Isto é um assalto!

Já há algum tempo vinha pensando que nunca mais seria assaltado. Mesmo morando no rio, considerava cada vez mais  remota a possibilidade de ter uma grana extorquida por outro ser humano, ao atravessar uma rua ou ao sair de casa. E olha que eu já vinha, com tranquilidade, atravessando o túnel velho, na alta madrugada carioca.

No entanto, não é que há poucas horas, voltando de uma casa amiga na minha cidade natal, ouvi algo como “me passa o celular”, “isto é um assalto” ou “fica quieto e me passa a grana”. O sujeito chegou rápido, era menor do que eu, mas acabei levando a pior, talvez, pela surpresa do anúncio. Mesmo um tanto bebâdo nessa hora de aperto me sobreveio uma força primitiva de luta. Quando o agressor se aproximou de mim, e anunciou o ataque grudei em seu corpo e logo estávamos os dois no chão. Ainda na luta o empurrei para um pouco mais longe de mim. Nesse momento achei melhor correr aproveitando a distância momentânea. Dei um pique de vinte metros e logo olhei para trás. A primeira intenção era  saber se o assaltante vinha atrás ou não. A segunda era entender quais eram suas reações. Ao levantar vi que minha camisa tinha um rasgo considerável e que o assaltante, já distante estava próximo de uma caçamba repleta de pedras. Resolvi prosseguir no meu caminho, com o coração sobressaltado, mas ao mesmo tempo consciente de que estava seguro. Não sei porque diabos me lembrei nesse mesmo instante da frase do Walter Benjamin: “as citações, no meu trabalho, são como ladrões à beira da estrada, que irrompem armados e arrebatam o consciente do ocioso viajante”.  Bom, eu não tinha nenhuma citação no momento, apenas ladrões me irrompendo pela estrada e interrompendo um poético e ocioso viajante. Minha tranquilidade pequena burguesa ficou no caminho, assim como o rasgo da camisa. Há mais de quinze anos não era abordado ou assaltado, ou nada do gênero. Apesar de saber, sempre, que isso não significava absolutamente nada.

A vontade foi voltar logo depois e arrebentar a cara do sujeito. O que durou por volta de vinte minutos. Depois disso nada restou, no máximo a consciência de evitar andar pela avenida nossa senhora do carmo depois das duas da manhã, e também uma escoriação no cotovelo, mas que não chega mesmo a ser uma dor.

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Published in: on 26/12/2011 at 06:31  Deixe um comentário  

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