Bipianas # 4 – Um ser de luz

Sempre se canta no bip. Tem dias que me emociono mais, em outros só me emociono.

Sempre me lembro dessa história. Sempre me lembro da interpretação, se rasgando, do João Nogueira.

Dizer que é uma música é pouco. É outra coisa.

UM SER DE LUZ

“Me casei com Clara em 1975, e ela morreu aos quarenta anos, no auge de sua carreira e vitalidade, em 1983. De uma morte, fruto de uma negligência médica jamais provada. O Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro estava sob intevenção federal e foi designado um médico da Bahia para sindicância, e possível processo. Nada ocorreu, com de costume, com a blindagem protetora da corporação, que vulgarmente é chamada de Máfia de Branco.

Numa simples cirurgia de varizes na perna houve um choque anafilático, com consequências irreversíveis de lesão cerebral. Foi mais de um mês de um coma cruel, afetando toda a população do país. Uma das maiores e mais populares cantoras brasileiras. Clara era queridíssima pelos amigos e pelo imenso público, nação afora, gerando comoção e sandice. O pátio da Clínica São Vicente, na Gávea, bairro da zona sul do Rio, transformou-se num grande circo místico. Passei por maus pedaços tentando administrar o sanatório geral. Até o CTI quiseram invadir, com toda espécie de reza, simpatia, medicina popular alternativa, imagem de santo, água benta do Jordão, chá de raspa de madeira sagrada de Jerusalém, sarça do Sinai, acupuntura chinesa, garrafada africana, corrente espírita de oração em torno do leito, entortador de garfo, paranormais, médico alemão incorporado, o diabo a quatro. Foi uma maratona em que quase não se dormia ou comia. Eu chegava no hospital às seis e pouco da manhã, embicando o carro por uma porta lateral, pois não se podia passar em meio à multidão que se formou na entrada, numa vigília intermitente, e voltava pra casa quase a meia-noite. Alguns amigos mais próximos me ajudaram a segurar a barra durante a longa agonia de espera pela hora final. Dori Caymmi foi um deles e Danilo Rocha, meu advogado, o outro, fora claro, meus familiares e os da Clara.

O enterro foi dos mais emocionantes que essa cidade já teve desde sua fundação. O cortejo, saído da Portela, em Madureira, até o São João Batista, em Botafogo, atravessou diversos bairros. Por onde passou, o povo se aglomerou nas calçadas, com lenços brancos de despedida e aplausos sentidos. A massa parou e foi pras ruas homenagear seu ídolo. Todos choravam, alguns compulsivamente. Imaginem vocês como eu me encontrava…

O tempo passou. A vida voltou a seu curso. O cotidiano se impôs pra todos. Menos pra mim. Tudo estava revirado. Tudo mudara. E eu também. Pra onde eu ia ninguém me deixava esquecer. Não tive mais sossego. Me enclausurei. Pouco saía.

Um dia cruzei com Mauro Duarte e João Nogueira e parei pra tomar um gole, que era o que eu mais tinha gosto de fazer. Achei um absurdo quando João me propôs, num momento como aquele, compor um samba pra Clara, um samba de adeus. Mauro Bolacha já tinha o pedaço do que parecia um refrão, e João, o início da música. Recusei, quase encrespando com os dois. Não tinha cabeça pra pensar nisso. Nogueira, então, muito habilmente, me convenceu com o seguinte argumento.

– Paulinho, só você tem autoridade pra fazer esse samba. Se não fizer, vai pintar uma enxurrada de samba ruim sobre o assunto, e você vai ter que aturar, pra sempre, papo e melodia de merda no teu ouvido, onde quer que vá. E muitas. Se você topar, exorciza seus demônios, ao mesmo tempo que cala a voz dos oportunistas de plantão. Pensa nisso com mais calma. Sei que  o poeta ainda está sob o efeito da porrada. Mas vai valer é tua alma, companheiro. Ninguém vai se atever a arriscar um samba depois do teu.

João tinha razão. A melodia foi feita e eu criei os versos mais definitivos que pude do acontecimento. Ninguém ousou fazer outro, nunca mais. Porém foi de dilacerar o coração, e eu jamais consegui cantá-lo.

O nome é o título de uma crônica do meu querido amigo Arthur da Távola, escrita pra O Globo , feita naqueles momentos de agonia do coma.

UM SER DE LUZ

Um dia

um ser de luz nasceu

Numa cidade do interior

E o menino Deus lhe abençoou,

De manto branco ao se batizar

Se transformou num sabiá,

Dona dos versos de um trovador

E a rainha do seu lugar

Sua voz então

A se espalhar

Corria o chão

Cruzava o mar

Levada pelo ar

Onde chegava espantava a dor

Com a força do seu cantar

Mas aconteceu um dia

Foi quando o Menino Deus chamou

E ela foi pra cantar

Para além do luar

Onde moram as estrelas

E a gente fica a lembrar

Vendo o céu clarear

Na esperança de vê-la, sabiá!

Sabiá,

que falta faz sua alegria,

Meu canto agora é só melancolia

Canta meu sabiá

Voa meu sabiá

Adeus meu sabiá

Até um dia!

(Paulo César Pinheiro,História das minhas canções – São Paulo: Leya, 2010.

Um ser de Luz – p.194-198)

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Published in: on 12/03/2012 at 04:13  Comments (1)  

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  1. esse samba é lindo demais! acho que ouvi umas 5 vezes nestes últimos dias, coincidentemente. agora que sei da história gosto ainda mais.


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