TE DISCO TODA# 2 – Canto por um novo dia

    

      Não sou fã da Beth Carvalho. Reconheço seus méritos como cantora e a admiro por sua militância cultural. Acho bonito seu modo de cantar e seu repertório, mas na verdade não me derreto de paixão por ela. Não tenho nenhum orgulho disso, não porto-bandeira dos meus desgostos. Beth é reconhecida por iluminar outros artistas a partir de sua posição, gênios da antiga, como Cartola e Nelson Cavaquinho, mas também artistas que ela ajudou a lapidar como Zeca Pagodinho e o pessoal do Fundo de Quintal. Mas mesmo assim tenho que confessar que sinto algo estranho pela cantora. Um desconforto. Talvez tome por “Beth Carvalho” sua última versão. E aí já não gosto tanto de sua voz, do seu repertório e do modo como canta. Por isso amo tanto o disco Canto por um novo dia, de 1973. Ainda não temos a Beth de Coisinha do pai ou a de “Chora não vou deixar…chegou a hora, laiá laiá”.

      O disco é triste, lírico um tanto grave com sutis toques de graça. E é um disco, coisa rara. Por isso falo dele aqui. Escuto-o todo, de cabo a rabo, muitas e muitas vezes.  Como já falei, a idéia dessa seção é falar sobre alguns discos que me deixam felizes por existir. Discos que soam como uma obra, na qual até aquilo que é estranho parece ter sido cuidadosamente colocado ali. Foi só me preparando para escrever esse texto que vi o grupo da pesada que toca com a madrinha do samba. Não sabia, mas os arranjos são de Cesar Camargo Mariano. No violão Dino 7 Cordas, Geraldo Vespar e Nelson Cavaquinho (em Folhas Secas), na percussão Mestre Marçal, dentre outros. Mas o que mais gosto é a maneira como Beth canta. Tem vida, tem dor, uma voz mais grave que aquela que acostumamos. Coisa linda. Escute, vai.

      O início é retumbante. A primeira música é das que eu mais gosto no disco, Hora de chorar. “Com licença… está na minha hora de chorar…”. É nesse tom, melancólico e profundo, já anunciado na primeira frase que o disco segue. Na letra e na melodia. A próxima canção que dá nome ao disco Canto para um novo dia parte da dor da música anterior para nos dizer que: “a tristeza que chora é a mesma que ri / vou morrendo agora, mas esta dor terá fim…”.É um desses sambas que gosto tanto, ps levanta-defunto, os sambas “sacode, levanta a poeira e dá volta por cima”. Essas músicas de esperança e de vida, porque a tristeza e a dor, bebê, estão sempre aí.

      Em Se é pecado sambar Beth nos brinda com outro gênero de samba que amo, o meta-samba. no estilo “o samba é o meu dom” do Wilson Batista e PC. Pinheiro ou o “eu canto samba” do mestre Paulinho. É uma dessas músicas que a gente fica cantando e se deliciando com a doce sacanagem explícita do samba. A malícia, o requebro do pandeiro, do cavaco. E aí com a próxima perdemos um pouco o rumo, pois  para surpresa geral, chega um frevo, e dos crássicos: Evocação n.1. Nessa versão o arranjo cheio de estilo dá uma sublimada nos calorsh do frevo. Na sequência vem essa música triste e tão bonita. De autoria do Gudin e do PC. Pinheiro, com a interpretação feminina, necessária nesse caso, para a Velhice da Porta-Bandeira . A música pede um andamento lento, uma tristeza que aparece de uma dia para o outro, uma dor impossível que se instala quando tudo parecia só beleza.

“Ela se emocionou / perto dela ela ouviu /
alguém gritou / Viva a porta-bandeira!! /
sou eu, ela pensou / mas foi a outra quem se curvou…”

     Ai, como isso dói. Até hoje, quando escuto esses versos fico com uma pena daquela que já não é mais a porta-bandeira. Fico pensando se não teria jeito das coisas serem diferentes, mas não, não tem, não tem jeito… a vida é isso mesmo. O tempo passa e há sempre outra porta-bandeira a espreitar. A próxima música é dessas gravações que consolidaram o lugar especial da Beth Carvalho no nosso imaginário. A clássica Folhas secas de Nelson Cavaquinho. Adoro os bordões do violão do Nelson quando ele toca, os tom tom tom, marca única do mestre. E a música seguinte vem anexada à sacanagem carioca, uns sorrisos no meio dos versos. Salve a preguiça meu pai. “Com meus pés não vou, venha me buscar / mas só vou…. de colo, para não me cansar”.

      Em seguida a gente escuta Mariana da gente, outro samba filho mais da tristeza do que da alegria. Tem uma passagem que o Cartola, já mais velho, comenta que o seu samba  já não serve para animar carnaval e escola de samba, que seu samba agora é triste, melancólico, e é esse samba que tanto me toca. A autoria de Mariana é do João Nogueira, o que me surpreende, pois não parece coisa do João não. Adoro a passagem: “Em um lindo apartamento, de mármores negros, do lado do vento, de frente pro mar / Nova mulher, nova beleza, um olhar só de tristeza, com um sorriso de agradar…”. É das minhas favoritas. Ô Mariana, menina, volta para Piedade. Copacabana não é seu lugar, que a gente tem saudade…

      A partir daqui, em minha opinião o disco perde força. O melhor já passou. Talvez Beth tenha exagerado tanto no início que o quoficiente de lirismo atinge seu limite com MarianaFim de reinado é um samba bonito, mas não é dos meus preferidos. Clementina de Jesus, a 11ª primeira canção, é um samba de autoria de Gisa Nogueira para homenagear a folclórica Clementina. A lendária cantora que integrou o conjunto Rosa de Ouro e só foi ser reconhecida publicamente já bem velha. Em Memórias de um Compositor Beth rasga o verbo para elogiar a sua escola do coração, a Mangueira. A última versão é um pout-pourri composto por Flor de Laranjeira/Sereia/São Jorge Protetor. São músicas antigas que ressoam nessa emoção do povo que canta no fundo de quintal, nos churrascos da periferia. Sambas que procuram fazer a gente cantar, sem rebuscamento, para simplesmente fazer festa. rir, sem pretensão estéticas. É assim que Beth termina o disco. Sai um pouco do tom “Cesar Camargo Mariano”, na sua elegância para chegar a esse elemento povo. É sempre bom se despedir dizendo para onde se vai.
Cacique de Ramos, Fundo de Quintal, Cartola, Nelson Cavaquinho.

    É Zé, é nóis.

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Para escutar:

    http://umquetenha.org/uqt/?p=1146

Mais informações sobre Beth e o disco:

    http://www.samba-choro.com.br/artistas/bethcarvalho

    http://loronix.blogspot.com/2008/06/beth-carvalho-canto-para-um-novo-dia.html

    http://veja.abril.com.br/blog/passarela/figuracas/beth-carvalho-2/

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Published in: on 29/01/2012 at 18:49  Deixe um comentário  

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