Acontecimento

Ontem, pouco antes de dormir, peguei para ler o livro “Momentos Políticos”, de autoria de Jacques Rancière. Já falei da minha devoção a esse pensador algumas postagens abaixo. Minha relação com Rancière tem muito mais de uma relação amorosa do que propriamente intelectual. As explicações, as razões vieram depois. E vieram a confirmar aquele pressentimento.

O livro é composto por intervenções do pensador em jornais, revistas, ao longo de 30 anos. São texto políticos, textos nos quais ele discute fatos, experiências, distúrbios sociais dessas última décadas. Se eu soltasse o freio de mão acadêmico me dedicava de corpo e alma a análisar panfletos políticos. Esses textos repletos de imagens metáforas, brilho e drama que buscam mais fazer agir, fazer fazer do que demonstrar como pensam bem esses nossos belos intelectuais engravetados.

Ontem a noite peguei este livro de Jacques Rancière. Li apenas um texto. O primeiro.

Dormi muito bem.

Jacques Rancière

(tradução minha desse texto em edição argentina)

Existem acontecimentos na vida intelectual?

A vida intelectual é como a vida da oficina ou da fábrica. O normal é que ali não ocorra nada: apenas o ruído das máquinas e dos motores. O acontecimento é, em cada uma dessas vidas, o que as interrompe.

Por interrupções [intelectuais] entendo essas suspensões da ficção coletiva que devolvem a cada um a sua própria aventura intelectual, estes cortes que o obriga a renunciar a escrever o que outros cem escreveram como ele ou a pensar o que seu tempo pensa ou não pensa, por si mesmo. Todos conhecemos esses acontecimentos, sempre individuais, que, de vez em quando, em um lugar ou outro, recordam a cada um o seu próprio caminho. Recordo, por exemplo, aquela tarde de maio, num tempo em que se desencadeava uma dessa batalhas intelectuais que se supunha devia fazer história. Esse dia, a bibliotecária me levou uma fina pasta com umas cartas que, em outro mês de maio, cento e cinqüenta anos atrás, haviam trocado um carpinteiro com um soldador nas quais contava seus passeios filosóficos de domingo e suas semanas de férias utópicas, e compreendi que era sobre isso o que eu tinha algo a dizer e não sobre o debate filosófico da época; que era isso o que me surgia: registrar a marca dessas férias, daquela interrupção diferente que não interessava a ninguém, que não era filosofia para filósofos, nem história para historiadores, nem política para os políticos…em suma, a nada, ou a quase nada que nos remete a todos a pergunta: tu que falas, quem és?” (p.20-1)

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Published in: on 11/11/2011 at 19:23  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Intelectuais ‘engravetados’ foi lindo! Os engravatados nas suas gavetas. Vetados de ir além, suspensos por finos gravetos, frágeis ao menor movimento.

  2. Valeu meu caro, não tinha pensado nos gravetos não, mas é isso aí, vida aberta e grande. E não frágil, fraco, fino.


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