NOTAS DOUTORAIS #6 – Referência biblio-afetiva: Rancière e a síntese.

Quando me dei conta “O Desentendimento” já tinha entrado na minha vida intelectual e afetiva. Veio e ficou como um enigma a ser decifrado. Este livro, do filósofo Jacques Rancière, paira indefinido, entre a mesa e minha cabeça. Rancière é um desses pensadores que representam muito mais do que uma nota de rodapé ou uma referência ao final da tese. Sua influência na maneira que entendo a relação dos sujeitos com a vida social, com as formas de determinação, com a política é coisa difícil até de delimitar. É dessas relações que a diferença entre fora e dentro, entre meu e dela, perdem base de sustentação. Já havia, antes do “Desentendimento”, lido um artigo de síntese de seu trabalho e também já tinha passado os olhos na tese do autor, transformada em livro, “A noite dos proletários”. Sem dúvida Rancière junto a Ernesto Laclau, filósofo político argentino, são as bases da minha concepção sócio-subjetiva-política. Ambos, com suas ênfases na linguagem na sua relação constitutiva das identidades, a discussão sobre projetos políticos, hegemonia e articulação, a igualdade levada a seu próprio absurdo como o operante político, por excelência. Ambos são fundamentais, apresentam certas similitudes teóricas gerais, mas também divergências que não podem ser desprezadas. Não irei falar disso aqui, mas considero Laclau meio engenheiro, um tanto estrutural na sua maneira de pensar. Parece querer dar conta de tudo, cortando, medindo, encaixando. É analítico o seu pensamento. Ranciére, por sua vez, coloca na mesa situações, experiências pungentes que conseguem abrir um mundo, um encontro entre a compreensão teórica e a vida real, de uma forma desconcertante. Sua teoria é poética. Seu trabalho, ainda que por vezes escrito muito em francês, apresenta picos de uma clareza e de uma beleza absurda. Algumas linhas suas me sugerem uma tese de doutorado, uma teoria da linguagem, uma linha de pesquisa e outros delírios. Laclau me soa mais preocupado em quebrar, em perceber num dado projeto apresentado como homogêneo, as articulações e divisões. O que é bonito no trabalho de Rancière é sua capacidade de trazer muito, de desdobrar a partir de “pouco”. Síntese.

Relendo o livro “O mestre ignorante”, também de Rancière, surpreendo-me com a potência deste trabalho. E de como cada obra de Rancière, mantendo sua validade singular diferenciada, seja pelos elementos históricos ou políticos, aparece para mim de maneira integrada e coesa, como se o trabalho singular fosse também um momento de algo maior. Num artigo recente o autor que fora um promissor aluno de filosofia de Louis Althusser que escreveu com este o “Ler o capital”; que se distanciou criticamente do mestre, mantendo-se nos estudos sociais, históricos e políticos; e que atualmente é associado às teorias da imagem, do cinema e da arte, assim respondeu aos que demarcam uma “virada estética” na sua obra. Nesta referência a “virada estética”, vislumbra-se por um lado uma crítica ao passado marxista do autor associado a um enlevo pueril de sua “descoberta” deste infinito que é a arte. Por outro lado há também uma malícia que identificaria na mudança de objeto um desapego daquilo que “realmente” importa, ou seja, o foco na mudança social, na revolução, para uma atenção maior com as frivolidades burguesas, a preocupação com as belas formas. Modo-Rancière de responder a estes “críticos”:

