por precisão

Há algum tempo viajo na idéia de tentar precisar o exato momento de uma mudança. O momento da transformação de um lugar estranho em algo familiar. Um lugar, uma perna de mulher, uma mesa, uma pinta. Um sorriso, a conquista de uma intimidade. Essa preocupação com a dialética estranho/familiar me surgiu pela primeira vez ainda menino,  devia ter meus 10 ou 11 anos, quando me mudei para a rua grão mogol, número 1150, em Belo Horizonte. Lembro de entrar no prédio e achar tudo aquilo esquisito. Os objetos todos ali, me levavam a trabalhar, a juntar, a costurar e fazer relações: o piso de mármore branco da entrada, a rampa de inclinação leve, o corrimão, as escadas, o grande vão, as janelas. Depois mais escadas. E lá em cima o apartamento. Grande e antigo, sem mobília. Como é triste um apartamento sem seus móveis. E passados algumas semanas aquilo foi o meu lar. Casa da minha família, lugar de travessuras, lugar de ser campeão do mundo em 94, lugar de morte do Senna, lugar de desejo e solidão. Espaço no qual vivi por cerca de 6 anos. Lugar de vontades, de jogos e peladas, que com o tempo tornam-se épicas. Principalmente as partidas das sextas-feiras ao fim da tarde.  Lugar de mais peladas nas noites quentes de verão, numa “quadra” ou o que quer que fosse comprida e fina, de piso completamente irregular. Lugar de se descobrir bom em alguma coisa na vida. Bom de bola. Tempos depois, as 6 da manhã, caminhando para pegar o ônibus em direção a faculdade, eu cantava feliz os versos de Edu Lobo: “Brasileiro tatupeba taturana bom de bola, ruim de grana, tabuada sei de cor”. Ser bom de bola, ou ter sido foi algo necessário para minha vida, e só hoje me dou conta disso. Talvez o passo necessário para levar a sério minhas vontades,  para fazer valer objetivamente meus anseios, como foi a solidão da adolescência que me fez valorizar tanto isso do amor. Antes dos 11 anos eu era um péssimo jogador, e posso dizer, sem medo que foi ali na Grão Mogol que as coisas mudaram. Devaneio. Volto ao ponto: foi nesse prédio que tive uma certa consciência explícita dessa mudança do estranho ao familiar.

Isso me voltou uns dias atrás quando passei na rua General Polidoro. Ali ando vivendo a experiência dupla, estranho-familiar e depois familiar-estranho, novamente. Do espaço estranho que vira familiar e que depois volta à desatenção saudável dos prédios pelos quais se passa. Ali, nessa rua, que tantas vezes passei, por alguns anos a caminho da faculdade e de casa, foi ali que morei durante um mês. O prédio situado à frente da banca que parava, nesse outro tempo, para ler notícias, que parava para ver e rir ou chorar com a manchete do Meia. Ali, morei durante um mês. Um mês lindo, lírico. Um mês de pausa e trabalho. Um mês no qual reconstruí um mundo, um tanto devastado. Um mês no qual fiz daquele espaço uma casa e também um ninho, o mais bonito. Com segurança posso dizer que apenas no primeiro dia estranhei o ambiente. No segundo já me familiarizei com suas maravilhosas e vivas moradoras, com suas as quinas e móveis. E agora, passo mais uma vez na porta dessa casa que agora volta, lentamente, a ser espaço de passagem. Lembro de chegar a janela e pensar como é bonito morar e ter uma janela de frente para a rua, e na primeiro noite perceber como também é barulhento isso. E aí descobrir o quanto sou sensível ao barulho. Ainda descobriremos coisas assim, óbvias, pela vida a fora.

O olhar cotidiano daqueles prédios, daquelas construções banais, o olhar bêbado, pela manhã, ou sóbrio pela madrugada, de dias sozinho ou acompanhado, adquiriu sentimentos agudos e lembranças. Foi um mundo que se forjou nesse mês. E esse mês segue transposto ao infinito. Dentro de dezenas de anos, envelhecido e mais chato, quando um garoto me disser que mora na rua General Polidoro, eu lhe direi com graça: “Garoto, eu já morei na rua General Polidoro, em Botafogo, próximo ao cemitério, né?”. Agora, esse estado de coisas retorna a um certo desconhecimento, a coisa blasé tão bem colocada por Simmel no seu clássico sobre a metrópole e a vida mental. Eu sigo, e volto a passar por lá, agora com desatenção e pressa.

Volto, passo na frente do prédio e apenas olho as manchetes do Meia.

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Published in: on 30/09/2011 at 13:53  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Quando eu era pequena queria muito saber qual é o momento exato em que deixa de ser dia e passa a ser noite.
    Sempre que vejo escurecer lembro disso (ontem mesmo, enquanto eu estudava com a janela aberta) e até hoje eu não descobri, porque tem uma hora que você esquece que está vigiando, distrai e quando volta a olhar já mudou.

    Um beijo, querido!

  2. Elisa, lindo isso que você escreveu. É isso, né, a gente vai vivendo e não vê o tempo passar, não consegue agarrar um momento singular. É exatamente isso… Quando as coisas mudam? Quando você deixou de ser, para mim, a irmã do Bruno e ele é que passou a ser o irmão da Elisa?
    Beijo grande,
    Rafa


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