Eu, otário.

O velho Braga, numa de suas tiradas essenciais, lembra que “a gente sempre sabe, de um casal de amigos, um pouco mais do que cada um dos membros do casal imagina”. Eu diria, seu Rubem, que a gente sempre sabe de uma pessoa um pouco mais do que ela própria imagina. E mais, alguém sempre sabe uma daquelas coisas que nós não deixaríamos nem no rodapé de nossas biografias autorizadas. Quem nunca foi otário ou tolo na vida? Malandro é malando e Mané é Mané, mas será? Será que todo malandro não tem seus dias de Mané? Quem nunca se viu completamente perdido, quando se achava o dono da situação? Para aqueles dados a Luis XVI, convém, vez ou outra, lembrar essas coisas. Desconfio muito de quem não desconfia de si, de quem acredita muito nas suas realizações, nas suas verdades, na sua arte, na sua ciência. Se saber otário, fraco e ingênuo faz bem.

Falarei de quatro situações. A primeira, ainda menino, bem menino foi quando me ofereceram uma coxinha de frango, numa festa. Peguei uma feliz e alegre com a bondade do ser humano e dos meus amiguinhos. Cheia de pimenta, chorei muito e corri em busca de minha mãe. Segunda. Anos depois, por volta dos meus doze anos, enquanto jogava uma pelada no meu prédio antigo alguém chutou a bola no apartamento de um vizinho. Este apartamento tem uma área privativa, tipo um quintal, na qual havia uma cadela. A bola caiu nesse pequeno quintal e pensávamos que não havia ninguém em casa, por isso, com medo da cadela comer a bola, um de nós pulou o pequeno muro e pegou a bola. Algum inteligente no grupo, na base do comportamento das massas, deu a  idéia de trancar o cachorro dentro da casa, que estava aberta, só para sacanear. Continuamos a jogar. Logo depois o morador, um pouco mais velho que a gente, apareceu puto, querendo saber se alguém de nós tinha trancado a cachorra no seu apê. Ela tinha feito a maior bagunça, sujando a casa toda, e se ele sabia que havia sido nós, apenas queria a confirmação para, metaforicamente, soltar os cachorros em todos nós. Olhávamos um para o outro e nada de alguém falar. Pouco depois subi para casa e tive uma crise de consciência do cacete, chorei desesperado, por ter mentido, por não ter falado a verdade. Não consigo mais nem entender o porquê de todo o drama. Enfim, fiz com que meu irmão e os outros contassem para o vizinho o que havia ocorrido. Terceira. Eu era muito bom em física no colégio, amava as provas, o desafio, a lógica. Não por acaso fiz o vestibular e comecei o curso de física. E aí, num dia de prova, fiz uma questão, que achei bem fácil. Saí da prova e fui discutir com os colegas sobre a prova. Nesta questão havia o desenho de um globo imaginário, e em cada canto do globo, uma garrafa de coca-cola (na época não me atentava para os fenômenos ideológicos, a fafich ainda não havia entrado em minha vida). A pergunta era sobre o comportamento do liquido em cada garrafa, como ficaria o conteúdo de cada uma delas. Considerando que a gravidade atua do mesmo modo nos quatro cantos da terra, a resposta certa era que o líquido permanecia na garrafa, sem derramar. Eu não só errei essa questão bem idiota, como lutei bravamente pela minha resposta errada, nas discussões pós-prova. Discutia, brigava, brandindo minha inconteste fama de geniozinho. Vergonha. Marquei a resposta que assinalava que todas as garrafas derramavam, menos a “de cima”. Não entendi que a esfera era uma representação do planeta. Erro meio psicótico.

Quarta. Noite alta e agradável, em volta de uma fogueira, gente amiga, na Serra do Cipó. Num momento, ouvi alguém dizer que seria tão bom se alguém fizesse um brigadeiro. As pessoas foram concordando com aquilo e logo dizendo que, infelizmente, não sabiam fazer brigadeiro. “Nó, seria bom mesmo, um brigadeiro agora, pena que eu não sei fazer”, esta era a tônica. O idiota aqui não entendeu nada e disse todo orgulhoso: “Uai, eu sei fazer brigadeiro”. Todos ficaram felizes e agradecidos. Senti que sim, eu valia alguma coisa. Logo me coloquei para dentro da cozinha, todo orgulhoso de minha proeza. Bom, não precisa dizer que todo mundo sabia fazer brigadeiro. Depois, no papel do otário, ainda achei legal, ri de mim, e todos comemos brigadeiro, satisfeitos com a vida.

Tem uma coisa boa em ser otário, vez ou outra.

É saber que alguma coisa de ingênuo persiste, apesar desse mundo cruel que aí está.

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Published in: on 03/12/2011 at 15:42  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Muito legal, Rafa… Bom mesmo é conseguir passar por essas poucas (ou muitas) e boas sem perder a tranquilidade da respiração.

    Só pensar ou falar “é, vacilei mesmo.” Sem emendar logo um “e daí???” bem defensivo.

    Difícil, né? Eu acho…

  2. eu tb acho difícil sim lidar com os rodapés das estórias. Mas o mais importante é falar alguma hora e não se esquecer levianamente, como a maioria faz. Fingir que não foi nada ou coisa parecida. É importante falar “vacilei” e ponto final, por enquanto. No caso aqui são coisas mais tolas mesmo, de ingenuidade na vida… Me incomodo muito com quem não leva a sério as coisas que faz ou sofre e fica aí surfando num suposto prestígio ou numa imagem romantizada de si.
    valeu beibe,
    Beijo!


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