Aberto para balanço lírico-existencial

Todos nós temos nossos pontos fracos, nossas falhas, aspectos que denunciam nossa demasiada humanidade e que preferimos esconder dos olhos e bocas alheios. São aquelas marcas que, quando apontadas por outros, nos deixam entre chateados e raivosos, indecisos entre reconhecer as falhas e se magoar com o metido a espertinho.  Lembro de uma menina bonita, que me disse certa vez, “você acha que é muito diferente de todo mundo, mas não é, você é igual a todos…”. Isto foi dito de forma banal e besta no interior do cotidiano de um carona e me abalou um bocado. A palavra que toca nessa região sensível pode vir displicente, sem intenção de dor, mas fere, como dói qualquer toque numa região já machucada, por mais sutil. O que é um tanto doido é como, por vezes, nos fechamos resolutamente num mundo próprio, trancando coisas que julgamos muito sérias nos nosso porões. Fazemos disso tudo o segredo maior, quando num tempo depois descobrimos que tudo não passava de absolutamente nada. Esse é talvez o grande segredo da adolescência: “Aquela tormenta toda, todo aquele sofriomento, não vale nada, ou quando muito, muito pouco”. Quanto não sofremos para se aproximar de uma moça? Quantas séries não se passaram entre o desejo, a ação e o fracasso? Algumas vezes já nem estimamos mais tal senhorita e a aproximação segue mais por uma fidelidade às noites em claro e aos suspiros derramados no silêncio e na solidão, do que orientada pela realidade presente. Enfim, eu e o Abdias, dentre alguns outros, gastamos um precioso o tempo nos protegendo da vida, quando esta, quase nunca oferece grandes perigos. Oferece, isso sim, beleza, graça e aventura ou apenas um leve vazio que nos mostra o quanto somos desimportantes de fato.

Mamãe sempre reclamou que eu nunca suportei que falassem de mim. Ainda reclama. Naquele tempo, ao adentrar a sala e ouvir meu nome, para o bem ou para o mal, logo me punha para o lado de fora. Mais avesso às criticas, lógico, sempre retruquei contra o que ela dizia que eu, supostamente, fazia. “Rafael” você é muito chato com a sua irmã, quê isso mãe, ela é que fica me enchendo o saco… E por aí vai. Não suportava ouvir meu nome na boca e no julgamento dela e dos outros. Não só os momentos de crítica é que me repeliam, mas também os elogios. Não é fácil ouvir elogios. Agradecer no tom certo, prestar atenção ao que a pessoa elogia, mas sem com isso se achar um Jece Valadão, um Sigmund Freud. Foi lentamente, e nos últimos anos que passei a tentar mudar o panorama, me deixar envolver pelas críticas e elogios. Agradecer por ambos, ouvir, julgar, tentar mudar. Isso é coisa para não se esquecer. “Traz o peito aberto que a dor só lhe diz verdades” como canta Roberto Ribeiro. As palavras dos outros, pungentes, belas e graciosas também trazem verdades. Estar sob juízo do outro não é fácil. E por isso sempre tive dificuldade de me submeter à apreciação daqueles tão significativos para mim, como lidar, como proceder depois de receber juízos e pareceres. Por um bom tempo fugi dessa possibilidade.

Há alguns anos minha mãe passou para um amigo do trabalho, um senhor já idoso, arquiteto e também escritor, um artigo meu, para que este fizesse uma revisão. O texto havia sido premiado num concurso de artigos em psicologia social. Ele então leu, sugeriu pequenas e pertinentes alterações e me mandou uma pequena carta. Sem jeito eu nunca agradeci pessoalmente, nunca comentei ou discuti os pormenores de suas colocações ou algo do gênero. Devo ter pedido a minha mãe para agradecer a ele de forma informal, ou no máximo, ligado para ele no trabalho e trocado breves palavras. Enfim, me escondi. Fico um tanto triste, pois o senhor morreu há uns dois anos e não consegui agradecer como gostaria por suas palavras que, naquele momento, foram importantes para mim. Talvez porque elas juntavam o que eu insistia em separar, o gosto pela letra e a minha escolha pela psicologia social.

                Trancrevo abaixo a carta do Marcus Vinícius

“Rafael,

Sua mãe passou-me o seu texto premiado.

Fico feliz ao constatar que nem todos os jovens estão sofrendo de ‘miopia redacional’ ou seja, não sabem escrever.

Sua escrita é densa, tem conteúdo e, no aspecto formal, é muito especial, pois espelha uma personalidade forte. Você é bom no ofício.

Concluo isso por ver que você usa a primeira pessoa no singular com muita segurança. Como a dizer: ‘sou EU que estou escrevendo’.

Mas, tenho um vício que muitos consideram chato; espero que você não ache assim: intrometo-me em textos alheios e intervenho (ainda que minimamente) baseado na ‘licença de idoso’ que eu mesmo me concedi.

Fiz isto no seu texto e você pode adotar ou não minhas observações; foram feitas no sentido de dar uns ‘retoques’ para reforçar a elegância que você imprimiu no que ousei chamar de ‘ensaio’ (e não artigo, como você queria)

Um abraço do,

Marcus Vinicíus

27/10/2006” 

 

Mal sabia ele que, na minha timidez, buscava interventores.

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Published in: on 18/09/2011 at 20:07  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. que lindo pros.
    tenho me pegado pensando bastante nestas dificuldades, em especial na dificuldade de receber elogios. acho surpreendente como isso é difícil…
    gostei muito deste texto, vai valer pra fechar bem o fim de semana.

  2. Jula, valeu!! Pois é, devia ser só bom, né? Mas mexe tanto com a gente. As vezes parece que é pior do que ser xingado… Bejo grande!!


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