da primavera seja preciso se interessar por sapos. Temos também o açafrão, o cucu, o brunheiro e outros. O importante é que os prazeres da primavera estão disponíveis a todos e não custam nada.

(…)

É um pecado sentir prazer na primavera e em outras mudanças sazonais? Para dizer com mais exatidão, é politicamente repreensível quando estamos todos gemendo – ou ao menos deveríamos estar gemendo – sob os grilhões do sistema capitalista, salientar que, com freqüência, vale mais a pena viver por causa do canto de um melro, de um olmo amarelo em outubro, ou de algum outro fenômeno natural que não custa dinheiro e não tem aquilo que os editores de jornais de esquerda chamam de ângulo de classe?

(…)

Com certeza, devemos estar descontentes, não devemos simplesmente encontrar maneiras de fazer o melhor de um emprego ruim, mas se matarmos todo o prazer no processo concreto da vida, que espécie de futuro estamos preparando para nós mesmos? Se um homem não pode apreciar o retorno da primavera, por que deveria ficar feliz numa utopia que economizasse trabalho?” De qualquer modo, a primavera chegou, até no centro de Londres, e eles não podem impedir você de desfrutá-la. Eis uma reflexão gratificante. Quantas vezes fiquei vendo os sapos se acasalarem, ou um par de lebres disputando uma luta de boxe no campo de trigo, e pensem em todas as pessoas importantes que me impediriam de apreciar isso se pudessem. Mas felizmente não podem. Enquanto você não estiver de fato doente, faminto ou assustado ou enclausurado numa prisão ou num campo de férias, a primavera ainda será primavera. As bombas atômicas estão se empilhando nas fábricas, a polícia está rondando pelas cidades, as mentiras jorram dos altos falantes, mas a Terra ainda gira em torno do Sol, e nem os ditadores ou burocratas, por mais que desaprovem o processo, são capazes de impedi-lo.”

George Orwell, em “Como morrem os pobres e outros ensaios” p.381-5, Companhia das Letras, 2011

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Published in: on 09/08/2011 at 12:41  Comments (1)  

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  1. Que bom que eles não podem nos privar da sensibilidade.

    Lembremos sempre disso.


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