“Minha preocupação principal, através da qual eu realizei minha pesquisa política e histórica era apontar para a dimensão estética da experiência política (…) Esta preocupação já estava no coração da minha dissertação de doutorado, publicado como La Nuit des proletaires [A noite dos proletários]. Neste trabalho eu recoloquei o nascimento do assim chamado movimento dos trabalhadores como um movimento estético: uma tentativa de reconfigurar as partições de tempo e espaço na qual a prática do trabalho era enquadrada, e que configurava ao mesmo tempo conjunto inteiro de relações. Isto é, relações entre práticas dos trabalhadores – localizadas no espaço privado e numa alteração temporal exata entre trabalho e descanso – e uma forma de visibilidade que equacionava sua invisibilidade pública; relações entre sua prática e a pressuposição de certo tipo de corpo, das capacidade e incapacidade desse corpo – a primeira da qual sendo sua incapacidade de falar suas experiências como experiências comuns na língua universal da argumentação pública. E mostrei que no núcleo da emancipação dos trabalhadores era uma revolução estética. E o núcleo desta revolução era uma questão do tempo. (…) Para reconfigurar a ocupação de seu ‘espaço-tempo’, os trabalhadores tiveram que invalidar a mais comum partição do tempo: a partição na qual os trabalhadores iriam trabalhar durante o dia e dormir durante a noite. Era a conquista da noite para fazer outra coisa que não dormir. A mudança básica envolvia uma completa reconfiguração da partição da experiência. Ela envolvia um processo de desidentificação, outra relação com o discurso, visibilidade e assim por diante.” (JACQUES RANCIÈRE, 2005, “From Politics to Aesthetics?” Em: Paragraph. Volume 28, PG.13-25, tradução minha) ”

Lendo “O mestre ignorante” me deparo a toda hora com frases, construções que estabelecem princípios, modos de interrogar a vida social, caminhos de pesquisa e ação que muito me animam para a vida acadêmica. A passagem a seguir é dessas que poderiam, em minha, às vezes não tão, modesta opinião fundar uma linha de pesquisa para a psicologia social.

“É preciso aprender. Todos os homens têm em comum essa capacidade de experimentar o prazer e a pena. Mas essa similitude não é, para cada um, senão uma virtualidade a ser verificada. E ela é só pode sê-lo através do longo caminho do dissemelhante. Devo verificar a razão de meu sentimento, mas não posso fazê-lo aventurando-os nessa floresta de signos que, por si sós, não querem dizer nada, não mantém qualquer acordo. O que se concebe bem, repita-se com Boileau, se enuncia claramente. Essa frase não quer dizer nada. Como todas as frases que deslizam sub-repticiamente do pensamento para a matéria, ela não exprime nenhuma aventura intelectual. Bem conceber é próprio do homem razoável. Bem enunciar é uma obra de artesão, que supõe o exercício dos instrumentos da língua. É bem verdade que o homem razoável tudo pode fazer. Mas ele deve aprender a língua própria à cada uma das coisas que quer fazer: sapato, máquina ou poema.” Consideremos, por exemplo, esta terna mãe, que vê seu filho voltar de uma longa guerra. Ela experimenta uma comoção que não lhe permite falar. Mas ‘esses longos abraços; esses enleios de um amor que parece temer uma nova separação; esses olhos onde a alegria brilha, em meio a lágrimas; essa boca que sorri, para servir de intérprete para a equívoca linguagem do choro; esses beijos, esses olhares, essa atitude, esses suspiros, mesmo esse silêncio’, em resumo, toda essa improvisação não é muito mais eloquente do que poemas? Sentis a emoção. Experimentai, entretanto, comunica-la: é preciso transmitir a instantaneidade dessas idéias e desses sentimentos que se contradizem e se nuançam até o infinito, fazê-los viajar no daqui de palavras e frases. E isso não se inventa. Pois nesse caso, seria preciso supor um tertius entre a individualidade desse pensamento e a língua comum. O que implicaria em uma ou outra língua: mas como seu inventor seria entendido? É preciso aprender, buscar nos livros os instrumentos dessa expressão. Decerto que não nos livros dos gramáticos: eles ignoram completamente essa viagem. E, não nos livros dos oradores: eles não buscam se fazer adivinhar, eles querem se fazer escutar. Eles nada querem dizer, eles querem comandar: ligar as inteligências, submeter as vontades, forçar a ação. É preciso aprender com aqueles que trabalharam o abismo entre o sentimento e a expressão, entre a linguagem muda da emoção e o arbitrário da língua, com os que tentaram fazer escutar o diálogo mudo da alma com ela mesma, que comprometeram todo o crédito de sua palavra no desafio da similitude dos espíritos.”

Jacques Rancière, “O mestre ignorante” ed. Autêntica, 2007, p.100-1

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Published in: on 21/10/2011 at 15:44  Deixe um comentário  

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