Notas doutorais #7 – Tomar para si a responsabilidade

Uma das coisas que mais me intriga, me angustia e por isso me convoca a realizar minha pesquisa de doutorado é saber porque diabos as pessoas resolvem se responsabilizar pelo quê acontece no mundo. Quando é cada vez mais fácil culpar o Eike Batista, a globalização, a rede Globo, o estado brasileiro, a ganancia dos mega-especuladores ou a baixa qualidade da educação no país. Por que algumas pessoas resistem a jogar a capacidade de ação nestes atores e se colocam a criar um espaço possível de ação, de fala, de articulação, de política? Essa questão aparece sempre em qualquer luta social e política. Pode se dar quando uma mulher na rua presencia um homicídio perpetrado pela própria polícia e faz alguma coisa com isso; quando as pessoas passam a não aceitar mais a violência cotidiana contra determinadas populações, negros, homossexuais, mulheres e se mobilizam para mudar leis, para colocar a boca no trombone. Pode também se dar quando populações resistem a ser esmagadas pelo capital que pega o que vê pela frente, histórias, pensamentos, tradições, árvores e pedras e lançam num alto forno. O posicionamento crítico do sujeito sobre sua realidade, sua força para agir, isso que para mim não tem nada de heroísmo. Odeio essa referência que só que só nos faz desconsiderar a realidade que vivemos e suas determinações olhando apenas para capacidade única de alguns tipos privilegiados de sujeitos, moldando mitos que se dissociam completamente da vida, essa besta. Há banalidade nos atos mais “heroicos”. Há que se recuperar essa banalidade.

Ao ver o filme acima uma fala me chamou atenção, por fazer eco com coisas que venho estudando. Um senhor de barbas brancas, indignado e com raiva, quando vê que está sendo expulso da sua própria terra por uma grande empresa, diz:

“Eu saindo daqui não preciso viver mais. Daqui dessa terra que eu nasci e criei meus pais, meus avós…”

É o filho que cria os pais. E os avós. É ele que toma para si o cuidado com o mundo que foi, que é. É ele que restitui e defende a eterna continuidade das coisas. Mesmo que as coisas devam continuar diferentes.

O velho fala dos seus pais falando também para seus filhos.  E ele diz:

“Não se esqueçam!”

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Published in: on 13/02/2012 at 18:40  Deixe um comentário  

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