Descoberta

             Volta e meia volta.

     Quando conheci o disco-show “O importante é que a nossa emoção sobreviva” de Paulo César Pinheiro, Eduardo Gudin e Márcia, fiquei uma noite e três semanas em êxtase profundo, escutando e tentando decifrar o segredo da vida. Na casa de minha mãe, enquanto meu irmão fazia uma festinha com seus amigos, eu ficara ali absorvido pelo disco que acabara de baixar. A noite foi de deslumbramento. Foi quando também me apresentei ao Sr. Roberto Ribeiro. Ouvia esses discos absurdos, “novos”, mais uma vez, mais uma vez, mais uma vez. Ah, essa boa repetição! Como também aquela outra. “Onde você estava?”, “como vivi até aqui sem te escutar?”, ou “o que havia de tão importante na escola para nunca terem me ensinado a escutar isso?”. São os pensamentos que brotam nesses momentos. É um troço doido, uma alegria maior, e maior do que a música é a própria “descoberta”, a esperança que dá de saber que esse troço bonito existe mesmo, de verdade. Nesse momento a coisa fica.

     Em Salvador, sentado num albergue no Pelourinho escutei, enquanto esperava a Rita acordar, uma voz linda e grave, cheia de charme, vindo da rua. Fui lá na loja de música, origem do som, e perguntei quem é que estava cantando. “Ederaldo Gentil”, respondeu o rapaz. Registrei o nome para mobilizar um pouco minha obsessão quando voltasse de férias. Contrariando as estatísticas, acabei esquecendo… Passaram alguns meses e, semana passada, me deparei com a voz desse sujeito nas redes sociais da vida, exatamente com a música acima. Que coisa linda.

     A descoberta desse mundo secreto não deve nada às descobertas mais lindas da vida, do amor, da poesia, das mulheres. Principalmente quando elas deixaram a companhia de Platão e vieram, de mãos dadas com o velho Marx, entoando sambas e marchinhas, a me encontrar. E tudo isso aconteceu mais ou menos no mesmo momento, no final da escola/início da faculdade. Foi quando veio o samba e que se fez presente a mulher. Essas lembranças me mandam mais uma vez à amargurinha que sinto dos meus dias de escola, de minha adolescência…. Vivi tudo aquilo como uma prisão. Não me envolvi verdadeiramente comigo mesmo nessas relações com o mundo, as artes, os problemas de meu tempo, as paixões, as moças. Errei pouco, briguei pouco, maltratei pouco… Tinha medo dos efeitos de minhas ações, tinha medo de desagradar, de deixar minha mãe triste… Tinha medo. Imaginava um godfather mafioso e bravo, lá em cima a perguntar: “E aquele magrelo esquisito ali do lado, qual é a dele?” Alguém diria, “nada chefia, esse aí é figurante, liga não.”

     Descobrir as mulheres continuou no descobrir músicas, cantores, suas histórias, e a história que há por trás disso tudo. Saber que a letra de Regra Três foi, na verdade, uma segunda versão feita por Vinícius de Moraes, atacando pessoalmente Toquinho que não havia gostado da primeira versão, é algo bonito. Mas mais bonito ainda é entender que o ataque está nisso aqui, no: “tantas vocês fez que ela cansou / porque você rapaz, abusou da regra três / onde menos vale mais”. A letra é toda um puxão de orelha do poeta no parceiro que andava ludibriando sua amada de então, uma pobre e bela donzela indefesa, procurando outras e sempre mais, quando Vinícius lhe ensinava que menos vale mais.

     Foi nessa toada de solidão e descoberta, que pouco antes do Carnaval de 2005 me debrucei na vida de Noel Rosa. Já não sei o quê tanto me intimava para comparecer a Noel. Talvez apenas uma curiosidade mórbida, que naquele momento me assombrava. Perguntava-me como um sujeito que morreu tuberculoso aos 26 anos conseguiu compor tanta música (mais de 300) e viver uma vida tão intensa. Aos 22 anos sem sinal de tubérculos ou intensidade, andava assombrado pela possibilidade da solidão e da incapacidade de deixar marca alguma na terra. Passei aquele carnaval longe da música alta e dos desejos e carícias, trancado em casa lendo a volumosa biografia do compositor carioca, safado e bem-humorado da Vila. Noel compôs Gago Apaixonado pra sacanear seu vizinho que sempre cantava as músicas que ele gravava. “Canta essa agora meu chapa, canta?”. Ah como fui feliz naquele carnaval. Por um lado ficava ansioso com a ausência das mulheres reais, lembrando sempre do imperativo moral do filósofo Rubem Braga que dizia enquanto estou escrevendo, lá fora, na rua, passam mulheres. Minha obrigação era descer as escadas e ir vê-las”. Eu que nem escrevia, apenas lia, por outro lado, já suspeitava que os afagos não dados, mas bem guardados na estufa da imaginação, iriam se proliferar e se converteriam em beijos e olhares ainda mais bonitos e exuberantes, tempos depois.

     Noel Rosa e Mário Lago disputaram bravamente o coração de Ceci. Foi para Ceci que Noel compôs “Ultimo Desejo”. Ceci dizia sobre os dois amantes uma coisa interessante. Mário Lago, comunista de carteirinha do partidão, fazia longos discursos contra a opressão do capitalismo, mas vestia as melhores roupas e freqüentava os ambientes mais privilegiados, burgueses, daquele Rio dos anos 30. Já Noel, por sua vez, dizia a moça, nada dizia, mas andava sempre entre os pobres, vivendo com o povo, fazendo samba e não discurso. Em outro momento, ouvimos outra história. A esposa de Noel (sim, ele foi casado) desconfiando de suas saídas noturnas perguntou ao poeta aonde ele ia. Ele então sugeriu que ela o acompanhasse. Noel seguiu para a central do Brasil, entrou nesses trens que seguem para o subúrbio e lá, vendo o povo, compôs música. Era o que ele fazia. E era também o que fazia Odair José, sentado nas rodoviárias, nos cantos pobres da cidade, conversando com o povo e escrevendo música. Como psicólogo social, o que sou, não posso deixar de me encantar com isso tudo. Um dia ainda constará numa ementa de um curso de metodologia em psicologia social, um trecho da biografia do Noel e alguma coisa sobre Odair.

       Ah, e mais uma coisa, antes que me esqueça. Noel morou em Belo Horizonte, minha terra. Não agüentou, queria voltar para o Rio, para suas orgias, para seus sambas. Seu médico lhe aconselhou que ficasse em BH. No que o mestre disse: “Melhor um mês no Rio do que 10 anos em Belo Horizonte”. Se o seu julgamento foi justo ou não é coisa que não me cabe julgar, mas que ele acabou correto no seu dizer, isso sim, pois morreu pouco depois, no Rio de Janeiro.

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Published in: on 14/03/2012 at 12:22  Comments (1)  

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