Esse meu penar

Nos últimos meses venho pensando muito sobre os rumos deste blog, sobre os rumos desta vida, desse meu dizer. Sobre os temas, os modos de escrever, o porquê disso tudo. É evidente  a diferença entre o que isto foi, lá quando a vida tinha razão, e o que vem vindo a ser, nos últimos tempos. Meu horizonte primeiro foi a crônica e a escrita de Rubem Braga. Disso nunca tive dúvida, nem vergonha. E sei também como foram frustradas essas tentativas. Nos últimos anos, no entanto, venho perdendo gradualmente essa veia Braga. É uma pena, gosto muito do seu modo de ver a vida, mas me acontece alguma coisa contra a qual é inútil lutar. A estrutura bragueana, a reflexão em torno do banal, do detalhe particular elevado ao absoluto, a luta do “homem no mar”, a centralidade dos elementos estéticos e psicológicos do mulheril, a “mulher que espera o homem”; as notas sobre os diversos personagens da vida, como seu amigo Evandro Pequeno que escapava das aflições morais e políticas de nosso país, proclamando-se um “sueco em trânsito”, sujeito que nada entende, que nada pode com as questões sociais de nosso país. O escritor que vez ou outra, costurava com maestria o cotidiano, a experiência e a política, como nesse último exemplo, foi e é minha maior referência na escrita/pensamento. E isso independe das escolhas de objeto, das minhas vontades, das teorias e filosofias. Rubem me acompanha sempre e poucas vezes recebe o devido crédito.

Mas já faz algum tempo, e isso tem se intensificado nos últimos meses, que exploro outros caminhos. Por um lado fiquei bastante impressionado com a escrita clara, panfletária e vigorosa tanto do pensador marxista José Carlos Mariatégui como do grande escritor inglês, George Orwell. Acabei lançando trechos de ambos por aqui. Por outro, tenho jogado muito das minhas reflexões do doutorado neste blog, tentando fazer deste espaço um momento laboratorial do meu labor acadêmico. Minha idéia original era que essas “notas doutorais” fizessem eco levantando críticas, apontamentos, sugerindo debates. Queria discutir elementos de minha orientação teórica, sem entrar nos mimimis de referências e notas, e assim abrir meu pensamento, menos como quem expõe uma tese e mais como quem tira a roupa.

A verdade é que talvez algo do velho Braga tenha ficado para trás para sempre. Há um cinismo confortável no cronista. O belo cinismo do homem heterossexual, charmoso e solitário para quem a vida é apenas um convite ao deleite, ao prazer. O cinismo de quem acha mesmo que a vida está aí apenas para ser vista e vivida como poesia.

O trágico e o heróico. O amoroso. O infinito e a ação.

Desculpe, Rubem.

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Published in: on 29/11/2011 at 01:15  Deixe um comentário  

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